O amor pode superar todas as barreiras. Inclusive as do preconceito e do orgulho. É o que nos relata o caso que resumimos abaixo, retirado do livro “Por um Fio”, de Dráuzio Varella. Dr. Torres era um cirurgião lendário. Professor de medicina. Temperamento intempestivo, personalista ao extremo. Sua filha, o amor da sua vida, 10 anos, havia sido operada de um tumor pélvico do tamanho de uma bola de futebol. Era um raro tipo de sarcoma. A pedido de amigo comum, Dr. Dráuzio foi à casa do Dr. Torres para tentar ajudá-lo.
“– Não existe a menor possibilidade de cura numa situação como essa.” – diagnosticou o Dr. Torres. “– O Senhor está enganado.” – informou o oncologista Dr. Dráuzio. “–Pelo menos a metade dos doentes nesse estágio é curada pela quimioterapia seguida de irradiação da região afetada.”
“– Quantos anos você tem?” – perguntou Dr. Torres.
“–Trinta e quatro.” – respondeu Varella.
“–Você nem tinha nascido e eu já operava doentes com câncer.” – afirmou orgulhosamente o professor.
Desconsiderando a arrogância, Dr. Dráuzio tentou argumentar da melhor forma possível, procurando convencer o sofrido pai dos recursos já existentes naquela época, por volta dos anos setenta. Tudo em vão. Dr. Torres, escudado no elevado conceito de si próprio, recusava-se a aceitar a verdade.
“–Não me leve a mal” – argumentou educadamente o Professor Torres –“... mas sei muito bem o que estou fazendo.”
“–Infelizmente não sabe professor. O senhor pode ter operado adultos com câncer de estômago, pulmão, intestino. Sarcomas são tumores raros nas crianças, o senhor não tem experiência nenhuma com eles, mas ousa discutir como se tivesse.”
Dr. Dráuzio Varella abriu a porta e deu Boa Noite.
E então, aconteceu o milagre.
Um milagre que somente o amor muito intenso, real, verdadeiro, por um filho, pode provocar. E esse milagre estava nas palavras que foram proferidas pelo Professor Torres com muita dificuldade, superando todo o seu orgulho e arrogância: “–Volte, por favor.”
Ao contrário do que se esperava Dr. Torres jamais interferiu no tratamento conduzido pelo Dr. Dráuzio Varella em sua filha. Cinco anos mais tarde o professor compareceu ao consultório do clínico:
“–Pelo que minha senhora disse, entendi que você deu alta para minha filha.”
“–É verdade, acho que está curada.”
“–Queria agradecer sinceramente, essa menina nasceu no dia em que fiz sessenta e três anos, é o bem mais precioso de minha vida.”
Dr. Dráuzio nunca mais viu o professor Torres. Dois anos mais tarde soube de sua morte pelos jornais. Encontrou a menina adulta, ao lado do marido e de um casal de filhos pequenos. Identificou-se com timidez, deu-lhe um abraço carinhoso e chorou.
Sorrindo, o marido disse que era sempre assim, ela chorava toda vez que via o Dr. Dráuzio Varella – o seu salvador – aparecer na televisão. A submissão e confiança aos preceitos do Alto não significam passividade. Nas difíceis situações da vida, mesmo aceitando a vontade de Deus, jamais deveremos desistir. Os finais felizes não dependem somente da assistência dos bons espíritos. É necessária a nossa corajosa participação, fazendo a nossa parte.
O autor, Sidney Francez Fernandes, é empresário e orador espírita