Va bene. Se a forma correta de se apresentar a alguém é falar baixo, ser comedido e discreto, conforme rezam as regras de etiqueta, os italianos, quando chegaram no Brasil, fizeram tudo errado. Tão logo desembarcaram em terra verde e amarela, já se fizeram notar. Trouxeram na mala os costumes típicos da Itália, como a gesticulação expansiva, a gastronomia ímpar, a fala em altos volumes e a alegria contagiante.
Porém, o que a princípio parecia ser um erro, se transformou em um grande acerto. Aos olhos brasileiros, tal desobediência das regras de etiqueta foi considerada consequência de uma simpatia natural, encantadora, quase incontrolável. Sem seguir fórmulas e muito ao seu modo, os italianos conquistaram seu espaço no Brasil e fincaram, definitivamente, um pedaço da ‘bota europeia’ no País.
A colônia se estabeleceu em Bauru pouco tempo depois da fundação da cidade. Vieram para cá atraídos pela possibilidade de trabalho nas fazendas de café e na Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB). Muitos ficaram por aqui devido à favorecida localização geográfica da Cidade Sem Limites, bem no coração do Estado.
“A Itália estava esfacelada por conta das guerras. Em 1870 ocorreu a unificação do país. Os italianos passavam por dificuldades de estudo e de emprego. No mesmo período, o Brasil vivia a abolição da escravatura e precisava de mão-de-obra. Com a promessa de emprego e da doação de glebas de terras, muitos italianos migraram para o Brasil”, explica Ilda Rugai Delicato, presidente da Sociedade Italiana “Dante Alighieri”.
De acordo com Ilda, em grande parte dos casos, a promessa da doação das glebas de terras não chegou a ser cumprida e, por conta disso, muitos italianos custaram a se adaptar à nova vida.
A primeira obra da colônia foi realizada apenas dez anos depois da fundação de Bauru, quando foi criada a Società di Mutuo Soccorso “Dante Alighieri”, com a intenção de prestar assistência e colaborar com os imigrantes italianos que residiam nas cercanias. De lá para cá, os registros de contribuição dos italianos para com a cidade só aumentaram, especialmente no que diz respeito ao aspecto cultural. A colônia foi a responsável pela primeira biblioteca da cidade, bem como pela a propagação das artes.
“A Itália é um grande polo cultural e os imigrantes fizeram questão de difundir este aspecto no Brasil, país de adoção. É como se, para eles, fosse uma oportunidade de conviver com as coisas de lá. Remete a um saudosismo bom, uma melancolia, um romantismo. Os italianos são muito passionais e, em tudo o que fazem colocam o coração”, explica o italiano Alberto Briani, 52 anos.
Como não poderia deixar de ser, a encantadora e versátil gastronomia italiana também conquistou seu espaço em Bauru. De acordo com o cadastro de estabelecimentos comerciais da Prefeitura Municipal de Bauru, a cidade conta com um total de 17 cantinas e 37 pizzarias.
Atualmente, poucos italianos legítimos vivem no município. Muitos descendentes fazem o caminho inverso de seus antepassados, deixam o Brasil para viver no país em forma de bota. Contudo, a herança deixada pela colônia ainda predomina e transforma o clima da cidade.
Sem nenhuma explicação científica, o que se pode notar é que seus milhares de descendentes se comportam da mesma forma tão recriminada pela etiqueta, porém tão cativante: falam alto, se fazem notar, brigam por aquilo que acreditam e trocam qualquer programa por um bom banquete. Talvez, uma questão de sangue.