10 de julho de 2026
Política

Árvore sucumbe ao individualismo

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Não está sendo fácil manter árvores em pé no perímetro urbano de Bauru. A arborização das ruas na cidade se transforma em verdadeira saga para fiscais da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma) na luta contra a insanidade individualista e a pouca consciência de cidadania.

A legislação falha, a ausência de programas permanentes de conscientização e o comportamento anti-ambientalista, apontam especialistas, formam os principais elementos da poda drástica e do corte indiscriminado na cidade, ampliando os efeitos negativos ao paisagismo e aprofundando a já bastante reduzida área verde instalada no espaço urbano.

O Poder Público confirma a rotina de cidadãos habituados culturalmente em serem crueis com árvores. Basta o projeto de uma construção residencial ou comercial encontrar tronco e galhos pela frente que lá vem o raciocínio embutido no conceito “tem uma pedra no meio do caminho”.

O titular da Semma, Valcirlei Gonçalves, aponta a dificuldade em reverter este comportamento. “Falta consciência da preservação do meio ambiente. É incrível como muitos empreendedores pensam somente na proteção da fachada da loja, culpando a árvore como o problema, o que é ridículo. As pessoas precisam entender que a árvore oferece sombra, atua no equilíbrio da temperatura urbana e ainda é uma excelente oportunidade de compor com o paisagismo do negócio e do entorno”, sustenta.

O secretário lamenta que de cada 10 pedidos relacionados à arborização protocolados na prefeitura, nove sejam para sacrificar a planta. “Em imóveis alugados é muito pior esta questão cultural. O proprietário chega ao cúmulo de dizer que compensa pagar a multa e fazer o corte do que tentar preservar a árvore. A maioria fala que com um mês de aluguel a multa se paga e a fachada fica ‘livre’. O mesmo acontece para a poda drástica”, aborda.

Negócio e paisagismo

Valcirlei reitera que a planta é oportunidade de paisagismo. “O empreendedor perde opção de iluminar a árvore, para compor com o paisagismo da loja, de fazer um jardim bonito, ações que agregam ao negócio e não o contrário. É cultural mesmo. Nem lei deveria ser necessário para disciplinar a arborização. Tinha de ser por consciência”, completa.

A multa tanto para a poda drástica quanto para o corte não autorizado é de R$ 500,00. O ex-secretário do Meio Ambiente biólogo Clodoaldo Gazzetta acredita que além da política de conscientização desde cedo, a partir das escolas, o Poder Público tem de realizar ações de reversão. “O Poder Público tem de intensificar ações no sentido de demover o empresário, o comerciante ou a dona de casa da visão de que o árvore é o problema. Uma saída que funcionou quando fui secretário foi o de apostar na contrapartida de mudas ao invés da multa. O número de cortes sem autorização caiu com a exigência de uma muda, ao invés da aplicação simples da multa”.

O prefeito Rodrigo Agostinho, que também foi secretário Municipal do Meio Ambiente no governo passado, lembra que houve tentativa, frustrada, de alterar a legislação. “Tentamos rever a lei na Câmara, mas não houve aprovação. A regra geral deve considerar que toda obra deve levar em conta a arborização existente. O projeto da casa tem de evitar a frente da garagem para a árvore e prever a fachada compondo com a árvore e não o contrário. É absurdo, todo mundo quer sombra, mas quer cortar a árvore da frente de casa. Muitos pedem para cortar porque o galho suja o quintal ou a calçada”, salienta.

Agostinho também conta que é muito comum casos de envenenamento. “Os próprios moradores envenenam a planta para se livrar dela. O problema é que isso é de fácil comprovação e o proprietário é que responde, por culpa objetiva mesmo. Mas falta consciência mesmo assim. No Centro é muito comum cortar a árvore para livrar a visão da fachada ou da vitrine. Há enorme equívoco em entender que a venda não será atrapalhada pela árvore e enorme dificuldade em aceitar que é possível conciliar”, aborda o prefeito.

____________________

Pena de um ano

e mais educação

Para a engenheira florestal e pesquisadora em gestão ambiental Marcela Mattos de Almeida Bessa, “esteticamente, a árvore tende a contribuir com o imóvel, fica harmônica com o empreendimento”.

Porém, o tema envolve outros elementos. Há conflito entre a legislação federal, estadual e municipal. “Se a árvore for nativa, no Estado, se a planta for particular, tem de repor pelo menos 25 unidades. No município, eu corto um Ipê em frente à casa, pago R$ 500,00 e parece tudo certo. Mas não está certo. Eu brigo contra este conflito de legislação. Na legislação federal, destruir dá detenção de três meses a um ano, como poda drástica”, questiona.

Marcela Bessa aponta para um único caminho: “Educação ambiental. Não tem jeito. O órgão público tem obrigação de fazer ação neste sentido. Mas não há campanha nesta área. O efetivo também é precário. Tem de ter profissionais para atuar. Mas também tem o papel da mídia, da universidade, das entidades organizadas. Tem de haver envolvimento. É simplista ver na multa a função de coibir. Tem de fiscalizar e acionar para reparar o dano. Eliminar a sensação de que pagar a multa resolve o problema”, completa.