08 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Retrato de Pai


| Tempo de leitura: 3 min

Na trajetória da minha vida, houve momentos em que sublimei a figura do meu pai, em outros, me envergonhei e, até mesmo, odiei. A verdade é que exigimos de nossos pais exemplos de perfeição e sabedoria, como condição típica da correlação entre criador e criatura. Com o senso de observação pouco mais apurado, conquistei o entendimento de que meu pai era, apenas, um ser humano dotado de virtudes e deficiências, assim como eu.

Não! Não é verdade! Enganei-me mais uma vez! Pois naquele momento jamais poderia me comparar com ele, pelo simples fato dele ter conquistado a condição de perpetuar a própria espécie, na figura do meu ser. Ele era Pai! Eu não sabia o que era ser Pai.

Com o tempo, a continuidade da vida me concedeu a maturidade e, com ela, o privilégio da condição de ser pai. Nesse instante, meu pensamento retroagiu no tempo, sublimei a mim mesmo, contudo, envergonhei-me da vergonha e do ódio que outrora senti.

Sequer tive o discernimento de entender que a vergonha e o ódio de que sentia, eram apenas aquilo que sentia de mim mesmo, pois, havia ignorado a própria condição de herdeiro biológico, cujos mistérios da vida se ocultam nas profundezas do código genético humano.

Agora sim! Posso afirmar que meu Pai era um ser humano dotado de virtudes e deficiências, assim como eu. Nesse sentido, consegui retratar com palavras a sua essência.

Energia materializada, cuja coreografia abriu uma porta, para me conceber, um dia.

Implosiva emoção que sofria e chorava por dentro, sorria por fora e estendia a mão.

Fez de si escravo da aventura, desbravou a vida, ao semear e colher o sustento da vida.

Mostrava-me um caminho tão difícil e diferente, dizia que era bom, para eu seguir em frente.

Fez da minha a sua fantasia, e esperava receber, somente, meu olhar sorrindo, um dia.

Transmitia intensa energia, dizia que sem amor tudo era possível, mas nada adiantaria.

Na sua ausência, eu nada sentia, pois, tinha certeza de que voltaria.

O tempo foi passando, e a pele um tanto envelhecida, sentia que essa energia se libertaria, um dia.

Com fraquezas no coração, quem não as tem? combatia com momentos de reclusão.

Com o sustento fraco, ele caía e sofria, mas, ele sempre sorria.

O que mais doía é que eu nada podia, apenas sofria, ao fingir que de nada sabia.

De repente, ele se tornou ausente, eu chorava, mas confesso que fiquei contente, pois, não podia mais vê-lo sofrer caindo, com tanta energia, sempre sorrindo.

Hoje, na sua eterna ausência, eu choro dormindo, mas agradeço por acordar sorrindo. O que é essa energia que se materializou? cuja coreografia abriu uma porta, para me libertar, um dia.

Conquistei o entendimento de que carrego as virtudes e as deficiências do meu pai, bem como as minhas. Àquelas farei com que se perpetuem; estas, com que pereçam em mim.

Conquistar o entendimento de que é preciso evitar o sofrimento humano, geração após geração, é nos perdoar geneticamente, por conseqüência, admiraremos e perdoaremos os nossos Pais. (Newton Martins Pina - neste ato é filho e pai)