09 de julho de 2026
Geral

Entrevista da Semana: Julio Akio Kosaka

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 10 min

Japonês tradicional com coração brasileiro

Se um sorriso é capaz de conquistar tudo, Júlio Akio Kosaka conquista a todos. Sempre sorrindo, Julinho do Nipo, como é conhecido, praticamente cresceu no Clube Cultural Nipo-Brasileiro de Bauru. Atual presidente da entidade, ele tem planos de lançar um livro sobre o centenário da imigração japonesa ao Brasil com as atividades de todos os dirigentes que passaram pelo clube desde 1936 até 2008. “Também vamos construir um obelisco em breve na Praça Kasato Maru. O Nipo é praticamente minha segunda casa”, conta.

Júlio fez faculdade de direito, profissão que lhe rendeu boas aventuras e muitas histórias dos anos em que advogou em Porto Velho. Porém, como ele mesmo gosta de dizer, o comércio e a fotografia estavam no sangue e ele resolveu deixar o direito para se dedicar à Cherry Foto & Vídeo, fundada pelo pai e tio em 1946. “Vendo fotos de tantos lugares lindos espalhados pelo mundo, comecei minha saga de viagens. Conheço muitos países e quase todos os Estados brasileiros”, conta.

Um hobby considerado mania ou vício, a pescaria sempre fez parte da vida de Kosaka, assim como o futebol, outra paixão. Momentos difíceis como a morte da mãe, grandes alegrias com a presidência da Comissão Municipal do Centenário da Imigração Japonesa, história de família e amizade, planos e política fazem parte da entrevista que ele concedeu ao Jornal da Cidade. Leia os principais trechos a seguir.

Jornal da Cidade de Bauru - Que tal começarmos falando sobre a história de sua família?

Júlio Akio Kosaka - Sim. Meus pais vieram para o Brasil ainda bem jovens. Conheceram-se e se casaram em Guararapes. Vieram para Bauru em 1946, onde nasci.

JC - Por que Bauru?

Júlio - A tendência dos imigrantes japoneses que estavam na roça era voltar algum dia para o Japão. Os que não conseguiram, decidiram morar na cidade pois acreditaram que podiam prosperar. Um irmão de meu pai já trabalhava com fotografia e meu pai conhecia sobre o assunto e tinha capital por causa do cultivo de algodão. Como não conheciam Bauru, procuraram um conhecido da época em que faziam teatro em Guararapes, o senhor Nobuji Nagasawa, que se tornou o grande amigo do meu pai (sempre admirei a amizade deles). Ele foi o fiador do prédio que meu pai alugou na rua 1º de Agosto em 1946 e fundou a Cherry Foto & Vídeo.

JC - A amizade de seu pai com “seo” Nobuji foi exemplo para você?

Júlio - A amizade foi tanta que o senhor Nagasawa fez meu pai comprar um túmulo ao lado do dele. Ele dizia que continuariam juntos mesmo depois de mortos. A história deles foi fortalecida depois com os filhos. Eu ia com ele ver os jogos do Noroeste. Ainda nos reunimos toda terça-feira. É uma amizade muito forte, sentimento de família. Só não temos o mesmo sangue, mas temos um laço muito grande de amizade.

JC - Por falar em futebol, você foi jogador, certo?

Júlio - Antigamente o Clube Nipo tinha um time chamado Olímpico Atlético Clube, que disputava a primeira divisão do futebol de salão bauruense. Joguei nesse campeonato por vários anos, como juvenil e depois como adulto. Era um time de japoneses mesclado com um ou dois brasileiros. Também joguei futebol de campo em um time chamado Nissei Futebol Clube. Naquela época formamos um time chamado Família Garms e Japoneses. Participávamos de amistosos quase todos os domingos em um campo de futebol que havia na Duque de Caxias.

JC - E quanto ao direito?

Júlio - Entrei na faculdade em 1966. Eu posso dizer que tive grandes amigos e grandes professores. Mantemos contato até hoje. Alguns são juízes de direito, delegados, promotores, grandes comerciantes... Eu já estou aposentado há algum tempo. Sabia que quase fui delegado da Polícia Federal?

JC - Como foi isso?

Júlio - Quando me formei na faculdade, em 1971, eu morava com alguns colegas. Um deles tinha um padrinho que era general do Exército. Em 1972, encontrei com ele em São Paulo e ele me nomeou delegado da Polícia Federal. Disse que só faltava sair no Diário Oficial. Eu pedi um tempo para pensar porque estava indeciso. Não sabia se deveria seguir a carreira de delegado, de promotor, de juiz ou advogado. Depois acabei desistindo da nomeação, de repente.

JC - Arrependeu-se?

Júlio - Não posso reclamar de nada do que fiz. Eu consegui maturidade suficiente para poder estar hoje onde estou. Se eu tivesse aceitado, talvez não estivesse em Bauru, o meu padrão de vida poderia ser outro. Me arrependo em função da aposentadoria que eu estaria recebendo. Porém, exceto a parte financeira, eu não me arrependo de nada.

JC - E depois?

Júlio - Depois eu fui advogar em uma cidade do Paraná. Fiquei um ano lá. Disseram-me que Porto Velho, em Rondônia, era um lugar muito bom para começar a carreira de advogado. Vim para Bauru, fiquei uma semana aqui e já parti para Porto Velho, onde fiquei por 4 anos, de 1974 a 1978.

JC - Quais são as lembranças da época?

Júlio - Tudo era muito diferente. Na época, o esgoto ainda era a céu aberto. Não havia asfalto, só mato, malária e hepatite. Porém eu nunca cheguei a ficar doente. Fiquei sabendo que o mosquito da malária picava mais quando clareava e na hora em que escurecia. Então, justamente nesses momentos, eu não saía de casa. Lá, a malária e a hepatite são tão comuns quanto a gripe aqui no Estado de São Paulo. Não tinha vacina, não tinha nada. A pessoa ia com os sintomas e o pessoal da farmácia já sabia o que era.

JC - Por que voltou a Bauru?

Júlio -Nasci dentro da loja de meu pai, onde comecei a trabalhar em 1959 na parte de laboratório. Enquanto eu fiz a faculdade de direito, continuei trabalhando com fotografia. No direito, de cada 50 questões que você tem de resolver, você precisa estudar as causas, noite e dia, para entender realmente. Precisava de muita dedicação. Já na área de fotografia era o inverso. Se tivesse 50 questões a resolver, eu não fazia pesquisa. Já estava tudo dentro da minha cabeça. Ou seja, eu respondia de pronto. Acredito que o comércio e a fotografia estavam mesmo no sangue. Quando eu voltei, em 1978, decidi abrir outra Cherry, na Virgílio Malta. Foi com o comércio que surgiram muitas oportunidades de viagem.

JC - Por que diz isso?

Júlio - Ah, trabalhando na Cherry eu sempre via fotografias de lugares lindos e ficava encantado. Foi quando nasceu em mim o espírito de viagem. Conheci os Estados Unidos em 1982. Foi uma viagem especial, encontrei várias pessoas de Bauru que estavam lá fazendo curso de inglês. Acho que todo mundo tem um grande sonho na vida. Antes de conhecer o Japão, meu sonho era conhecer os Estados Unidos. Depois eu fui para a Europa onde estive na Itália, Portugal, Israel, Turquia, França e Espanha. O grupo da excursão formou uma família. Valeu a pena. Em 1992 eu fui ao Japão fazer uma pesquisa. Eu queria abrir um crematório, mas acabou não dando certo. O Japão era o melhor lugar para pesquisar sobre este tipo de negócio. Fui sozinho, mas como meus pais pediram que eu estudasse japonês para manter a tradição, não tive problemas. Também fiz um cruzeiro pelas ilhas do Caribe e estive no Egito.

JC - Também conhece muitos lugares do Brasil?

Júlio - Sim, praticamente o País inteiro. Faltam apenas cinco capitais para poder dizer que estive em todos os estados.

JC - Você é um japonês brasileiro ou um brasileiro japonês (risos)?

Júlio - (Risos) Nasci em Bauru e o Brasil é o país que me deu tudo o que eu quis. Procuro vivenciar a cultura japonesa por meio da presidência do Clube Nipo-Brasileiro. Participo do Nipo desde 1961. Em 2007 fui nomeado presidente.

JC - Projetos como presidente do Nipo?

Júlio - Quero lançar um livro sobre o centenário da imigração com as atividades de todos os presidentes que passaram pelo Clube desde 1936 até o ano de 2008. Provavelmente já em agosto, vamos construir um obelisco na Praça Kasato Maru. Além disso, vou continuar com as festas e atividades normais como o Keikokai (homenagem aos idosos), entre outras.

JC - O Nipo é sua segunda casa?

Júlio - Eu cresci dentro do clube. Tem uma história que me marcou muito: a primeira e única vez em que o Nipo participou de um Carnaval de rua, quando ainda era na avenida Rodrigues Alves. Nossa rainha ficou em segundo lugar na disputa. Pedimos para a Igreja Tenrikyo emprestar a banda deles, decoramos um caminhão e um carro alegórico que era uma réplica da Praça das Cerejeiras. Foi tudo lindo.

JC - E essa sua paixão pela pesca?

Júlio - Amo pescar. Antigamente a Noroeste do Brasil alugava vagões de trem. Nós tínhamos uma turma de oito pessoas e sempre pegávamos o último vagão para pescar no Mato Grosso. Também pesquei muito quando morava em Porto Velho, no rio Madeira e Solimões. Antes de começar a cuidar de minha mãe, eu pescava toda semana. Saía na quarta-feira e voltava só no domingo. Eu tinha um rancho perto do rio Paranapanema. Fizesse chuva ou sol, eu estava lá.

JC - Política?

Júlio - Minha vontade de participar da política foi casual. Em 1982 me lançaram como candidato a vereador. Mas na época eu respeitava muito a figura do senhor Giro Ishicawa. Se ele fosse se lançar como vereador, eu desistiria da minha candidatura. E foi o que aconteceu. Só fui me lançar candidato novamente em 2008, quando já era presidente do Nipo e da Comissão Municipal do Centenário da Imigração. Tive 971 votos.

JC - Pretende se candidatar novamente?

Júlio - Não. Desisti. Dentro da política existem coisas boas e coisas ruins. Entre elas, algumas que prefiro não conviver. Nenhuma crítica aos políticos, mas percebi que isso é para quem gosta demais. Não me arrependo da candidatura porque vi que tenho muitos amigos. Uma coisa curiosa é que no dia da eleição, às 8h30 da manhã, a única pessoa que me ligou desejando boa sorte foi o Rodrigo Agostinho. Eu achei um gesto muito bonito da parte dele. Só me lançaria candidato novamente se o Rodrigo pedisse.

JC - Uma grande alegria e tristeza.

Júlio - A tristeza foi ver minha mãe falecer. Ela deu seu último suspiro segurando minha mão. Uma grande felicidade foi quando passei em revista pelo pelotão da Polícia Militar, quando recebi uma homenagem como presidente da Comissão Municipal do Centenário da Imigração Japonesa, pelo Dia da Imigração Japonesa. Quando jovem, jogava bola no quartel e sempre achei as solenidades lindas. Nunca imaginei que a polícia bateria continência para mim como homenagem. As lágrimas surgiram nos olhos.

JC - Por que se recusou a responder a nota 10 e zero do perfil?

Júlio - Por que são duas coisas muito difíceis. Mas o zero seria para as pessoas falsas. Aquelas que na sua frente são uma coisa e por trás falam mal de você. Pessoas que têm somente coisas materiais dentro de si são as pessoas do zero. Já as pessoas do dez são as sinceras, que trazem alegria, as pessoas com bondade no rosto. Conheço mais pessoas com nota 10 do que zero, graças a Deus (risos).