“Tapera Queimada - A história não contada da Colônia Japonesa de Borebi” foi o título escolhido pela estudante de jornalismo Tânia Cristina Morbi em 2007 para resgatar fragmentos de uma história não registrada.
O objetivo do projeto foi contribuir para a recuperação da memória histórica do município. “Os registros oficiais são parcos e sobrevivem basicamente da narrativa oralizada entre as gerações de descendentes.”
O povoado de Tapera Queimada existiu de fato, segundo indícios e não provas concretas, por aproximadamente dez anos. Marcas da tradição dos habitantes orientais que viveram ali junto aos habitantes locais não são encontradas na comunidade atual, o que resta é um cemitério abandonado em meio a muito mato com túmulos em ruínas e placas quase que apagadas.
A falta de documentos quase que obrigou Morbi a basear seu trabalho em depoimentos. À época, ela escolheu um antigo morador de Borebi Euclides Pires Duarte para contar parte do que ele viveu junto à colônia japonesa. Seu Dico, 88 anos, conviveu com os orientais ainda criança e relembrou fatos interessantes.
Um deles relata como eram as brincadeiras que uniam crianças brasileiras e orientais. Naquela época os meninos não se misturavam com as meninas na hora de brincar, segundo seu Dico. Apesar dele gostar de usar o estilingue para caçar passarinhos, ele se misturava aos japoneses para jogar beigoma. “Uma espécie de pião, confeccionado com aço fundido que antes também era feito com conchas e onde os meninos adaptavam pesos para que ficassem mais próximos ao chão.”
Já as meninas jogavam ayatori, um pedaço de barbante com as pontas amarradas formando um laço. “Enquanto um dos jogadores prendia o laço entre os dedos da mão, o outro, também com os dedos tinha que retirá-lo, formando figuras diferenciadas. Perdia quem deixasse de formar novas figuras.”
As crianças ‘de olhos puxados’ que moravam no bairro, filhos de imigrantes japoneses, segundo o morador, iam para a escola cantarolando. Embora seu Dico não soubesse o significado da canção, tratou logo de decorar para acompanhar a turma.
Para ele, o povoado era como uma cidade, as casas eram construídas em grupos de cinco ou seis moradias cada. Havia escola, centro telefônico, igreja e três casas de comércio. Todos os imóveis eram construídos com madeira retirada das matas próximas. A chegada da energia elétrica na cidade de Borebi no ano de 1929 também marcou a infância do morador. “Os lampiões foram retirados dos postes e substituídos por lâmpadas”.
Sarampo e anemia eram as doenças que mais matavam
No cemitério de Turvinho, como era conhecido, localizado no povoado de Tapera Queimada, município de Borebi (45 quilômetros de Bauru) há um livro de registro das pessoas ali enterradas. Nele há além das datas, a causa da morte. Por ele é possível perceber o quanto a medicina evoluiu e consta quantas pessoas morreram à época de doenças que hoje raramente levam ao óbito. Outra comprovação através dos dados reforçam a precariedade em que viviam as pessoas do povoado.
As doenças que mais causam morte eram: sarampo, bronquite, disenteria, esquistossomose, tuberculose, insuficiência cardíaca, nefrite, colite, meningite, anemia e tétano. Há ainda um grande número de natimorto.
Dentre as nacionalidades destaque para os espanhóis que estão registrados como “hespanhóis”, brasileiros e japoneses.
Entre todos o mal mais temido era a malária, doença até então desconhecida pelos japoneses. A assistência médica era precária. A presença de um médico era rara e, normalmente, ele era de Lençóis Paulista. Para todas as doenças o “ponta livre” era indicado. Produzido à base de uma erva de mesmo nome, o medicamento era usado sempre a partir de um sintoma comum, pontadas pelo corpo.
Má administração da colônia pode ter afugentado as família nipônicas
A saída dos japoneses do bairro Tapera Queimada em Borebi ainda é um mistério sem registro. Os moradores ouvidos no trabalho de Tânia Cristina Morbi apontam duas prováveis causas. Uma epidemia de tuberculose ou a má administração do povoado.
A doença poderia ter afugentado os orientais uma vez que eles eram mais suscetíveis pela condições precárias que viviam. Porém, o mais provável seja a má administração do bairro, de acordo com a pesquisa.
“O mau gerenciamento teria causado prejuízos às famílias nipônicas e locais.”
Diante das dificuldades enfrentadas pelos imigrantes na compra e venda da produção de algodão, eles teriam deixado o local e passado a morar e trabalhar em colônias com desenvolvimento mais consolidado como uma opção mais segura para sua instalação. Assim o planejamento inicial de retornar ao Japão foi sendo deixado de lado pelas famílias instaladas em várias regiões do Brasil.
Seu Dico relembra que, o administrador da colônia de Tapera Queimada era Gotaldo Lindeberg, um descendente de imigrantes alemães. Um homem forte e muito sério que causava medo nas crianças. “Ele era responsável pela ordem local. Era ele também que controlava e resolvia pendências dos moradores. Tinha autoridade para expulsar da colônia os ‘briguentos’, afinal a lei era trabalho e convívio pacífico entre as famílias.”
Lindeberg na visão de seu Dico era um homem que não admitia contestação, especialmente quanto ao pagamento feito pelo trabalho, geralmente muito pouco. “Alemão, como era conhecido, era a pessoa que buscar socorro médico em Lençóis Paulista quando um morador da Tapera Queimada adoecia.”
A filha mais velha do Alemão era responsável pelo centro telefônico do bairro. “Era uma construção de alvenaria com um único aparelho. Poucos utilizavam o serviço, menos ainda os imigrantes, que não podiam custear as ligações internacionais e por isso mantinham contato com familiares que ficaram no País do Sol Nascente por meio do envio de cartas.”
Pessoas simples
A cidade era formada por pessoas simples, maioria imigrantes. “Cerca de 50% dos moradores eram espanhóis, 30% italianos e 20% vieram do fim do mundo. Borebi tinha quatro ruas. No povoado de Tapera Queimada, na década de 20, viviam aproximadamente 50 famílias. A área toda tinha seis mil alqueires que pertencia ao governo estadual. Os imigrantes recebiam as terras e passavam a ser colonos e arrendatários”, lembra o antigo morador.
Os contratos temporários eram os que predominavam, segundo a tese da então estudante, no caso dos orientais. “Era a principal forma de fixação deles no Brasil já que apenas uma minoria havia trazido do Japão recursos”. Aqueles que tinham dinheiro investiram na compra de terra. O sonho que se tornou realidade em apenas alguns casos e não em Borebi, onde os nipônicos permaneceram apenas por uma década.
Capela de São Geraldo
A capela de São Geraldo tem mais de 60 anos e fica na fazenda, antigo bairro Tapera Queimada. A propriedade rural, hoje privada foi adquirida pelos Moraes e hoje a família mora no local. Dona Flora Isabel R. Godoy de Moraes, 74 anos, explica que quando o marido comprou as terras já havia a capela, mas que os nipônicos não estavam por aqui. “Falavam deles, mas eu nunca os vi.”
Ela lembra que na capela eram rezadas missas todo final de semana, porém, atualmente o local é usado somente para rezar o terço. “Não tem padre para rezar a missa. Sobre o cemitério do Turvinho, dona Flora lembra apenas quando algumas famílias de orientais vieram buscar os ossos de seus parentes.
“Hoje o local é usado por umbandistas que fazem despachos.”
Reverência às crianças
Sob o olhar dos ocidentais, os japoneses tinham costumes no mínimo curiosos, comenta Euclides Pires Duarte no trabalho de pesquisa de Tânia Morbi.
“Um costume tipicamente japonês que causava espanto entre nós era a reverência às crianças. Em qualquer festa as crianças eram servidas primeiro. Todas se sentavam nos longos bancos de madeira instalados em uma parte do galpão e eram bem servidas, como se fossem gente grande.”
Na sequência, os adultos se alimentavam e nessa hora, os pequenos não se aproximavam, mostrando a relação respeitosa e em sinal de obediência a eles, uma marca da educação oriental.
Outro costume que despertava olhares dos brasileiros sobre os imigrantes era o uso do hashi, aqueles “talheres de madeira” usado para pegar a comida. “Eles eram ágeis com os pauzinhos. Consumiam pouca carne e muito peixe, sempre produzido com pouco óleo e temperado com iguarias.”
Os hábitos alimentares dos nipônicos era uma barreira na adaptação ao País. “A maioria deles tinha dificuldade para se acostumar aos nossos hábitos alimentares. Por isso, as famílias mantinham próximos de suas casas pequenas plantações de legumes e verduras. O arroz era o prato principal. Para eles as carnes eram apenas acompanhamento.”