Encenada pela primeira vez em 1955, no Teatro Maria Della Costa, de São Paulo, a peça “A Moratória”, do dramaturgo Jorge Andrade terá montagem apresentada pelo Grupo Tapa hoje à noite, às 21h. A companhia integra a programação do projeto “Repertórios”, do Serviço Social do Comércio (Sesc), que traz ainda os espetáculos “Vestir os Nus” e “A Mandrágora” amanhã e sábado, respectivamente. Todas as apresentações têm entrada gratuita.
Escrito no contexto de transição entre a República Velha e a Era Vargas, o espetáculo relata a derrocada de uma família que perde uma fazenda de café e deposita toda esperança de vida no benefício da moratória. A peça foi inspirada na experiência do autor que na infância testemunhou a perda da fazenda de seu avô, devido à crise econômica de 1929.
A técnica principal usada por Jorge Andrade é a expectativa, focalizada em situações dramáticas, em dois tempos e espaços simultâneos e antagônicos, que, no desenrolar do enredo, possuem ações decorrentes do conflito das personagens em torno de duas expectativas: em 1929, a perda da fazenda por causa das dívidas contraídas por Joaquim e, no período pós-1930, a recuperação da mesma fazenda e a decretação da moratória pelo Governo.
Além dos conflitos de personagens, retrata, de forma bem explícita, a decadência da elite do café após a crise de 1929, acompanhada pela Revolução de 1930, encabeçada por Getúlio Vargas e a elite gaúcha. De acordo com material de divulgação, para enriquecer o assunto, a peça enfoca a crise da sociedade patriarcal rural e os indícios de um processo lento e definitivo de mudanças sociais na estrutura da sociedade paulista, focalizadas na inserção da mulher no mercado de trabalho, no deslocamento do centro econômico-social para as cidades e na formação do proletariado urbano.
Autor
Jorge Andrade nasceu em Barretos, em 1922. Aconselhado pela atriz Cacilda Becker, que percebera nele o talento para escrever, cursou a Escola de Arte Dramática de São Paulo, onde passou a lecionar, em 1953.
Seu primeiro texto, “O Telescópio” (1951), apresenta uma única situação, em apenas um ato e é o primeiro texto a exorcizar os demônios familiares da aristocracia decadente, em conflito com os costumes da nova geração. Até “Pedreira das Almas”, seus textos são escritos sob a perspectiva das classes dominantes.
A ótica das classes oprimidas é mostrada em ‘Vereda da Salvação”, encenada pela primeira vez por Antunes Filho em 1964, no Teatro Brasileiro de Comédia. A peça logo foi retirada de cartaz e recebeu duras críticas do regime militar. A partir daí, Jorge Andrade passou a ser figura incômoda e sujeita a desconfianças.
• Serviço
Espetáculo “A Moratória” hoje, às 21h, no Sesc (avenida Aureliano Cardia, 6-71). Entrada gratuita. Mais informações pelo telefone (14) 3235-1750.