Todos nós crescemos com uma noção intuitiva de causa e efeito: os eventos no mundo físico não devem “simplesmente ocorrer”. Algo faz com que eles aconteçam!
Então, como poderia o universo inteiro ganhar existência de repente, sem nenhuma razão específica? Por que há um universo? E por que esse universo? Se nada acontece sem uma causa, alguma coisa deve tê-lo feito surgir. É inevitável perguntar: que coisa é essa?
Uma tática evasiva, mas bastante óbvia, é afirmar que o universo não teve um começo, que ele existiu por toda a eternidade. Infelizmente, há uma série de razões científicas que mostram a fragilidade dessa idéia.
Há muito tempo Santo Agostinho de Hipona (Argélia), Padre, Bispo e Doutor da Igreja que viveu no século V, afirmava que o mundo não fora feito “no tempo”, mas simultaneamente “com o tempo” e se o universo começou com o próprio tempo, então, nenhuma discussão sobre o que aconteceu antes ou o que o causou faz sentido. Mas, afinal, por que o tempo teria sido subitamente “ligado”?
Experiências desenvolvidas por Sadi Carnot (1796 – 1832), James Joule (1818 – 1889), Rudolf Clausius (1822 – 1888) e Lord Kelvin (1824 – 1907), entre outros, abriram as portas para um novo ramo da ciência chamado Termodinâmica, trazendo uma nova visão quanto à origem do universo. A Termodinâmica mostra que, na natureza, a energia se conserva, mas, a energia final produzida por qualquer processo não pode exceder a energia inicial utilizada, isto é, a energia se degrada ou fica cada vez menos disponível. Outra importante evidência da Termodinâmica está ligada a mania da natureza em estabelecer um sentido para que os processos espontâneos aconteçam, ou seja, explica o porquê as coisas normalmente vão do organizado para o desorganizado; do complexo para o simples.
Com estes conceitos Hermann Helmholtz (1821 – 1894) imaginou o universo como sendo um relógio de dar corda. Quando a corda acabar, o relógio pára. Assim o universo: quando a energia não existir mais na forma disponível que possa ser reaproveitada o universo irá parar, é o fim, o equilíbrio energético total, a morte pela ausência de qualquer transformação de energia. Helmholtz também concluiu que no início alguém teve que dar corda no relógio, o universo teve que ser “energizado” ou criado neste estado.
O universo de Edwin Hubble (1889 – 1953) está se expandindo, se inflando como se fosse uma bexiga de aniversário. Para ele o Big Bang ocorreu no centro da bexiga, onde se localiza a origem do tempo. O espaço é a superfície da bexiga, seu interior é o passado e seu exterior, o futuro.
Mas que explicação pode ser dada para um evento tão singular como o Big Bang?
Hoje pode-se afirmar que há eventos físicos que não possuem causas bem definidas, como se dá com os acontecimentos do dia-a-dia. Esses eventos pertencem a um estranho ramo da investigação científica chamado Mecânica Quântica. Acreditamos nela porque ela funciona, não porque pareça lógica. A lição da Mecânica Quântica é a seguinte: algo que “apenas acontece” não é necessariamente uma violação das leis da Física. O surgimento abrupto e sem causa de algo pode ocorrer dentro do domínio da ciência, desde que leis quânticas tenham sido consideradas. A natureza é capaz de ser genuinamente espontânea! Portanto, o desafio da Mecânica Quântica é mostrar, através de evidências e leis científicas, dentro de valores probabilísticos reais, como causas aleatórias teriam feito com que forças naturais e impessoais iniciassem espontaneamente os processos que deram origem à natureza e à complexidade que nela existe.
O outro desafio é mostrar, da mesma forma, que a natureza exibe evidências de um arranjo inteligente e que, por si mesma e por forças naturais, esta complexidade não teria se autoproduzido.
O fator comum entre estas duas cosmovisões é que, em ambas, é preciso crer porque assim como não se pode provar cientificamente que o Criador não existe, não se pode provar Sua existência, mas aceitar a existência de um Criador não deixa de ser um ato racional e aceitar quem é o Criador é um ato de fé.
O autor, Paulo César Racuk, é professor titular do Departamento de Engenharia Mecânida da Faculdade de Engenharia da Unesp-Bauru