08 de julho de 2026
Geral

Esporte é melhor via para o limite

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 4 min

A descarga de altas taxas de adrenalina - hormônio que deixa nossos corpos a postos para a iminência de tensão - proporciona sensação de recompensa e bem-estar a quem acaba de vivenciar essa situação. Mas, para tanto, não é preciso entrar na jaula de um leão ou mexer com a mulher do vizinho lutador de vale-tudo para liberar o hormônio no organismo.

Uma das melhores formas de experimentar a sensação de superar os limites do perigo são os esportes radicais. Praticada com risco controlado, alegam os adeptos, as modalidades mais ousadas têm como principal atrativo, não a competição entre os atletas, mas sim os resultados alcançados ao superar os próprios limites.

Conhecido como o “Homem Aventura”, o instrutor de paraquedismo Paulo Assis não se contenta apenas com os incontáveis saltos, alguns bastante ousados – já pousou após passar com o para quedas aberto pelos poucos metros do vão sobre o viaduto da Marechal Rondon sobre a avenida Nações Unidas.

Além do trabalho na formação de novos paraquedistas, ele também se aventura no frio argentino e chileno nas competições pelas modalidades de neve, além de ser adepto dos esportes motorizados. “Também gosto muito do mergulho, mas aí é mais um esporte de contemplação”, classifica.

Assis não gosta de se intitular um “viciado” em adrenalina. “É um termo muito forte”, diz. Contudo, ele admite, viver no limite é essencial. “Sou uma pessoa que precisa dessa descarga de adrenalina em meu dia a dia. Buscar desafios é importante para que a gente não fique inerte, parado no tempo”, acredita.

Entretanto, o instrutor de paraquedismo adverte que os esportes chamados popularmente como “coisa de louco”, significam insanidade ou perda do amor pela vida, muito pelo contrário: “É uma forma de se sentir mais vivo. Realizar alguma atividade com arrojo não significa inconsequência”, diferencia.

A biomédica Ana Paula Ronquesel Battochio atesta que o esporte radical é uma das principais válvulas de escape para quem busca sentir os efeitos da descarga de adrenalina no corpo em sua intensidade máxima. “Aqueles que experimentam qualquer esporte radical e gostam, tornam-se adeptos. A sensação de bem estar provocada tem efeito ‘viciante’”, compara.

“O organismo relaciona a liberação da adrenalina a um efeito de recompensa, fazendo com que a pessoa tenha vontade de repetir o esporte, para sentir novamente as sensações provocadas pela liberação do hormônio”, detalha.

Profissões de perigo também ‘viciam’

Se os adeptos dos esportes radicais não trocam a adrenalina sentida durante saltos, voos ou escaladas, há quem também herde as boas sensações da tensão, por mais paradoxal que seja, acumulada durante anos em trabalho de risco.

Mesmo após deixarem a função, algumas pessoas não perdem o “vício” pela adrenalina e trocam a obrigação profissional pelos esportes radicais, para poder continuar sentindo a emoção de estar no limite.

É o caso do atual instrutor de paraquedismo e praticante de asa delta Tarsis Tietlöhl. “Em termos de esportes, desde que comecei, não larguei mais. Falta só esquiar na neve”, orgulha-se o ex-mergulhador da Petrobras, que trocou a manutenção de dutos e até resgate de corpos submersos pelas atividades esportivas.

Antes de se profissionalizar, entretanto, Tarsis conta que começou a praticar o mergulho de forma amadora, através de curso. O gosto pela atividade cresceu, assim como a habilidade, e ele exerceu a profissão durante sete anos. Entretanto, ele trocou o trabalho por águas menos arriscadas, porém nada monótonas, porque o risco não era mais condizente com os ganhos financeiros.

“O salário de mergulhador caiu demais. Não compensava”, justifica ele, que já chegou a ficar sem oxigênio a 50 metros de profundidade, durante trabalho de manutenção em duto submerso no oceano. “Achei que não chegaria vivo lá em cima. Eu estava quase apagando”, lembra Tarsis, salvo por um companheiro, com quem dividiu o tubo de oxigênio.

Apesar de algumas experiências desagradáveis e muito arriscadas, Tietlöh guarda dos tempos de mergulho a sede por quebrar os próprios limites e experimenta toda a adrenalina dos esportes radicais.

“Há três anos ganhei um salto duplo (paraquedismo ao lado de instrutor). A partir daí não parei mais”, diz Tarsis que hoje ganha a vida como instrutor. “Em semanas sem saltos a gente fica até meio aborrecido”, admite.