08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Por que perdoar?


| Tempo de leitura: 3 min

Há oito anos tenho trabalhado em um grupo de apoio denominado Pastoral da Sobriedade, mantido pela Igreja Católica. Quando surgiu era voltado exclusivamente para dependentes químicos e familiares. Contudo, devido sua proposta de mudança de comportamento e metodologia de trabalho, uma grande quantidade de pessoas com problemas emocionais, como depressão, ansiedade, fobias, irritabilidade, estresse, entre outros, tem participado das reuniões e obtido grande êxito em suas recuperações.

Nesses oito anos vi muito sofrimento, muita vida sem sentido e gente que simplesmente espera a vida passar. Vi muita gente que sofre e nem mesmo sabe o porquê.

Um dos grandes problemas que tenho percebido é a quantidade de pessoas que têm a oportunidade de perdoar alguém e não o fazem. E não fazendo guardam essa magoa dentro de si e ficam ressentindo por anos a fio as emoções ruins geradas em determinada situação do passado. E esse rancor, essa mágoa, passa a corroe-los por dentro, gerando tristeza, amargura, sofrimento... Ficam arrastando correntes como almas penadas ainda em vida.

Em alguns casos chegam a somatizar tal situação e desenvolvem doenças físicas e psicológicas. Se tornam pessoas amarguradas, ansiosas, mal-humoradas, infelizes e insatisfeitas com a vida e até mesmo depressivas.

Pior ainda, muitos se orgulham disso; dizem: “Eu não o perdôo! Ele não merece o meu perdão!”. Cultivam esse mau sentimento e fazem questão de alimentá-lo. Não percebem o prejuízo que isso traz para suas vidas. É como se tomassem altas doses de veneno esperando que o outro morresse. Mas porque isso acontece?

O perdão, da forma como o concebemos, ou melhor, da forma como aprendemos, é um “prêmio” que damos ao nosso bel prazer para aquelas pessoas que julgamos merecer. Funciona mais ou menos assim: eu subo no meu trono dourado e do alto da minha prepotência, orgulho e empáfia, olho para baixo, para aquele ser reles e miserável e com a voz de um faraó decreto: “Eu te perdôo!”. E assim aquela pessoa pode continuar levando sua vidinha mais tranqüila por que se redimiu, reconheceu seu erro e veio até mim pedir perdão. E eu, todo poderoso que sou, o liberto de seu fardo. Isso porque sou bom e humilde de coração.

Ora bolas! Quem disse que ela precisa do meu perdão para viver melhor? Se essa pessoa realmente cometeu algum erro, ofendeu alguém de alguma forma e isso está incomodando sua consciência, basta que se arrependa sinceramente e que peça perdão. Se o pedido de perdão for aceito ou não é outra coisa. Não é mais problema dela.

O perdão é um presente que dou à minha própria pessoa. É uma faxina que faço no meu coração e na minha consciência. Quando perdôo sou eu que me liberto, sou eu que vou continuar vivendo com mais paz, com mais alegria.

Quando perdôo eu retiro da minha vida sentimentos como ódio, raiva e rancor. Quando perdôo, eu paro de desejar o mal para outra pessoa e assim tenho mais tempo (e melhor tempo) para cuidar da minha própria vida. Quando eu perdôo, permito que o amor nasça no meu coração no mesmo lugar onde antes estavam a ira e o ódio. Quando perdôo, abro espaço para que a Alegria possa fazer parte da minha caminhada. Perdoe, seja feliz!

José Luiz Prata