09 de julho de 2026
Polícia

Morte de comerciantes no Japa Lalá completa um mês

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Um dos casos de violência que mais chocaram a cidade nos últimos anos, o assassinato dos comerciantes Maurício Yamanoi, 41 anos, dono do bar Japa Lalá, e José de Nazaré Mendes, 72 anos, pai do proprietário do bar do Português, completará um mês amanhã. Na tarde de 18 de junho, o agente penitenciário Alexandre Zambonaro Gonçalves, 36 anos, invadiu o estabelecimento de Yamanoi, no bairro Higienópolis, e disparou cinco vezes contra ele e Mendes, que tomava cerveja no local.

Transcorridos 30 dias da tragédia, o réu ainda não foi intimado pela Justiça a apresentar sua versão dos fatos. Por outro lado, as famílias das vítimas ainda enfrentam dificuldades para retomar suas vidas e guardam com saudades as lembranças dos entes que perderam.

Para marcar a data, o JC conversou com a filha de Mendes, Ana Mara Mendes, 43 anos, e a ex-esposa de Yamanoi, Érika Dimampera, 35 anos. Duas mulheres de personalidade forte que se dispuseram a relatar os momentos difíceis que têm enfrentado para conseguir superar a ausência e tocar os negócios dos parentes, assim como revelar como se sentem em relação a Zambonaro e o que esperam da Justiça.

Nas palavras de Ana Mara, passado este curto espaço de tempo, a família ainda está “aos cacos”. “Um irmão empurra o outro, que empurra minha mãe, que empurra os nossos filhos. A hora que um cai, o outro levanta, e assim a gente vai seguindo. A vontade, muitas vezes, é de sumir, desistir. Tem dias em que a gente está trabalhando e bate aquela tristeza, parece que nada vale a pena. Aí a gente vai para o banheiro, lava o rosto e volta a trabalhar”, comenta ela, que ajuda o irmão Fernando, 38 anos, no bar do Português. Os outros dois filhos de Mendes, Vânia, 45 anos, e Gisele, 39 anos, tomam conta do açougue instalado na rua Luiz Aleixo, que foi deixado pelo pai.

Além de ter dois filhos como incentivo para o trabalho, Ana Mara destaca que a persistência e determinação de Mendes continuam sendo um grande exemplo e fonte de inspiração.

“Meu pai sempre levantou o nosso astral, sempre nos deu ânimo, então não quero ficar triste, porque sei que não é isso que ele gostaria de ver, onde quer que ele esteja”, completa.

Para ela, a maior dificuldade para superar a perda ainda é a forma aleatória e inocente com que o pai perdeu a vida. “Todo mundo vai morrer um dia, mas uma pessoa de bem com a vida, como ele, morrer assassinado é algo inaceitável. A gente tenta entender, mas não consegue”, pontua.

Reconstrução

Érika também tenta se reconstruir emocionalmente para continuar a exercer seu papel de mãe - tem quatro filhos, de 16, 13, 12 e 5 anos - e, agora, também o de pai. Além da dupla atribuição, também tornou-se responsável pelos negócios do marido, já que o bar foi reaberto duas semanas após o dia do crime.

“Antes eu só cuidava de casa e tinha um outro bar, que estava arrendado. Minha vida mudou completamente depois da morte do Maurício. Acordo cedo e meu telefone só para de tocar à noite. Tenho que fazer todas as compras do bar, pagar contas e cuidar de casa, da escola das crianças”, revela.

Seu pai, Antônio Roberto Dimampera, 65 anos, que antes passava o dia em seu rancho, teve de assumir o atendimento no balcão do estabelecimento.

Em pouco tempo, a ideia de Érika é vender ou arrendar o bar, porque não se vê em condições de tocar o negócio por um longo período. “As crianças eram muito apegadas a ele e, justamente nesse momento, estou tendo que dar menos atenção a eles por causa desse novo compromisso”, pontua.

Segundo ela, Yamanoi ainda está muito presente na vida dela e dos filhos, que lembram de histórias e conversas com o pai quase diariamente. “Os clientes do bar também falam muito dele, me contam como o Maurício os ajudava. Ele tinha defeitos, mas era muito querido”, cita.

Embora descreva que a família já consiga falar sobre Yamanoi com mais naturalidade, a falta que ele faz como pai ainda é bastante dolorosa, afirma Érika.

“A formatura do pré do meu filho caçula vai ser neste ano e o pai não vai estar lá para vê-lo. Não tem nada que possa compensar essa falta, a saudade é muito grande”, comenta.

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Zambonaro ainda não foi intimado

No início do mês, o Judiciário expediu uma carta precatória para intimar Alexandre Zambonaro Gonçalves a responder por escrito à acusação de duplo homicídio duplamente qualificado, mas até o momento, ele ainda não foi citado.

A expectativa era de que ele recebesse o documento em poucos dias, já que está preso na Penitenciária 2 de Tremembé (SP) e, em teoria, não haveria grandes dificuldades para um oficial de Justiça daquela cidade para localizá-lo.

Das pessoas consultadas pelo JC, ninguém soube explicar o motivo da demora. Quando for intimado, Zambonaro terá de apresentar a defesa preparada por seus advogados dentro de 10 dias, além de indicar os nomes das testemunhas que deseja que sejam ouvidas.

O Judiciário aguarda ainda o recebimento de laudos necroscópicos e do local do crime, produzidos pela perícia.

Depois de analisar os argumentos apresentados por acusação e defesa, o juiz marcará uma audiência para ouvir as partes envolvidas. Nesta fase, Zambonaro será trazido até Bauru para prestar seu primeiro depoimento oficial.

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‘Maurício passou a falar sobre morte’

Segundo a ex-esposa de Maurício Yamanoi, Érika Dimampera, no mês anterior ao crime ele passou a conversar com a família sobre o dia de sua morte, como nunca antes havia feito. Sempre muito discreto, o comerciante não costumava desabafar com ninguém sobre seus problemas, mas vinha comentando com frequência sobre o que gostaria que ocorresse caso ele morresse.

“Ele começou a falar muito sobre isso com os filhos. Era algo estranho.” Para ela, pode ser um indício de que ele estivesse sendo ameaçado. Por essa razão, ela frisa que os motivos que levaram Alexandre Zambonaro Gonçalves a atirar em Maurício precisam ser esclarecidos.

Além desta resposta, as famílias aguardam o dia do julgamento e esperam que a pena aplicada ao assassino seja severa. Para Ana Mara Mendes, filha de José Mendes, o argumento de que Zambonaro sofria de transtornos mentais não justifica as mortes.

“Há um número imenso de doentes mentais que trabalham e são úteis para a sociedade. O problema desse rapaz é falta de caráter. Ele sabia o que estava fazendo e tem que pagar caro. Espero que essa história de doença mental não convença o juiz”, frisa, salientando que muitos frequentadores do bar do Português conheciam Zambonaro e nunca suspeitaram que ele tivesse problemas.

Érika tem a mesma opinião. “É imperdoável o que ele fez. O arrependimento que ele diz que tem não vai trazer essas duas pessoas de volta. Não vai trazer de volta o pai que meus filhos precisavam ter.”