10 de julho de 2026
Política

‘Tinha uma árvore no meio do caminho’

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 3 min

É muito fácil encontrar pela ruas, infelizmente, a confirmação do conflito comportamental de alguns bauruenses diante da arborização. Com o perdão da paródia em cima da frase central do poema de Carlos Drummond de Andrade, “No meio do caminho”, o título desta página tenta advertir que muitos bauruenses, há tempos, perderam o encanto e a noção sobre seu próprio mundo.

Na segunda-feira à noite, o telefone da redação tocou várias vezes para denunciar a derrubada de cinco árvores saudáveis na esquina das ruas Antonio Garcia e Antonio Alves, nos Altos da Cidade. Acionado, o prefeito e ambientalista Rodrigo Agostinho (PMDB) prometeu determinar à fiscalização municipal para levantar o caso.

Na quadra 6 da Avenida Comendador da Silva Martha, zona Sul, já há processo em andamento na Semma tratando da poda drástica de duas árvores. A apuração é o de que o interessado não teve pedido de poda deferido e, ao conhecer o valor da multa, preferiu pagar os R$ 500,00 por unidade a discutir que a futura fachada do imóvel em construção não sofreria prejuízos ao conviver com os galhos.

O secretário do Meio Ambiente, Valcirlei Gonçalves, aborda que na Comendador a espécie majoritária é de flamboyants, tombada por lei. “Algumas têm mais de 40 anos. Só é autorizado retirar se a árvore representar risco para o cidadão ou estiver doente. Para as novas calçadas temos opções interessantes, como o Ipê, que fica muito bonito e não estoura o piso”, diz.

A defesa das árvores também provoca conflitos institucionais. A instalação do novo Plantão da Polícia Civil, no Centro, teve como principal vítima um chapéu de sol. A árvore antiga, como outras dispostas na mesma calçada, sucumbiu ao novo calçamento e entrada para o departamento policial. Depois de alguma insistência da Semma, a reposição veio com o plantio de uma muda na Rua Bandeirantes.

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O "fantasma" de galhos - exceção

Nem sempre as histórias urbanas sobre árvores são negativas. Em alguns casos, a administração municipal se vê diante do reconhecimento do corte. Em janeiro de 2006, a mãe de um menino enviou uma carta à Prefeitura de Bauru apontando que o menino, portador de Síndrome de Down, apresentava problemas psicológicos. Uma árvore em frente à quadra 15 da Rua Santos Dumont, na Vila Lemos, era vista como uma forma de fantasma pelo garoto. Em fevereiro daquele ano, a administração indeferiu o pedido de substituição da árvore, argumentando pela necessidade de laudo psicológico para sustentar o pedido. O laudo veio para atestar a deficiência do menino e abordou que ele, ao assistir filme de terror, passou a apresentar medo da árvore em frente à sua casa.

No processo 2.144/06, de posse da Semma, está registrado que foi erguido muro para tentar, em vão, resolver a questão. Assim, em julho de 2006, o então secretário Municipal do Meio Ambiente, Carlos Barbieri, opinou, em parecer, pelo sacrifício da árvore como única solução para o caso.

“Dentre os bens da família, o maior é o filho. A árvore, por laudo, causa danos ao patrimônio privado da família, em especial à mãe e ao menino. Sem outra alternativa, há que se avaliar a substituição”, traz o processo. A árvore, então, foi substituída. A nova plantinha está crescendo em frente ao endereço.