Há dias, a rádio FM 94, em seu excelente programa matinal "Informasom", divulgou uma pesquisa sobre reprovação de aluno no ensino fundamental, tendo em vista a Resolução do Conselho Nacional de Educação ainda não homologada pelo Ministro da Educação, recomendando às escolas particulares e oficiais que não reprovem os alunos nas três primeiras séries. Não se trata de determinação, mas sim de recomendação que poderá ou não ser acatada. Na pesquisa divulgada, 87% votaram que não concordam subentendendo-se de que a avaliação com retenção seja aplicada desde a primeira série, enquanto que 13% são favoráveis à recomendação.
Não obstante seja compreensível o ponto de vista dos 87% pois, realmente, desde que foi adotada a progressão continuada ou aprovação automática há 20 anos com o objetivo de acabar com a evasão escolar nas escolas oficiais formando consequentemente milhares de alunos que concluem o ensino fundamental e ensino médio semi alfabetizados, eu me incluo nos 13%, isto é, de que os alunos não sejam reprovados. Na escola anterior ou velha, se é assim que se pode chamá-la, pois não decorre muito tempo, questão de duas décadas, a alfabetização, em qualquer escola, oficial como particular, iniciava-se empós a "prontidão" da criança que era desenvolvida através de exercícios de coordenação motora, atividades lúdicas, recortes, colagem, cantos e outras atividades. Nesse variável período, não havia a preocupação de alfabetizar mas sim de preparar à alfabetização que ocorria normalmente pelos 6 ou 7 anos. Concomitantemente, na escola e em sua casa a criança brincava inspirada pelo seu lar e escola e por tudo aquilo que a rodeava. As mesmas realidades que ainda hoje, apesar de todo o adiantamento tecnológico, rodeiam-na.. Brincava de mamãe ou papai, professora, motorista, com boneca se menina, trenzinho, caminhãozinho quando menino, diretor, chefe, empregado, vizinho, etc.
Época em que a criança tinha infância, realmente vivida como infância. Curtia a infância que hoje em dia, infelizmente, está sendo substituída e abreviada. Hodiernamente, pais, escola e o modernismo têm muita pressa em ensinar a ler e escrever, levando de roldão a criança que às vezes não está amadurecida para aprender. Há escolas e professores que se vangloriam em começar a alfabetização cada vez mais cedo, aos dois ou três anos. Muitas vezes, há casos em que ela é incentivada pela escola e pela própria família para dominar logo cedo o domínio do computador. Há um contingente muito grande de crianças que por motivos variados e determinantes não brincam mais, intelectualizando-se logo nos primeiros anos de vida. Criança, seja de origem rica ou pobre, continua sendo criança e tem que ter condições físicas, motoras, mentais e psicológicas para começar a aprender ler, escrever, entender e interpretar.
E enquanto ela não estiver "pronta" para ser alfabetizada, a alfabetização ocorrerá com deficiências que surgirão ao longo dos anos de escolaridade. Sei que os tempos mudaram e estarão mudando mas nunca deveremos esquecer de que criança será sempre criança! Conclusivamente entendo que a nossa escola atual, principalmente a oficial, está pela metade e não por inteira, pois falta a outra metade dando tempo integral, falta a recuperação ou reforço que deve acontecer concomitantemente aos alunos que apresentarem dificuldades na aprendizagem da escrita, na matemática, na desenvoltura social.
E é justamente pelas considerações anteriormente referidas e muitas outras que deixo de citar é que me incluo no baixo percentual dos 13%. Pois fazer um aluno repetir a mesma série quando não está preparado é desumano, desestimulante, altamente prejudicial à criança e frustrante aos pais. Em suma, a falha e a deficiência são do sistema e não da criança.
Joaquim Eliseo Mendes - professor