09 de julho de 2026
Geral

Estresse no emprego ‘ajuda’ a engordar

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Se tudo o que é bom mata ou engorda, o que é ruim também. A rotina estressante do dia a dia também contribui - e muito - para o aparecimento dos indesejáveis quilos a mais na balança. A perigosa combinação entre ansiedade e exagero na alimentação pode significar uma verdadeira “bomba-relógio” para o organismo de quem trabalha sob pressão.

Além da falta de exercícios físicos fora do ambiente de trabalho, o sedentarismo durante o expediente agrava o risco do desenvolvimento da obesidade e doenças resultantes do excesso de peso.

Pessoas que trabalham sentadas e sob alta e constante pressão são mais propensas a engordar e, consequentemente adoecer, aponta estudo da Universidade de Rochester, nos Estados Unidos.

Os grandes efeitos do estresse contínuo ligado a maus hábitos alimentares, muitas vezes adquiridos como forma de compensar a ansiedade, advertem especialistas, englobam desde a depressão até doenças cardiovasculares.

“A pressão no trabalho é algo que tem judiado muito das pessoas”, constata a psicóloga Norma Figueiredo, que liga diretamente estresse à compulsão alimentar, seja como forma de compensar os dissabores da labuta diária ou até mesmo para minimizar a exaustão sentida em maior intensidade por quem está com os nervos à flor da pele.

O nervosismo, enfatiza a endocrinologista Cibele Cabogrosso, faz com que as pessoas, além de buscarem alimentos menos saudáveis até pela falta de tempo, também façam as refeições em ritmo de “pit stop”. “A pessoa estressada geralmente come rápido e normalmente a comida é acompanhada por bebidas doces, principalmente o refrigerante”, observa.

Além da indisciplina nas refeições, os maus hábitos se estendem às guloseimas, que servem, em muitos casos, como alento paliativo aos aborrecimentos do dia a dia, como apelar para o chocolate, por exemplo.

“O estresse ‘pede’ comidas prazerosas”, adverte a nutricionista Eliane Petean Arena. Isto porque esse tipo de alimento minimiza a ausência de serotonina, neurotransmissor que favorece a sensação de prazer e cujo baixo nível é percebido em pessoas deprimidas ou ansiosas.

Segundo Eliane, a má alimentação junta-se a fatores metabólicos nocivos, particulares ao organismo de uma pessoa exposta à tensão contínua. “No estresse há maior produção de radicais livres, que podem danificar as células sadias do corpo. Ao mesmo tempo, a ingestão de anti-radicais deixa o metabolismo lento, intoxicado”, alerta a nutricionista.

O estresse diário é praticamente inevitável, concordam especialistas. Porém, existem formas de minimizar a tensão sem sabotar o organismo, orientam. “Se for comer chocolate, que seja acima de 70% de cacau e no máximo 30 gramas ao dia”, orienta a nutricionista. O chocolate, acentua, incentiva a liberação do hormônio teobromina, responsável por sensação de prazer.

Contudo, existem formas de amenizar a tensão e, principalmente, os seus efeitos destruidores no corpo de forma permanente. Uma delas, recomenda a nutricionista, é a desintoxicação do organismo e, em seguida, a suplementação com vitaminas necessárias para que o corpo, literalmente, suporte a pressão diária.

“Sair de casa bem alimentado, com um bom café da manhã é importante, assim como procurar lanches mais saudáveis como, por exemplo, trocar o suco de fruta pelo refrigerante”, ilustra a endocrinologista Cibele. “Se a pessoa não tem como mudar de trabalho, que mude os hábitos”, acrescenta.

____________________

Recepcionista mudou hábito alimentar

Quem também diz ter começado a lutar contra a balança em decorrência dos dissabores da labuta diária é a recepcionista Tânia do Amaral Godói. “Sou estressada, nervosa”, admite. “Gosto de lidar com gente. Apesar de falar o dia inteiro ao telefone, não vejo muitas pessoas e isso me deixa ansiosa”, considera.

Para minimizar os estragos do estresse inevitável, ela faz tratamento com nutricionista e substituiu totalmente o cardápio, agora rico em substâncias que melhoraram seu metabolismo e até acalmam. “Eu tomava chá verde há quatro anos. A bebida me deixava mais ‘pilhada’”, atribui.

“Substituí por chá de carqueja com erva-doce, que me tirou a irritação e é gostoso”, aprova a recepcionista, que perdeu quase três quilos.

“Hoje o estresse ainda abala e o lado psicológico sempre pesa. Mas, desta vez, não vou colocar a minha vida em risco por causa da empresa”, ensina Jaqueline.

____________________

Terapia

Mudar hábitos, dizem especialistas, é fundamental para minimizar o estresse, ao menos enquanto se é obrigado a trabalhar. “Mas quando os assaltos à geladeira se tornam rotina e a pessoa sempre busca ocupar o tempo com o ato de comer, ela precisa de terapia”, receita o psicólogo Cláudio Salviano.

Na opinião do psicólogo, é importante que as pessoas se policiem para que o “santo chocolate”, por exemplo, não se transforme em vilão. “A obesidade tem a ver com a questão da compulsão e o estresse é um dos fatores que a desencadeia”, relaciona o terapeuta, que reforça a importância da busca por auxílio profissional.

____________________

Operadora diz ter engordado quase 30 quilos no emprego

Não é a única causa, mas que estresse engorda é fato. Que diga a operadora telefônica de recuperação de crédito Jaqueline Santana dos Santos, que diz ter ganho quase 30 quilos nos três anos e meio em que trabalhou numa empresa de cobrança.

Hoje com 40 quilos a menos, após cirurgia de redução de estômago a que foi submetida no início do ano, ela admite que o estresse não foi o único fator para a obesidade, contudo, contribuiu, e muito, para o ganho de peso.

“Tudo contribuía, pois não me alimentava direito e não me exercitava”, conta Jaqueline, que também confessa antigos maus hábitos. “Tinha o famoso pão de queijo, isso quando eu não pedia lanche, junta isso com estresse e fica complicado”, admite ela, cujo ganho de peso durante o trabalho foi atestado por laudo assinado por médico da empresa.

Ela admite que sofria de obesidade mórbida antes do emprego, mas a rotina aliada aos maus hábitos funcionaram como uma “bomba-relógio” em seu corpo, até que apelou para a cirurgia, no auge dos 135 quilos, com 1,70 metro de altura. “Sofri redução de dois centímetros nas articulações dos joelhos”, relata Jaqueline, que tomou as rédeas de sua alimentação para não incorrer nos mesmos problemas de antes.