08 de julho de 2026
Geral

Bauru atinge marca de 200 mil veículos

Por Tisa Moraes | Com Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 7 min

O motorista que sai de casa com destino às principais ruas de Bauru enfrenta um verdadeiro duelo por cada metro quadrado de asfalto, já que a quantidade de carros não para de aumentar. No último ano, a frota de Bauru cresceu 7,5% e, no mês passado, ultrapassou a marca de 200 mil veículos, confirmando a expectativa divulgada pelo JC em abril (leia mais ao lado). Os números foram divulgados ontem pelo Departamento Estadual de Trânsito (Detran) de São Paulo e incluem todos os tipos de automóveis, entre eles motocicletas, carros, ônibus, caminhões e caminhonetes.

Com um emplacamento médio de 42 veículos por dia entre julho de 2009 e julho deste ano, Bauru ganhou 15.280 veículos nos últimos 12 meses e superou a proporção de um automóvel para cada 1,8 habitante. Atualmente, a cidade conta com 200.979 veículos, sendo que 43% deles foram fabricados nos últimos 10 anos.

Como resultado diante de uma malha viária estagnada, o trânsito se torna cada dia mais lento e perigoso, desafiando a paciência e a habilidade dos motoristas, assim como a capacidade de ação do poder público. Mesmo com as melhorias implementadas pela Emdurb nos últimos anos, alargando avenidas e proibindo estacionamentos nas vias mais movimentadas, o crescimento dos gargalos de trânsito em Bauru é um desafio a ser solucionado.

“A quantidade de veículos cresce em progressão geométrica, enquanto as mudanças no trânsito acontecem em progressão aritmética. É uma conta que nunca fecha. E, a curto prazo, não há expectativa para que esse crescimento cesse”, resume o comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PM) de Bauru, tenente Roberto Trujillo Júnior. Neste contexto, segundo ele, os usuários das vias urbanas se tornam, ao mesmo tempo, vítimas e vilões do tráfego intenso.

Vilões porque ainda agem com imprudência e agressividade, além de ainda não terem se conscientizado sobre a necessidade de optar por formas alternativas de locomoção. E vítimas porque são eles, afinal, que entram para as estatísticas dos acidentes que, muitas vezes, resultam em mortes.

Uma das ocorrências recentes e trágicas foi registrada no dia 30 de julho, quando estudante Sarah Cavalheri Felisbino, 18 anos, e seu pai, José Antônio Felisbino, 49 anos, foram atropelados e mortos por um caminhão depois de tombarem com a motocicleta em que estavam na rodovia Marechal Rondon. Segundo Trujillo, os motociclistas estão entre as vítimas mais vulneráveis no trânsito dada a fragilidade do veículo e a dificuldade que eles têm para compreenderem seu papel enquanto motoristas.

“O condutor de veículo de quatro rodas também provoca situações bastante complicadas no trânsito. Mas o motociclista não se entende como condutor de veículo automotor, não tem a consciência dessa responsabilidade. Muitos deles nem têm habilitação e documentos da moto”, pontua.

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JC já previa número para julho

Em matéria publicada em abril deste ano, o Jornal da Cidade já estimava que a marca dos 200 mil automóveis em Bauru seria ultrapassada em julho. Na época, o município havia fechado o mês de março com 195.938 veículos. Os números vinham sendo impulsionados, principalmente, pela facilidade para a aquisição de carros após o incentivo governamental de redução de Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e pela maior acessibilidade às linhas de crédito bancárias.

Já em 1 de agosto, no caderno especial em comemoração aos 114 anos de Bauru, novamente o JC voltou a abordar o tema do crescimento constante da frota e sobre a necessidade de implantação de medidas que facilitem a mobilidade urbana. Entre as soluções apontadas por diversos especialistas na área, estão a melhoria da qualidade da pavimentação asfáltica, alterações no sistema viário, construção de um anel viário no entorno da cidade e o estabelecimento de políticas públicas que privilegiem o transporte coletivo ou não motorizado.

Porém, para o comandante do Pelotão de Trânsito da Polícia Militar (PM) de Bauru, tenente Roberto Trujillo Júnior, somente a adoção de postura administrativa que favoreça sistemas alternativos de mobilidade, como bicicletas e ônibus coletivos de qualidade superior, poderá reverter o crescimento da frota no longo e médio prazos. "Tem que haver uma mudança muito grande de mentalidade nas pessoas”, analisa.

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Acidentes graves diminuem e leves aumentam

Com o aumento da frota bauruense, o número de acidentes também cresceu. Entretanto, o aumento nas estatísticas diz respeito aos acidentes de pequeno porte já os com vítimas graves e fatais diminuíram consideravelmente na cidade (veja quadro ao lado).

De acordo com dados fornecidos pela Polícia Militar (PM), o número total de acidentes nos seis primeiros meses deste ano foi de 4.110, uma média de 685 acidentes por mês. Já no mesmo período do ano passado, ficou em 3.756, média mensal de 626. Ou seja, no período analisado, somente este ano, houve 354 acidentes a mais do que em 2009.

E esses números ganham mais volume se for considerado o número de pessoas envolvidas. Cogitando que cada acidente envolva um número mínimo de duas pessoas, somente este ano são mais de oito mil envolvidos em colisões, atropelamentos e outros acidentes.

Porém, quando se analisa as subdivisões das estatísticas, verifica-se que os acidentes considerados graves diminuíram bastante. No primeiro semestre de 2009, a média mensal de acidentes com vítimas graves foi de 149. Já em 2010, esse número caiu para 89.

O mesmo verifica-se para vítimas fatais: nos primeiros seis meses do ano passado, foram registrados 19 acidentes com mortes, o que leva a uma média de 3,1 por mês. No mesmo intervalo de tempo em 2010, foram 11, média mensal de 1,8.

Com isso, pode-se perceber que o número crescente de acidentes em Bauru é devido aos que não deixam feridos. Mensalmente, este ano, a média de acidentes sem vítimas ficou em 503, enquanto, em 2009, a média registrada foi de 432 por mês.

Aparentemente leve

Se somarmos o total dos acidentes leves e sem vítimas, no primeiro semestre de 2010, as vias públicas de Bauru já foram palco de 4.046 acidentes. Por serem geralmente pequenas colisões e não deixarem feridos graves ou mesmo vítimas fatais, para a população são apenas acontecimentos cotidianos e irrelevantes. Porém, os envolvidos não pensam da mesma maneira.

No último domingo, Sônia Maria Ribeiro de Carvalho, de 47 anos, conduzia seu veículo na avenida Dr. Marcos de Paula Raphael, no sentido Bauru 2000 - Centro, quando foi atingida por outro carro. O Gol dirigido por Sônia teve o para-choques destruído e o susto foi grande. Na ocasião, a filha gestante dela estava de passageira.

Pela estatística, a média registrada é de 22 acidentes de pequeno porte diariamente. Se, hipoteticamente, dois motoristas estiverem envolvidos, são 44 pessoas que passam todos os dias por perdas materiais ou mesmo por transtornos emocionais como os enfrentados por Sônia e sua filha.

Na ocasião, felizmente, ninguém ficou ferido, porém, o motorista sequer parou para verificar a gravidade do acidente. Assim que houve a colisão, ele fugiu do local.

Esta prática que vem sendo comum é crime. De acordo com o artigo 304 do Código Brasileiro de Trânsito (CBT - Lei 9.503/97), não prestar socorro às vítimas, pode gerar a detenção de seis meses a um ano ou multa, se o fato não for mais grave. Se a vítima morrer, a pena pode ser aumentada entre um terço e a metade.

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Motos já são 44,8 mil

Atualmente, circulam pelas ruas de Bauru 44.856 motocicletas, ou 22,3% do total da frota, em sua maioria de baixa cilindrada e adquirida por consumidores de baixa renda. Embora representem um papel importante para desafogar o trânsito – já que ocupam menos espaço nas vias e nos estacionamentos, além de ser mais versátil e mais econômica, a moto ainda trava uma luta violenta contra os carros que circulam na área urbana.

Mototaxista há 4 anos e motociclista há mais de 30, Hebert Canho, 51 anos, explica que sofreu apenas um único acidente por conta da experiência e atenção redobrada que possui sobre o veículo de duas rodas. “O desrespeito ao motociclista é enorme. A falta do uso de seta antecipadamente é o que mais nos prejudica”, pontua.

Já a atendente Vera Lúcia Ferreira, 41 anos, já quebrou o braço em uma das várias quedas que sofreu, sendo que em uma delas carregava a filha Ana Carolina, de 13 anos, na garupa. “O trânsito é muito perigoso. Tenho moto há quatro anos e costumo andar devagar. Nessa batida mais forte, fui fechada, mas não estava prestando muito a atenção”, frisa.

A falta de senso de coletividade, segundo Canho, não é só do motorista de veículos de quatro rodas. “Existem três classes de condutores de motos e só o motociclista age com responsabilidade. O motoqueiro dirige sempre em alta velocidade para chegar rápido. Já o cachorro louco é inconsequente, empina moto, rala a rabeta e faz manobras extremamentes arriscadas em meio aos carros”, observa.