09 de julho de 2026
Polícia

Bauru tem três homicídios em um dia

Mariana Cerigatto e Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 8 min

Bauru registrou três assassinatos brutais em uma madrugada violenta na cidade. O primeiro crime vitimou o presidiário Luiz Thiago Alves Ribeiro, 24 anos, que foi morto a tiros por volta das 2h na esquina da quadra 8 da rua Piauí com a quadra 4 da rua Capitão Alcides, no Jardim Brasil, ao lado de uma casa noturna. Momentos antes do crime, Luiz teria sido visto no interior de uma casa noturna localizada na rua Piauí. Ele é recluso da Penitenciária 2 de Bauru, beneficiado pela saída temporária de Dia dos Pais.

Tanto nestes três casos quanto nas ocorrências anteriores de morte violenta registradas em Bauru neste ano, as motivações dos assassinatos foram envolvimento com drogas, acertos de contas e crimes passionais.

Após 1h30 do atendimento da primeira ocorrência, a Polícia Militar (PM) atendeu outro caso, no interior do quintal de uma residência na quadra 4 da rua Zenzo Kikut, no Jardim Ouro Verde. Adriano Pacheco da Silva, 21 anos, foi morto também a tiros. O rapaz era ex-presidiário e havia cumprido pena por tráfico de drogas. Ele estava em liberdade há aproximadamente um ano.

Ainda na tarde de ontem, o proprietário de uma residência em construção na quadra 10, da Alameda Plutão, no Parque Santa Edwirges, encontrou o corpo de uma garota grávida. Karina Mariano da Silva, 23 anos, também foi morta durante a madrugada e teve seu pescoço cortado. Ela estava grávida de 7 meses.

Apesar dos crimes terem ocorrido em horários próximos e no mesmo dia, o delegado Cledson Luiz do Nascimento, da Delegacia de Investigações Gerais (DIG)- que atendeu os dois primeiros homicídios - diz que ainda não há indícios que comprovem que os casos estejam interligados. Segundo levantamento feito pelo JC, Bauru soma 32 mortes violentas neste ano. Apesar do número alarmante, os casos não têm ligação, segundo informações policiais.

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Onda de crimes começou às 2h

Na primeira ocorrência, que vitimou o detento Luiz Thiago Ribeiro por volta das 2h da madrugada de ontem, foi encontrado a 15 metros do corpo um revólver calibre 38 com sete cartuchos deflagrados, que pertencia à vítima. No mesmo local, também foram recolhidos pela Polícia Científica quatro projéteis de arma de fogo. “Provavelmente houve troca de tiros entre Luiz e o autor do crime”, aponta o delegado Cledson do Nascimento. “Ao que tudo indica, ele estaria correndo quando foi atingido nas costas. Havia também perfurações de arma de fogo pelo pescoço e na cabeça”, informa o delegado. Os policiais militares da Base Sul que atenderam a ocorrência encontraram o rapaz morto. O corpo foi conduzido ao Instituto Médico Legal (IML) de Bauru.

“Por enquanto não temos nenhum suspeito. Apenas sabemos que Luiz foi visto no interior de uma boate momentos antes do crime, mas por ora, não temos nenhuma testemunha. Iremos ouvir a família a fim de levantar pistas”, afirma Nascimento. Luiz cumpria pena na Penitenciária 2 de Bauru por tráfico de entorpecentes e tem outras passagens pela polícia por tentativa de homicídio e furto.

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Ex-detento também foi assassinado

Por volta das 3h30, uma hora e meia após o assassinato de Ribeiro, o alvo foi o ex-detento Adriano Pacheco da Silva, 21 anos. Ele foi atingido por 14 disparos de arma de fogo, sendo 12 na cabeça, no interior do quintal de uma residência localizada na quadra 4 da rua Zenzo Kikut, no Jardim Ouro Verde, em Bauru. “Tudo indica que ele teria invadido a residência na tentativa de fugir e se esconder”, frisa o delegado da DIG Cledson Luiz do Nascimento.

A dona da residência estava dormindo no momento dos disparos, quando acordou repentinamente com o barulho e resolveu acionar a polícia. Marcas de projétil de arma eram visíveis pelo portão e em uma das paredes de fora da casa. Uma das vizinhas, que não quis se identificar, disse que “foi um caos”. Eu não vi nada, estava dormindo, mas ouvi uma ‘barulheira’ tremenda”, relata.

O morador da casa em que Adriano foi morto disse que sua tia, que é proprietária da residência, foi quem ouviu os disparos e chamou a polícia. “Eu estava dormindo nos fundos da residência enquanto acontecia tudo isso, nem percebi. Mas quando a polícia chegou, acordei e me deparei com o corpo da vítima todo ferido, principalmente pelo rosto e todo ensanguentado, aparentemente já sem vida”, disse o morador, que preferiu não revelar a identidade. Quando a viatura de resgate chegou, Adriano já estava sem vida. Seu corpo foi conduzido ao Instituto Médico Legal (IML) de Bauru.

De acordo e com outros moradores, o bairro carece de segurança. “Raramente constatamos passar uma viatura por aqui, o bairro precisa ser melhor policiado, pois frequentemente tem sido alvo da criminalidade”, reivindicam os moradores.

Adriano era ex-presidiário e estava em liberdade há mais de um ano. Havia cumprido pena por tráfico de entorpecentes. De acordo com o testemunho da mãe da vítima, dado à polícia, ele morava com os pais, estava trabalhando e já estaria afastado da criminalidade.

Segundo o delegado, este caso também permanece sem suspeito. “Instauramos dois inquéritos para dar início às investigações, mas ainda não temos nenhuma hipótese para os crimes”, salienta.

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A dor dos familiares das vítimas

Os casos são diferentes, porém, o sofrimento das famílias enlutadas acaba sendo muito parecido. Tendo um suspeito em mente ou não, os pais tentam entender o que levou os filhos a terem a vida encurtada de forma tão violenta.

A mãe do ex-detento Adriano Pacheco da Silva, Suelene Pacheco, 41 anos, não sabe o que realmente ocorreu. Ela conta, bastante abalada, que o filho estava se recuperando bem após cumprir sua pena.

“Ele não tinha mais inimigos. Ele estava seguindo sua vida corretamente. Pelo menos eu achava isso, mas com a brutalidade do crime, eu não entendo mais nada”. Adriano foi morto com 14 tiros, sendo que 12 foram na cabeça.

Suelene conta que a vítima estava bastante feliz, pois sua esposa está gravida de oito meses. “Ele conheceu essa garota depois que saiu da prisão e estava bem com ela. Começou a trabalhar como pintor e estava muito contente com o nascimento do seu primeiro filho. Realmente eu não sei o que ocorreu”.

Dor semelhante à de Benedito Mariano da Silva, 53 anos, pai de Karina, encontrada morta na tarde de ontem. “Hoje (ontem) é meu aniversário. Olha o tipo de presente que ganhei. Além da filha, perdi um neto com ela. A tristeza é enorme”, afirma.

Porém, ao contrário de Suelene, ele imagina o que resultou no assassinato de sua filha. “Ela era usuária de drogas. Eu sempre falei para ela parar com isso, mas nunca adiantou. Todo dia aconselhava ela. Tenho certeza que foi isso que acabou com a vida dela”.

De acordo com Benedito, a filha começou a usar drogas há cerca de cinco anos e, desde então, a vida deles se tornou um caos. “A Karina fugia sempre para comprar drogas. E ela ainda roubava tudo de casa. A gente ganha cesta básica e ela trocava por drogas. Ela já chegou até a trocar uma madeira que o namorado dela trouxe do serviço para usar drogas. Não dava para controlar”, relembra.

A família de Luiz Thiago Alves Ribeiro também foi procurada para relatar o sentimento e as possíveis suspeitas que causaram a morte do jovem, porém, eles não quiseram falar com a reportagem.

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No início da tarde, corpo de mulher grávida foi encontrado em uma obra

Por volta das 14h30 de ontem, Karina Mariano da Silva, 23 anos, foi encontrada morta com o pescoço cortado e o rosto bastante machucado. A vítima estava grávida de 7 meses e já tinha outros cinco filhos. Karina morava na quadra 9 da Alameda Netuno, uma rua abaixo do local onde foi encontrada. Ela residia com os pais e, segundo a família, apresentava muitos problemas por ser usuária de drogas, especificamente o crack.

O pai da vítima, Benedito Mariano da Silva, 53 anos, contou que ela havia sumido de casa no sábado. Porém, segundo ele o fato era comum e o destino era sempre a procura por entorpecentes. “Era normal ela sumir assim. Porém, eu fiquei bastante preocupado. Hoje, fui na polícia informar o desaparecimento dela. Antes, tinha ido nos lugares que ela costuma frequentar, mas, não a encontrei”, relata.

Na tarde de ontem, Karina foi encontrada por Márcio Roberto Carvalho, proprietário da casa em construção onde o corpo foi encontrado, na quadra 10 da Alameda Plutão. Segundo ele, sua esposa esteve anteontem no local e tudo estava normal.

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‘Saidinha’ temporária gera polêmicas

Próximas às datas comemorativas, como Páscoa, Natal e Ano Novo, Dia das Mães e dos Pais, as famosas “saidinhas” dos detentos geram polêmicas em toda a sociedade. O benefício concedido é assegurado pela Lei de Execuções Criminais, que determina o direito a cinco saídas temporárias por ano, com intuito de reinserir o recluso em sociedade. Porém, o benefício segue uma série de regras. Nos dias da saída, os reclusos não podem simplesmente ir a qualquer lugar. Entre 22h e 6h têm de, obrigatoriamente, ficar recolhidos nas residências onde estão.

Segundo o juiz Enio Moz Godoy, da 2ª. Vara de Execuções Penais de Bauru, “a saidinha pode ser positiva se for bem aproveitada. O detento ganha um estímulo em conviver com a família e amigos. E isso é bom para ele se recuperar. Porém, vai da índole dele. Alguns enxergam assim, outros, uma chance de cometer novos crimes”, completa.