"O Estado deveria ser o responsável pelo ensino público de qualidade, tanto na educação básica como no ensino superior. A expansão do ensino superior privado ocupa um espaço não preenchido pelo público. As instituições privadas não têm o compromisso com a qualidade. Corremos o risco de ter uma geração de diplomados, porém sem competências e habilidades para ocupar vagas no mercado de trabalho". Esta é a opinião do professor doutor em Educação para a Ciência pela Unesp Lourenço Magnoni Júnior. Para ele, as chamadas faculdades fast food surgem para atingir um nicho de mercado que está em evidência e depois desaparecem.
Ele ressalta que a relação aluno e instituição de ensino superior privado pode se tornar promíscua. O estudante paga e não recebe o prometido. “A Educação não pode ser tratada como uma mercadoria qualquer. No Brasil, estamos vivendo o apagão da mão de obra qualificada. Muitas vezes temos o indivíduo documentado, porém não habilitado.”
Em casos assim, segundo ele, um técnico bem formado tem mais desenvoltura no meio produtivo do que o indivíduo com nível superior. “Eu acho que há falhas na fiscalização do Ministério da Educação. Ele deveria ser mais rigoroso na autorização de novos cursos e instituições. É óbvio que não são todas elas que estão nesta situação. Há grandes e pequenas de boa e má qualidade. As maiores ainda tomam cuidado porque têm um nome a zelar.”
O indivíduo mal formado não vai acompanhar a evolução tecnológica, sentencia o professor. “As mudanças tecnológicas são rápidas e esse indivíduo mal formado não consegue acompanhar. A transformação no meio produtivo caminha na direção da automação radical. Atualmente, até para operar máquinas colheitadeiras de cana é preciso ser um profissional especializado, porque são máquinas automatizadas que têm computador a bordo e não é qualquer pessoa que opera.”
Para ele, a bandeira defendida por muitos que a instalação de faculdades fixa o jovem em sua cidade de origem não é válida. “Não garante fixação nenhuma. Porque o que faz com que o indivíduo permaneça no seu local de origem é a dinâmica econômica do município, independente se ele recebeu formação ali ou em uma faculdade distante.”
Políticas públicas que financie o desenvolvimento produtivo são fundamentais para fazer o jovem morador a ficar em sua cidade Natal, opina ele. “É importante que o Estado enxergue isso e financie o desenvolvimento produtivo com linhas de créditos. Tem que gerar riqueza e empregos, essa é a fórmula de evitar o êxodo das cidades de pequeno porte. Na dinâmica da economia globalizada, você articula o local e o global onde quiser, basta que você tenha condições intelectuais e financeiras isso.”
A seleção das instituições de ensino superior privado pode acontecer espontaneamente, a partir do momento que Estado intervir. “A instalação das Fatecs é uma demonstração disso. Quanto mais vagas públicas, menor será a demanda na particular. Só fica quem tem competência.”
O meio mais rápido de qualificar a mão de obra, de acordo com o professor, é o ensino tecnológico. “O Brasil está atrasado em comparação com outros países quando o assunto é formação profissional superior tecnológica. O Chile, México e a própria África do Sul formam de 35 a 40% na Educação Tecnológica, enquanto aqui não formamos nem 15%.”