De tão difundida num País cristão como o Brasil, tornou-se clássica - seja entre crédulos, agnósticos ou ateus - a imagem de Jesus Cristo com as mãos impostas sobre doentes que, milagrosamente, tornavam-se saudáveis. Questionável ou não, o evento ascendeu também no campo científico. Pesquisadores, inclusive brasileiros, já constataram que a saúde pode ser beneficiada com a vibração emitida pelas mãos durante procedimentos como reiki, passe e johrei.
Ainda assim, tais práticas não são reconhecidas por entidades como o Conselho Regional de Medicina (CRM) e o Conselho Regional de Psicologia (CRP) porque não se consolidaram cientificamente. Em andamento, pesquisas contemplam inclusive casos de cura, dependendo do método utilizado.
“Existem vários estudos científicos mostrando uma certa eficácia. O reiki, por exemplo, altera o sistema imunológico e uma série de outros elementos que poderiam ser terapêuticos”, admite José Roberto Leite, psicólogo livre-docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Coordenador da unidade de medicina comportamental da universidade, atualmente ele estuda os efeitos fisiológicos da prática.
O pesquisador reitera o fato das pesquisas não terem sido concluídas e a constatação de que elas têm apresentado resultado positivo. Por avançarem com intensidade no mercado nacional e internacional, as chamadas terapias alternativas têm despertado a atenção da ciência, dentro e fora do País.
“O nosso papel é estudar. Muitas realmente funcionam. Ao meu ver, a meditação é a principal delas. É impressionante o que ela promove”, comenta.
Especialmente indicada para quem sofre de depressão, transtorno obsessivo e ansiedade, a meditação tornou-se uma terapia altamente benéfica e com chancela científica. “A pessoa tem de fazer uma autofocalização. Prestar atenção nela mesma, no que está sentindo, interagir com as coisas da consciência. Não é pensamento positivo, isso é bobagem”, diz o pesquisador.
Ao estudar as chamadas terapias alternativas e complementares, Leite acredita que elas devam sempre auxiliar a medicina convencional. No entanto, a economiária de Bauru Helena Yui optou por apenas uma delas. Membro da Igreja Messiânica, ela tratou uma pielonefrite (infecção do trato urinário) apenas com johrei, embora o médico a tivesse advertido sobre o risco de morte.
Ela conta que quando foi procurar um especialista alopático estava com 1,5 milhão de leucócitos por ml de urina. Com 40 mil por ml, o paciente já corre o risco de ter o rim paralisado. Mas logo que passou mal, solicitou o johrei ao filho, que passou a madrugada com as mãos impostas sobre ela. Depois, durante o dia, foram os ministros da igreja.
“Quando o médico viu o exame, disse que era impossível eu estar viva. 90% dos pacientes vão a óbito em 24 horas. Quando me recuperei, ele disse que era um milagre”, afirma.
Apesar do final feliz, a conduta é refutada por profissionais da saúde consultados pela reportagem, que temem a possibilidade de um outro paciente numa situação semelhante vivenciar um desfecho trágico. A pielonefrite é uma das principais causadoras da septicemia, conhecida popularmente por infecção generalizada.
Tratamento de risco
Quando a economiária Helena Yui foi diagnosticada com pielonefrite, no final do ano passado, já fazia 40 anos que não consumia qualquer medicamento. Na ocasião, ela procurou um especialista porque expelia sangue e pus pela urina.
“Ele falou que eu tinha de tomar um coquetel de medicamentos dentro do hospital porque as drogas poderiam provocar uma reação violenta e a unidade de terapia intensiva (UTI) estava garantida. Eu tinha de tomar uma injeção a cada 24 horas. Se ela fosse antecipada, eu também poderia morrer. Decidi, então, não tomar nada”, conta.
Apesar da gravidade, ela buscou orientação dos ministros da igreja, onde ficou internada no alojamento para receber johrei. “A orientação que recebi foi com relação à mudança de sentimentos. No momento que eu estava de cama recebendo johrei, mentalizava para que Deus enviasse luz a todas as pessoas que precisavam de purificação”, comenta.
Em uma semana, Helena voltou a andar e a se alimentar. Na pior fase, desmaiava ao ficar de pé. Por conta da infecção no rim, as bactérias chegaram a circular pelo seu sangue, comenta. Documentado, o caso está sendo relatado na própria igreja.