09 de julho de 2026
Geral

Economista alerta: há risco da crise mundial voltar até 2012

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 4 min

Passados quase dois anos do início da crise econômica mundial, que teve seu estopim com a concordata do Lehman Brothers, em 15 de setembro de 2008, a euforia que tomou de países já recuperados como o Brasil precisa ser controlada. O motivo é a possibilidade de o mercado internacional ser novamente atingido por uma nova fase da turbulência, que dá sinais de não ser sido completamente superada nos Estados Unidos. A avaliação é do professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da Universidade de São Paulo (Fea-USP), Manuel Enriquez Garcia, autor de livro de economia mais vendido no País que veio ontem a Bauru para ministrar a palestra “Situação Atual e Perspectivas da Economia Brasileira”, em homenagem ao Dia do Economista, comemorado hoje.

Garcia explica que, ao contrário das expectativas do início do ano, desde abril e, mais acentuadamente, no último mês, a economia norte-americana passou a apresentar taxas “anêmicas” de crescimento, o que fez com que uma nova possibilidade de recessão começasse a ser considerada. Segundo ele, o dólar sofreu uma rápida desvalorização frente ao euro nos últimos quatro meses, quando a variação cambial passou de US$ 1,20 para US$ 1,32.

Um dos principais motivos para o fenômeno foi a criação de vagas de trabalho em número insuficiente para que a população voltasse a possuir poder de compra, além da destinação de recursos públicos a tempo de salvar os bancos da falência. “A crença inicial era de que a economia iria ter uma trajetória em forma de U, ou seja, um primeiro mergulho até o fundo do poço, depois começa a crescer de maneira persistente até sair da crise em um ano ou dois. Com os dados mais recentes, o U já está descartado e já se pensa em um W, que é uma queda forte, seguida de uma lenta recuperação e de um novo mergulho, bem mais acentuado que o anterior. É a pior coisa que pode acontecer para uma economia, porque o segundo mergulho é arrasador”, detalha, questionando qual país terá aporte financeiro suficiente para socorrer a economia americana, já que a Europa e países como a China também não se encontram em situação financeira notadamente confortável.

E, mesmo estando o regime macroeconômico brasileiro adequado - com câmbio flutuante, bom nível de reservas e inflação controlada, entre outros aspectos - o eventual o retorno da recessão norte-americana chegará ao Brasil no prazo de dois anos, segundo previsão do economista. “Num primeiro momento, o brasileiro não vai sentir nenhum efeito, mas poderá ser atingido depois de algum tempo. A recomendação é ficar atento e não fazer grandes investimentos futuros ou financiamentos de longo prazo. A crise americana vai afetar ao Brasil, mas não dá para dizer, com certeza, quem será afetado”, pontua.

Empresariado

Se seguir o exemplo do que ocorreu em seu início, em 2008, o repique da crise afetará primeiramente o mercado de ações brasileiro e, por conseguinte, os preços das comoditties dos segmentos de siderurgia, minérios e petróleo irão desabar. Portanto, para os empresários, a orientação é a mesma: moderação diante das apostas que só geram resultados no longo prazo.

Garcia destaca que a tendência de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) em 7,1% em relação ao ano passado não deve ser entendida como motivo de otimismo por dois motivos. Um deles é que a estimativa está baseada em uma referência rebaixada, já que 2009 foi um ano marcado pela crise.

O outro se dá em virtude das eleições presidenciais, que injetam grande quantidade de investimentos na economia, movimentando de modo atípico setores gráfico, publicitário e editorial. “O próprio governo, até onde a lei permite, acelera a realização de obras em ano eleitoral, o que também representa uma grande movimentação financeira de setores da construção civil, por exemplo”, frisa.

Por conta de todo este contexto, a taxa real de crescimento do PIB, de acordo com o economista, deverá ser de 4,5% em 2010, com previsões consideradas “razoáveis” para 2011. Isso porque, lembra ele, a economia brasileira caminha “a reboque” da economia norte-americana.

“A política monetária brasileira está surtindo efeito do ponto de vista do controle da inflação. Mas, apesar de estarmos com 250 bilhões de reservas, estamos importando muito e o preço das comoditties estão caindo. Com isso, as previsões da balança comercial, de serviços e transferências unilaterais são negativas para 2010 e muito fortemente para 2011. Com isso, a vulnerabilidade da economia diante de uma crise se torna muito maior”, pontua.

Quem é

Manuel Enriquez Garcia possui graduação em Economia pela Faculdade de Economia Administração e Contabilidade (Fea-USP), mestrado e doutorado em Economia pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Fea-USP. Atualmente é professor doutor da Universidade de São Paulo. Tem experiência na área de Economia, com ênfase em Métodos Quantitativos em Economia. Junto com Marco Antonio Sandoval Vasconcellos, escreveu o livro “Fundamentos de Economia”, que se tornou o mais vendido do Brasil neste segmento.