O que para a maioria dos adultos pode parecer um mero passatempo, para as crianças é algo muito sério e necessário. Se para os adultos navegar é preciso, para as crianças, brincar é preciso. Brincar de casinha, de carrinho, de amarelinha, de bola ou simplesmente rabiscar uma folha de papel tem um significado extraordinário no desenvolvimento sensorial, motor, afetivo, criativo e social dos pequenos.
Ao brincar, eles não estão apenas se divertindo, mas descobrindo e entendendo o mundo em que vive e interagindo com ele. Brincando, a criança aprende.
Por isso, cada vez mais os educadores recomendam que os jogos e brincadeiras ocupem um lugar de destaque não apenas dentro das escolas, mas também dentro de casa.
Para Rosângela Aparecida Dias de Souza, educadora e diretora de Divisão do Departamento de Educação Infantil da Secretaria Municipal da Educação, o que as crianças aprendem até os 6 anos, elas carregam para o resto da vida. “As inter-relações que as brincadeiras proporcionam capacitam as crianças a entenderem como se processa o mundo ao redor delas e ensinam como viver em sociedade”, sustenta.
Diretora de escola e responsável por 12 unidades municipais de educação infantil, Rosângela diz que a hora de brincar é um momento mágico para as crianças.
Para Rita Melissa Lepre, psicóloga, mestre e doutora em educação e professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, brincar é uma atividade necessária e imprescindível ao desenvolvimento infantil.
“É uma das mais importantes atividades da infância. Por meio das brincadeiras, as crianças podem exercer sua capacidade criativa e desenvolver habilidades cognitivas, afetivas e sociais”, afirma.
Segundo ela, quando as crianças brincam, elas exercitam e desenvolvem a imaginação e também constroem conhecimentos. “Na brincadeira, as crianças conseguem articular a imaginação e a imitação da realidade. O ato de brincar é um importante regulador emocional, uma vez que permite aos pequenos expressar seus afetos e sentimentos”, argumenta.
Na opinião da professora Maria do Carmo Monteiro Kobayashi, que há anos estuda a relação das crianças com os brinquedos, apesar de toda essa importância da brincadeira na vida dos pequenos, há quem procure abreviar a infância alheia. Segundo ela, não é raro encontrar pais que valorizam mais a alfabetização de seus filhos do que o divertimento. Querem que o filho aprenda a ler e escrever antes dos amiguinhos acreditando que assim sairão em vantagem na preparação para o mercado de trabalho.
Maria do Carmo cita ainda um projeto de lei em tramitação no Congresso Nacional que reduz em um ano o ingresso no ensino fundamental, ou seja, as crianças teriam de iniciar a vida escolar aos cinco anos(leia mais nesta página).
“Isso é execrável. Brincar é uma coisa muito séria para as crianças e isso tem de ser respeitado”, critica. Para a pesquisadora, as crianças jamais foram tão desrespeitadas, apesar de nunca antes tanta coisa ser sido feita pensando nelas. Mesmo com tantos brinquedos, tantas roupas e tantos espaços em restaurantes, lanchonetes, supermercados, etc, destinados a eles, está faltando o afeto e o carinho do brincar junto, na opinião de Maria do Carmo. Uma grande parte dos pais anda muito ocupada consigo mesma.
Ela cita uma pesquisa feita pela Unilever com 1.024 famílias que mostrou que 53% dos pais concordam que as crianças brincam menos do que deveriam. O levantamento revela ainda que mesmo ciente disso, 26% dos responsáveis usam o tempo livre dos filhos com “brincadeiras de adulto” focando na preparação para o mercado de trabalho. Entre os afazeres estão o reforço escolar, aulas de idiomas, de música, informática, etc.
De acordo com a pesquisa, só 19% dos pais consideram prioridade deixar as crianças brincarem mais.
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Repúdio
A Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP) encabeça um movimento de repúdio ao projeto de lei 414/2008, do senador Flávio Arns, que reduz em um ano a idade de ingresso no ensino fundamental. Ao invés dos atuais 6 para 5 anos. A pedagoga Maria do Carmo Monteiro Kobayashi, da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, aderiu ao protesto. Ela classifica a proposta do senador de “execrável”.
Documento redigido pelos críticos do projeto trata o assunto como um desrespeito às crianças e pouco cuidado com a educação infantil. O documento pede revisão imediata do texto do projeto de lei.
Entre os argumentos apresentados contra a proposta do senador estão o de que estudos internacionais indicam a necessidade da permanência de crianças de 0 a 5 anos e 11 meses na educação infantil pela exigência de uma pedagogia apropriada à idade, de espaço físico adequado, com brinquedos tanto na área interna e externa.
De acordo com a carta de repúdio, a vulnerabilidade da criança nessa idade requer uma atenção especial. E essas exigências não seriam encontradas no ensino fundamental, caracterizado pelo currículo disciplinar, estrutura física, mesas e cadeiras inadequados ao tamanho e forma de aprendizagem da criança.