10 de julho de 2026
Articulistas

Campanha, somente acusações

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

A campanha eleitoral começou repetindo aquilo que, infelizmente, estamos acostumados a ver em todas as eleições: a troca de acusações entre os candidatos. Cada candidato quer vencer a eleição, não pelo que será capaz de fazer, mas tentando derrubar o adversário por suas fraquezas, reais ou mentirosas. Aí ficamos a pensar se democracia vem da palavra grega demo, com sentido de povo, ou de daimon, que os romanos adotaram como demônio, ou simplesmente demo – espírito da mentira ou caluniador.

As acusações de campanha são tiros que saem pela culatra, porque dificilmente aquele que acusa não tem sujeira que possa ser usada pelo acusado como resposta. Como já é um fato esperado, cada lado fica pesquisando a vida do outro para atacar ou para se defender. E quando a sujeira não é do próprio candidato é de alguém chegado a ele e que o compromete como se dele fosse. Mas como nem tudo é verdadeiro, uma vez divulgada a acusação, o que hoje é muito fácil, por melhor que seja a defesa, sempre resta alguma dúvida. Se de um lado a acusação pode alertar o povo sobre um candidato com práticas indesejáveis para ocupar o governo, se ela for verdadeira, de outro lado pode cometer injustiça, prejudicando um bom candidato, se ela for mentirosa.

Não é através de acusações, mesmo que sejam festejadas por seus simpatizantes, que o candidato deve lutar para se eleger. O meio correto, digno e ético, é uma proposta de governo que crie uma expectativa de melhoria real, que possa promover a correção das deficiências que sacrificam o povo e incrementar um desenvolvimento sustentável. As acusações são um sintoma da falta de uma proposta consistente. Não tendo o que apresentar de forma substantiva, os candidatos partem para a adjetiva e superficial, tentando desqualificar o adversário e fazendo promessas que a mais elementar das reflexões as mostra como inviáveis ou simplesmente uma continuidade das condições existentes.

Melhorar a educação, melhorar a segurança, promover o desenvolvimento econômico, manter o programa bolsa família, melhorar o transporte, tudo isso e outras coisas mais contidas nas propagandas, são afirmações genéricas, sem visão de futuro e sem plano de ação. John Kennedy disse: “Acredito que esta nação deveria se comprometer a atingir a meta, antes do término desta década, de colocar um homem na Lua e fazê-lo retornar com segurança para a Terra”. Deu a missão à NASA e em 20 de julho de 1969 o americano desceu na Lua e voltou à Terra com segurança. O Plano de Metas de Juscelino Kubistchek propunha realizar o desenvolvimento de cinqüenta anos em cinco e mudar a capital federal. Fez Brasília, iniciou a indústria automobilista e deixou um Brasil conforme prometera. Carvalho Pinto foi o primeiro governador de São Paulo a estabelecer um planejamento orçamentário dos vários setores da administração pública, através do seu Plano de Ação. Rede rodoviária radial e transversal do estado, Ceasa e Ceagesp, hidrelétricas do Tietê e Paranapanema, plano de educação vocacional, plano de saúde, enfim, ainda guardam as realizações do seu traçado.

Agora as promessas são de continuismo de algumas coisas que são boas e pouco ou nada oferecem de acréscimo. Mas as boas precisam ser readequadas às novas realidades e as que ainda estão porfazer devem ser a nova missão. Até quando a taxa de juros básica, a tal ‘selic’, vai ficar brigando com a inflação? Será que cada novo governo precisa emprestar a barriga do anterior para continuar empurrando as reformas da economia, da legislação trabalhista, da política, da previdência e outras coisas a serem reformadas? Será que as mudanças pelas quais o mundo vem passando, inclusive o Brasil, não indicam nada de novo a ser feito? Chega de acusações e vamos pensar o Brasil que desejamos.

O autor, Pedro Grava Zanotelli é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru e membro da ABLetras