Diversas vezes mostramos a diferença entre um carro velho e um antigo. Tem muita Kombi caindo aos pedaços rodando por aí, enquanto outras também estão rodando, só que perfeitamente mantidas pelos proprietários como raridades. A diferença básica entre eles é puramente o estado de conservação e a originalidade, o resto é capricho ou desleixo de cada um.
Um verdadeiro colecionador garimpa um carro que tenha história, que seja único e em bom estado de conservação, ou pelo menos em condições de sofrer uma boa restauração que o trará de volta aos tempos de glória. Claro que isto seria o ideal e nem sempre é o que acontece. Na prática, um bom colecionador tem que ter três características fundamentais: conhecimento (técnico e histórico), bom faro e muita sorte (meus amigos do Clube do Carro Antigo de Bauru concordam?). Tem gente que insiste que precisa ter dinheiro também, mas convenhamos que um gosto não tem preço. Garanto que, por ano, proporcionalmente não se investe tanto dinheiro em um carro antigo quanto algumas pessoas gastam com cerveja e cigarro no mesmo período, por exemplo. E com a vantagem de que depois de investido, o carro ficou melhor, mais bonito e mais valorizado, enquanto que as outras aplicações acima viraram xixi e fumaça...
Semana passada estive conversando com o Adriano da Stof Car, uma tapeçaria de primeira que também é especializada em restauração de antigos. O Adriano é diretor do Clube do Carro Antigo e nos convidou novamente para participar da exposição de Antigos que ocorrerá de 10 a 12 de setembro próximo no Recinto Mello de Moraes. Claro que estaremos lá prestigiando o evento e expondo nossos produtos, mas tive o prazer de contar a ele uma novidade. Apesar de não ser colecionador, creio que estou no caminho. Meu sócio em São Paulo me perguntou se havia interesse por um carro raro, disse que sim e já estamos aguardando a chegada de um belíssimo Chevette (isto mesmo, um Chevetinho) ano 91 de uma única dona, que o usava para ir à igreja e ao médico apenas. Hoje ela está em paz eterna e não precisa mais de carro para ir a nenhum destes lugares e a família decidiu vender o pequeno bólido, com apenas 23.000 km originais... É uma oportunidade rara e não deve ser desperdiçada.
Já tenho uma moto Suzuki Intruder 800 chopper ano 1995 com apenas 38.000 km originais e estalando de nova, que faz companhia à Suzuki V-Strom que uso em viagens. Pelo jeito, a Intruder ficará conosco até virar museu e é usada apenas por mim, pelos filhos e alguns amigos selecionados, sempre com a recomendação explícita de que se perceber que vai cair, que coloque a perna por baixo para proteger o tanque da moto.
As pessoas me perguntam se para ser antigo precisa ser de certa idade para cima ou não. Na verdade, considera-se para efeito de placa preta de coleção, que o veículo tenha no mínimo 30 anos de fabricação e esteja em perfeito estado, com no mínimo 90% de originalidade. Pode estar restaurado ou original, mas outros fatores também influem na raridade do veículo, como o fato de estar fora de linha por muito tempo e ainda se encontrar em excelentes condições de rodagem. Apesar de ainda não ter completado 30 anos, um carro pode ser considerado raro pelo estado de conservação, como é o caso do Chevette que está com “apenas” 19 anos, baixíssima quilometragem real além de estofamento, mecânica perfeita e pintura originais. É só compará-lo com os que vemos ainda rodando por aí. Tem até o manual do proprietário no porta luvas. Claro que a intenção é festejar seus 30 anos com uma bela placa preta também...
Existem muitos carros antigos bons ainda rodando. Vejo sempre e admiro alguns Dodge e Opala bem cuidados, outros VW impecáveis como o do nosso casal de amigos Fernando e Mércia, que tem um fusquinha 19XX perfeito, completo e original, com a pintura desgastada em alguns pontos apenas pelo uso, fato que ao invés de depreciar, o bom conhecedor valoriza pela originalidade. Esse é um País de pouca memória e de poucos abnegados em mantê-la. Vejam o estado de nossas ferrovias, dos museus, dos casarões. Parece que hoje em dia só prevalece o descartável e este não fica para a posteridade. Vamos prestigiar o pouco de memória que ainda temos e se puderem, visitem a exposição dos carros antigos em setembro. Vão gostar!