09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Ruth do Amaral Sampaio

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 8 min

Uma vida de dedicação à militância

As mortes de duas mulheres chocaram a sociedade brasileira nas últimas semanas e fortes indícios apontam seus companheiros como os responsáveis pelos crimes. Infelizmente, as ocorrências não são casos isolados e tampouco acontecem raramente . A violência contra mulheres assusta e precisa ser combatida. Com essa consciência e determinada por mudanças, Ruth do Amaral Sampaio tem dedicado décadas de seus 73 anos à militância em favor dos direitos femininos. “A mulher precisa aproveitar a Lei Maria da Penha e denunciar seus agressores. Nada de sofrerem caladas”, defende.

Mulher de fibra, batalhadora e militante por natureza, seu engajamento social começou cedo, aos 17 anos, quando foi trabalhar em casa de família e se interessou pelos direitos das empregadas domésticas. Sempre ativa, ela também lutou - e ainda luta - pelo fim do preconceito racial e pelos direitos dos negros. “Já vivi o preconceito e fico feliz com as conquistas do Conselho Municipal da Comunidade Negra”.

Engajada na política, ela já foi candidata a vereadora e, atualmente, também é integrante ativa do Conselho Municipal da Condição Feminina, além de ter sido uma das responsáveis pela vinda da Delegacia de Defesa da Mulher para Bauru.

Leia os principais trechos da entrevista que ela concedeu ao Jornal da Cidade.

Jornal da Cidade - A militância vem da infância?

Ruth do Amaral Sampaio - Vim para Bauru em 1942 e tive uma infância normal. Frequentava a escola, viajava com meus pais nas férias, participava de matinês e da igreja. Naquela época não havia espaço para a militância. Pouco sabíamos sobre o assunto. Sempre tive contato com a cultura. Gostava muito de ir ao Cine Bauru e aos programas de calouros no auditório da PRG8 - Bauru Rádio Clube, Cirquinho do Benjamim e participei por 11 anos do Grupo de Teatro do Sesi. Também saía em escolas de samba e frequentava bailes da comunidade negra que existia aqui. O despertar pela militância veio aos 17 anos.

JC - Como?

Ruth - Minha primeira participação referente ao engajamento social foi em uma associação de empregadas, que mais tarde deu origem à Associação das Empregadas Domésticas de Bauru. Participei da minha primeira reunião, mas não fiquei muito empolgada com o assunto. Até que um dia a ficha caiu e comecei a participar efetivamente. Até os 17 anos, eu trabalhava ajudando uma moça a arrematar costuras. Meu pai faleceu e precisei de um emprego mais rentável para ajudar nas despesas. Trabalhei em casa de família durante 26 anos.

JC - Quais foram as maiores lutas da época?

Ruth - Lutamos pelo registro em carteira, que não era obrigatório. Com o registro vieram outros benefícios. Tinha dificuldades em trazer as meninas para o grupo porque algumas diziam que o marido pagava INSS e elas não precisavam. Outras achavam que estava bom como estava, diziam que os patrões eram bons, e ainda havia aquelas que diziam que o salário ia diminuir por causa da contribuição. Tivemos muitas conquistas, mas a maior de todas foi, sem dúvida, a carteira assinada e com ela o benefício do INSS.

JC - Quando veio o interesse por outras causas femininas?

Ruth - Durante o período em que lutei pelos direitos das empregadas domésticas comecei a viajar e a participar de reuniões em cidades da região. Com isso, conheci outras mulheres com os mesmos princípios. Foi também nessa época que passei a participar efetivamente da política e do movimento feminista. Voltei a estudar, passei em um concurso público da prefeitura para merendeira e conclui o curso de magistério.

JC - Você foi uma das responsáveis pela vinda da Delegacia de Defesa da Mulher para Bauru, certo?

Ruth - Fui membro e presidente da Associação das Mulheres de Bauru de 1985 a 1986, a entidade foi uma das responsáveis pela vinda da delegacia.

JC - Imagino que tenha encontrado muitos obstáculos.

Ruth - Muitos mesmo. Viajávamos com nosso próprio dinheiro, não tínhamos ajuda alguma. Para as reuniões, contávamos com a boa vontade de voluntários porque não tínhamos lugar fixo. A reunião era feita cada dia em um lugar até conseguimos uma sala na Secretaria Regional do Trabalho. Antes de vir a delegacia, criamos o Centro de Orientação da Mulher (COM). Todas eram voluntárias: advogadas, assistentes sociais... Nossa vida era batalhar. Fazíamos encontros para dar orientações às mulheres grávidas. Até que a associação acabou e surgiu o Conselho Municipal.

JC - O que mais marcou na luta feminista?

Ruth - Certa vez participei de um encontro sobre a saúde da mulher e o que mais foi debatido foi a questão da violência doméstica. Achamos por bem criar um órgão que ajudasse as vítimas. Foi aí que nasceu o Centro Integrado de Atendimento à Mulher (CIAM). Percebo que o órgão ajuda muito essas mulheres, apesar de muitas ainda denunciarem e retirarem as queijas depois por medo do companheiro. Mas estamos no caminho certo.

JC - A senhora acredita que a mulher está mais consciente de seus direitos?

Ruth - Há um certo tempo tive a impressão de que a violência tinha dado uma trégua, mas agora parece que explodiu novamente e não digo apenas devido aos casos que vemos na TV, mas sim do próprio cotidiano local. Não sei, mas tenho a impressão de que o ser humano está mais violento. Parece que as pessoas não medem as consequências de seus atos. Muitas mulheres denunciam seus companheiros mas não têm a cobertura necessária, e é aí que os crimes bárbaros acabam acontecendo.

JC - Qual é o conselho que a senhora dá para as mulheres que sofrem agressões dentro de casa?

Ruth - Denúncia. Não há outra saída. Depois de muita luta foi criada a Casa Abrigo em Bauru. O local é de extrema importância, já que muitas não apontam seus agressores por não terem para onde ir depois. Lembro-me de uma história em que uma mulher denunciou o marido e teve seus pertences e sua casa queimados por ele.

JC - Foi fundadora da Sociedade Afro Brasileira de Bauru. Fale sobre isso.

Ruth - Passei no concurso municipal para merendeira e sempre estive evolvida no Clube da Comunidade Negra e havia grupos de pessoas que já lutavam contra o preconceito racial. Sempre tive contato com esses grupos. Fui convidada para assistir uma reunião do Conselho Estadual da Comunidade Negra em São Paulo. Foi a partir desse momento que meu engajamento se fortaleceu. Quando entrei na prefeitura, eles estavam querendo criar delegacias do Conselho Estadual nas cidades do interior. O pessoal de São Paulo pediu à prefeitura que cedesse um espaço e um funcionário. Trabalhei como merendeira por seis meses e fui para o Conselho.

JC - Como é a atuação do Conselho?

Ruth - Quando alguém é discriminado, os advogados do Conselho apuram e procuram fazer justiça. Graças a Deus temos tido resultados positivos na cidade. Também realizamos eventos culturais importantes. O próximo, por exemplo, será a “6ª Mostra Afro-brasileira de Bauru”.

JC - Já foi vítima de preconceito?

Ruth - Sim. Quando criança, estava em um baile de Carnaval em Itirapina com minha mãe e colegas. Éramos as únicas negras e pediram para que saíssemos do lugar por causa da cor da nossa pele. Em outra ocasião, em Bauru, um senhor também pediu que nos retirássemos de um clube em que meu pai era sócio. O engraçado era que a mensalidade era descontada do salário dele e disseram que negros não podiam participar.

JC - Qual é a importância da mulher na política?

Ruth - Somos boas administradoras. Acho que a mulher administra bem por pensar diferente dos homens. Temos muitas mulheres na política, mas ainda não é o suficiente. Ainda sofremos preconceitos na hora das eleições, inclusive de nós mesmas. Há mulher que não vota em mulher, algumas se deixam levar pela aparência ou coisas pessoais. É preciso conscientização. As coisas vão melhorar muito com a mulher no poder. Atualmente estou no PMDB e já fui três vezes candidata a vereadora.

JC - É uma mulher realizada?

Ruth - A realização é inevitável quando nos engajamos em algo que acreditamos e vemos resultados positivos. As delegacias da mulher, Casa Abrigo, a divulgação das datas comemorativas e da cultura negra são coisas muito boas. Inclusive realizei um de meus sonhos quando participei de um encontro internacional de solidariedade e paz pelas mulheres em Cuba com o Conselho Municipal. Ainda tenho muitos sonhos. Espero um dia ver a violência cair por terra.

JC - E quanto à música?

Ruth - Cantar é prazeroso, mas apenas um hobby. Atualmente estou no coral da Associação dos Professores Aposentados no Magistério Público do Estado de São Paulo (Apampesp) e também canto no grupo de louvor da igreja evangélica que frequento.

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Perfil

Nome: Ruth do Amaral Sampaio

Idade: 73 anos

Local de Nascimento: Dois Córregos/SP

Signo: Libra

Hobby: Viajar, cantar e fazer pinturas em vidro

Livro de cabeceira: Bíblia

Filme preferido: Dramas e romances

Estilo musical predileto: MPB

Time: São Paulo

Para quem dá nota 10: Para Maria da Penha e às mulheres que denunciam a violência que sofrem

Para quem dá nota 0: À violência de modo geral