09 de julho de 2026
Articulistas

É tudo mentira

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A mentira, durante oito séculos objeto de anátemas bíblicos e de severos ataques de todos os lados, é hoje considerada um “mal necessário” e como tal apreciada e até cultivada como estratégia para sobreviver numa sociedade na qual, de acordo com os versos de Ariosto, “não se vive sempre entre amigos”. Em política quem não mente é considerado incapaz para chegar ao poder. Os candidatos precisam saber inventar na ilusão de alcançar o poder. Pelo menos a ponto de criar impactos contra o adversário. “O PT aliou-se à Farc e ao narcotráfico”. O Lula e a Dilma que se estrepem para desmentir a afirmação feita pelo vice tucano e apoiada pelo próprio Serra. Com a descoberta da existência de acampamentos da Farc em território venezuelano, a acusação de comprometimento com as guerrilhas ganha verossimilhança. Hugo Chaves e Lula vivem trocando elogios.

As chamadas “meias verdades” e as generalizações são utilizadas com mais freqüência e mais eficácia que as mentiras deslavadas, já que permitem extrair ou expandir conclusões para além dos limites das premissas do discurso. É o caso do “nunca, antes, na história deste país...” Ou, das comparações numéricas com a gestão FHC. Dilma diz que Serra , se eleito, vai acabar com o Bolsa Família que já beneficia 37 milhões de pessoas. O adversário retruca dizendo que, pelo contrário, vai ampliar a prebenda. De cada cinco eleitores, um é analfabeto. Segundo o TSE, dos 135,8 milhões de pessoas aptas a votar, 27 milhões não sabem ler nem escrever. Fora os analfabetos funcionais. Isto não exclui o direito à cidadania por parte da população ágrafa. Esta quer saber – e é compreensível – quem dá mais pelo seu voto, instrumento utilitário de troca por supostos favores.

Entre a classe média hoje é fácil espalhar uma mentira. Basta um twittaço. Político sem twitter é um excluído. Dizem que a eleição entre Barack Obama e John McCain foi decidida na web. Muito diferente do tempo de Rui Barbosa (1919), na campanha presidencial que disputava contra Epitácio Pessoa. Valia a retórica do gogó. Rui perorava contra o adversário: “Mentira toda ela. Mentira de tudo, em tudo e por tudo. Mentira na terra, no ar, até no céu, onde segundo o Padre Vieira o próprio sol mentia ao Maranhão, e direis que hoje mente no Brasil inteiro. Mentira nos protestos. Mentira nas promessas. Mentira nos programas. Mentira nos homens, nos atos e nas coisas. Mentira no rosto, na voz, na postura, no gesto, nas palavras, na escrita”. Rui Barbosa reclamava das mentiras “até nos desmentidos”, mas recusava-se a mentir. Perdeu a eleição.

Há formas mais amenizadas de conceituar a peta, como a do poeta gaúcho Mário Quintana: “A mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. No Congresso Internacional de Semiótica, dedicado ao tema “Mentira, engano e simulação”, Umberto Eco fez uma exposição intitulada precisamente “Dizer o contrário”. Observava que no século XVII “a mentira era considerada necessária para se mover na vida cotidiana: numerosos tratados da época explicam ao homem comum como agir com destreza e habilidade, usando da mentira e do silêncio para ultrapassar as armadilhas da sociedade”. Nossa época tem muitos traços em comum com o século XVII, tanto que foi definida como “neobarroca”. Assim, a mentira é novamente considerada um mal necessário.

Em “A arte de ter razão” Schopenhauer ensina diversos estratagemas retóricos. Por exemplo: “argumenta-se com base em premissas falsas, mas a partir do modo de pensar do adversário”. Aqui na província, bastou o candidato a prefeito demonstrar suas idéias num contexto de modernização da máquina burocrática, para que o adversário já dissesse que ele queria privatizar o DAE. Pegou. Inconscientemente seguiram o filósofo: “apresentar os fatos como comprovados, de forma triunfante, num reconhecimento da não-causa como causa”. Talvez por isso a obra de Schopenhauer seja uma das mais vendidas hoje, na Itália de Berlusconi. Trata-se enfim de uma tendência que contrasta com a linha de origem iluminista da “transparência”, tão presente em nossa cultura. O problema é que na sociedade moderna, a forma principal de mentira está constituída precisamente pela superabundância de notícias: a informação contínua, mas fragmentada serve para difundir uma versão superficial que esconde a essência das questões. Deste modo, por trás do direito de informar, pode-se esconder uma estratégia de controle da informação. Enfim, a mentira. Evitar a contaminação da opinião pública é possível, com a formação de pessoas críticas, capazes de exercer a cidadania sem se deixar enganar por tudo que veem ou leem na mídia. (O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC)