08 de julho de 2026
Articulistas

Seleção temperamental

José Mário Boneto Pereira
| Tempo de leitura: 2 min

Não há dúvidas de que ao longo dos últimos quatro anos o ex-técnico da seleção bra-sileira de futebol Dunga conseguiu formar uma equipe forte e competitiva. O espírito de luta que tanto se cobrou por parte dos jogadores ao representarem a camisa mais tradicional do futebol mundial foi conquistado. O que teria faltado, pois, para um maior sucesso na Copa do mundo da África do Sul?

A renovação implementada pela CBF (confederação brasileira de futebol) do mundial da Alemanha para este foi radical, partindo de um extremo a outro. Na Alemanha, em 2006, os jogadores pareciam “pop stars” reunidos numa turnê; a liberdade, a exposição à mídia e ao público eram desenfreadas. Na África do Sul, por sua vez, o regime de concentração para treinamentos era rígido e secreto, assimilando-se mais à preparação militar para um confronto.

Os jogadores parecem ter encarnado esse espírito guerreiro e foram à Copa dispostos a combater a tudo e a todos. Sobrou até para a imprensa, que em alguns momentos parecia ser o grande adversário da seleção nacional na campanha rumo ao hexa. As críticas eram rebatidas como se fossem ofensas à nação e ao patriotismo.

O jogo da eliminação contra a Holanda, nas quartas de final, foi emblemático. A equipe brasileira tomou a iniciativa da partida, correu, brigou, dominou todo o primeiro tempo. O temperamento forte funcionou e o time foi para o intervalo ganhando de um a zero. Um gol fortuito holandês na segunda etapa, entretanto, abalou a estrutura do grupo. Como não estavam preparados para ser questionados, da mesma forma, não souberam reagir a um gol adverso. O comandante parecia tão descontrolado quanto seus comandados. A partir desse episódio desfavorável o forte temperamento do conjunto passou a jogar contra o Brasil e da sequência da tragédia não nos esquecemos: segundo gol da Holanda, numa cobrança de escanteio ensaiada; jogador brasileiro sendo expulso por pisar o adversário; desordem tática; enfim... derrota por dois a um e a volta pra casa.

Mais uma vez a experiência mostra que não se devem buscar soluções extremistas para atingir o êxito. Mesmo que a seleção tivesse ganhado não deixaria um grandioso legado, apesar do famigerado “espírito guerreiro”. Além dessa característica, e do talento primordialmente, são necessárias outras qualidades como sensatez, inteligência para interpretar o jogo, saber conciliar iniciativa e agressividade com cautela. Esperamos que o próximo treinador consiga atingir um equilíbrio nas convocações e no preparo da seleção brasileira para que tenhamos uma campanha rumo à Copa do Brasil, em 2014, mais prazerosa e vencedora.

O autor, José Mário Boneto Pereira, é formado em Ciências sociais pela Unesp-Marília