Eu defino ética como o ato de fazer a coisa certa mesmo que ninguém esteja vendo ou fiscalizando. Não precisa ter uma placa indicando para não pisar na grama nem jogar papel no chão. Eu não piso na grama nem jogo papel por aí porque sei que não é correto, não precisa ter um fiscal me vigiando. Seria bom se mais pessoas também pensassem e agissem assim, principalmente no trânsito.
Vemos todos os dias pessoas pararem em fila dupla na frente da escola, provavelmente porque seu rebento não deve ter forças para andar 10 metros ou senso de direção para ir sozinho até o seu carro. Por isso, a pessoa prefere parar em fila dupla bem na porta da escola, mesmo prejudicando todo o fluxo de tráfego no bairro. Garanto que se tivesse um guarda posicionado em frente ao portão da escola ninguém parava em fila dupla, pois correria o risco de levar uma multa. Mas como não tem ninguém vigiando e também ninguém reclamando em volta, fica tudo certo, não é? Aí é que entra a ética. Este é o exemplo que estamos dando para nossos herdeiros e, quem sabe um dia, eles poderão aplicar em nós mesmos. Lembremo-nos sempre de educar bem nossos filhos, pois serão eles que, um dia, escolherão o nosso asilo...
Domingo passado assistimos ao Grande Prêmio da Alemanha de Fórmula 1 pela televisão, quando a equipe Ferrari deu claramente uma ordem para que Massa desse passagem para Alonso durante a corrida. Em primeiro lugar, confesso que não torço pelo Massa só porque é brasileiro. Ele está lá por mérito próprio e não por ajuda ou incentivo do Brasil ou de qualquer entidade governamental. Ainda mais, o campeonato é de pilotos e de construtores, não é uma Copa do Mundo entre nações. Eu adoro Fórmula 1 e torço realmente por uma boa corrida, com ultrapassagens e boas estratégias entre as equipes, independente de quem seja o sortudo que esteja dentro do carro.
Vamos aos fatos: durante o início da corrida, quando Massa largou em terceiro e ultrapassou a todos na primeira curva, tinha um desempenho excelente e se manteve fácil na liderança, se destacando lá na frente. Quando fez seu pit stop para troca de pneus, colocou o jogo de composto mais duro e é sabido que seu carro está com problemas de dirigibilidade com este composto. Até que se aquecessem bem os pneus de seu carro, Alonso foi chegando e encostou, mas Massa conseguiu se manter na frente. Podia até ser claro que o rendimento da Ferrari de Alonso estivesse melhor que a sua e seria lógico esperar que mais cedo ou mais tarde Alonso o ultrapassaria, pois ainda tinha quase um quarto da corrida pela frente. Mas a ordem dos boxes veio bem clara, pelo rádio e em inglês para todo mundo entender, que “Alonso estava mais rápido do que ele, e se havia entendido a mensagem”. Só um tonto não entenderia.
A Ferrari agiu como empresa, pensou nos benefícios dos pontos no campeonato (afinal Alonso está mais bem colocado na tabela) e na possibilidade do título, mas infringiu claramente o regulamento 39.1 da FIA, que diz “ordens de times que interfiram no resultado de uma corrida são proibidas”. Só que alegam que não mandaram Massa dar passagem, apenas o informaram que Alonso estava mais rápido e que tirasse suas conclusões, portanto não aceitavam que tivessem descumprido alguma regra do jogo. Pode ser legal, mas não é ético. Com o impasse, a FIA determinou que os pilotos não fossem punidos, que a ordem de chegada fosse mantida assim como os pontos correspondentes, mas a equipe foi multada em US$ 100.000,00. O que são cem mil dólares para uma Ferrari que produz 3 mil carros por mês, cada um valendo pelo menos o triplo deste valor? Se tivesse sido respeitada a ética em vez do regulamento, a ultrapassagem teria acontecido naturalmente (ou talvez não, quem sabe?) mas o esporte teria prevalecido e não o poder do vil metal dos patrocinadores. Todos sairiam ganhando e a Ferrari teria os mesmos 42 pontos no campeonato de Construtores em qualquer ordem de chegada, somados os 25 pontos do primeiro com os 18 do segundo.
De volta para o nosso mundinho de carros mais fracos e ruas esburacadas, que o episódio acima nos sirva de exemplo. Não invente uma desculpa para justificar a sua não observância de uma lei, só por que não tinha um guarda olhando. Aja certo por você mesmo.