09 de julho de 2026
Articulistas

Recall do ser humano

Fausi dos Santos
| Tempo de leitura: 4 min

Junto da edição do Jornal da Cidade do dia 26 de julho, no Jornal da Segunda Feira, foi publicada a matéria sobre o Recall do ser humano, baseado na crônica do escritor Célio Pezza. Na ocasião Pezza considera o homem como o grande responsável pelas grandes tragédias da sociedade atual, seja a violência ou a devastação do meio ambiente. Dentro dessa lógica ele afirma que está na hora de se fazer um recall do produto ser humano, para o bem dele mesmo e de todas as espécies.

Penso que corremos um sério risco se não entendermos bem este conceito – recall – quando aplicado ao ser humano, podemos fomentar certo sectarismo, divisão ou separação entre pessoas, algo semelhante a uma seleção e classificação de indivíduos de um lado, com perfil saudável e socialmente aceitável e outro grupo que por não possuir certos padrões, biológicos ou étnicos seria descartado. Isso já existiu nos campos de concentração nazista, onde geneticistas alemães realizaram centenas de experiências com judeus - considerados uma sub-raça - para alcançar a pureza étnica da raça ariana, considerada superior. Hoje já existe a possibilidade genética para escolher a cor dos olhos, o tipo de cabelo e tonalidade da pele de uma pessoa antes de ser gerada. Essa troca de componentes genéticos é similar a uma visita que fazemos ao mercado em que escolhemos o tipo de shampoo que gostamos ou a marca de molho que mais nos agrada. Vejo com preocupação essa questão, uma vez que abrimos precedente a certa intolerância com pessoas que durante a gestação são identificadas como portadoras de necessidades especiais ou a possibilidade de criarmos uma nova geração de homens moldados por nossos caprichos e desejos. Há uma questão ética por trás dessa temática: Até que ponto temos o direito de manipular a natureza ao nosso favor, quando estas modificações não são motivadas por necessidades de cura ou de perigo real à humanidade?

Outra análise deve ser focada na questão social. Quando falamos do recall de uma máquina, concentramos em uma peça que apresenta defeito e que precisa ser substituída, pois não serve mais. Com o ser humano isto é possível? Trocar as peças, ou modificar os hábitos ou crenças de um indivíduo não é coisa fácil, pois por trás dos atos e dos valores de alguém existe uma história, um processo de formação de seus valores que identificam seu caráter, sua postura, seu jeito de viver socialmente. Isto significa que, o meio, os modelos educativos, os valores, as oportunidades e motivações que um indivíduo recebe em casa e na sociedade contribuem em muito no que ele vai ser como pessoa e cidadão. Neste sentido, se a criminalidade aumenta a cada dia e o teor da perversidade humana parece hoje atingir um grau insuportável, não deveríamos questionar quais modelos a família e a sociedade estão oferecendo às pessoas em sua formação? Será que não identificaríamos no mau funcionamento dos vários setores sociais, na falência da instituição familiar, no assédio da mídia capitalista que reduz o indivíduo a nada, a origem dos reais problemas que vivemos hoje? Então, nesse sentido, não seria um recall do ser humano, seria um recall das instituições de poder, sejam elas políticas, educacionais, familiares e sociais, pois são estas instituições que modelam o tipo de indivíduo que uma sociedade deseja e se o indivíduo hoje apresenta “defeito” é por que as instituições que agem em sua formação estão falhando.

Uma última análise, o sistema capitalista, com sua forma própria de selecionar, modificar e classificar o que é bom e o que é ruim ao homem, já efetua há muito tempo o recall do ser humano. Basta analisarmos a lógica capitalista: é valorizado o indivíduo que possui um real potencial de consumo, que pode movimentar a máquina de produção por sua força de trabalho, que tem o poder aquisitivo suficiente para consumir os produtos a preço baixo e em grande escala e que tenha um tipo de formação suficiente para ocupar os circuitos de produção industrial, o que enriquece os empresários e alimenta escolas técnicas e universidades tecnicistas com um tipo de educação barata e medíocre. Ora, quem não se encaixa a este padrão é trocado como uma peça estragada de uma máquina, é descartado, jogado fora, fica à margem como subproduto, um peso que a sociedade tem que suportar para não entrar em colapso Basta olharmos os aposentados para termos um exemplo do que quero dizer, como é tratada essa gente? Elas sofreram recall, não oferecem tanto atrativo ao sistema, porque não são produtivas. Neste sentido o recall do ser humano existe na economia e o agente ou instituição responsável por isso é o próprio sistema capitalista.

O autor, professor Fausi dos Santos, é filósofo e professor de História da Filosofia Contemporânea