08 de julho de 2026
Bairros

ABC da felicidade

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 6 min

Se você consegue ler, sem dificuldades, as primeiras palavras que dão início a esta reportagem, sinta-se um privilegiado. Isto porque, segundo dados do Censo de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), cerca de 15% da população bauruense ainda é analfabeta.

A boa notícia é que, devido aos esforços dos Centros de Educação para Jovens e Adultos (Ceja), este cenário está mudando. Entre 2007 e 2009, nove polos de ensino foram construídos e, nos 24 anos de existência do programa, cerca de 55 mil pessoas com mais de 15 anos aprenderam a ler e escrever, e deixaram de fazer parte destas estatísticas.

Além disso, entre 2000 e 2010, o número de salas destinadas à alfabetização de jovens e adultos saltou de 11 para 57, e, atualmente, estão espalhadas por 39 bairros do município.

Na última semana, a equipe do Jornal da Cidade visitou dois polos do Ceja, um no Jardim Redentor e outro no Núcleo Fortunato Rocha Lima. Em ambos, o clima de interesse, dedicação e esperança alegrava o ambiente.

Em cada sala, havia cerca de 20 alunos, quase todos uniformizados. Alguns, inclusive, com roupa de inverno. Sobre as carteiras novas, bem conservadas e sem rabiscos - diferente do que é encontrado na maioria das escolas estaduais dos ensinos médio e fundamental –, estavam lápis, caneta, borracha e cadernos cuidadosamente posicionados.

As turmas são compostas, em sua maioria, por pessoas que, logo na infância, tiveram de abandonar os estudos para garantir o próprio sustento. Outro fator em comum é que grande parte destes alunos sobrevive do mercado informal.

“Embora as turmas sejam bastante mescladas, prevalece o sexo feminino e a maioria delas tem mais de 50 anos. Voltam para a escola na esperança de aprender a ler e a escrever e, quem sabe, conseguir um posicionamento melhor no mercado de trabalho”, aponta Maria Therezinha Machado Bonora, diretora da Divisão de Educação para Jovens e Adultos e professora do Ceja há 24 anos.

Segundo ela, o trabalho tem apresentado resultados significativos, sendo que a maior dificuldade é cativar o aluno e convencê-lo a participar das aulas. Entre os motivos para tal resistência está quase sempre o medo de não corresponder às expectativas e se decepcionar.

“O mais difícil é cativá-los, já que, geralmente, essas pessoas têm um histórico de doenças, problemas pessoais, necessidade de trabalhar e, muitas vezes, insucesso na escola. Uma vez trazidos para a escola, a maioria gosta e não abandona mais”, explica Maria Therezinha, que detalha que o índice de evasão nas unidades do Ceja é, em média, de 20%, e o de aprovação, cerca de 40%.

Nestes casos, os professores devem estar preparados para desempenhar funções que vão além de sua formação: devem ser psicólogos, conselheiros, ouvintes, amigos, entre outras coisas, acrescenta Nilva Cristina Bragante Gonçalves, professora do Ceja há 20 anos.

“É preciso ter uma atenção especial, que seja o suficiente para superar a barreira que estas pessoas criaram com relação aos estudos. Os alunos do Ceja precisam ter prazer em estudar e saber que são capazes”, destaca ela, que chega a ir até a casa dos estudantes quando começam a faltar com frequência.

O resultado de tanta atenção é a empolgação e a dedicação por parte dos alunos, que demonstram gratidão a cada nova palavra que conseguem formar. “Pode parecer um clichê, mas é verdade que nós, professores e funcionários do Ceja, aprendemos com os alunos muito mais do que ensinamos a eles”, afirma a professora Suzanete Maria da Silva.

‘Descobrir um mundo novo’

Todos os dias, Jovina Maria da Silva, 69 anos, acordava no meio da noite, levantava da cama e, cheia de cuidados para não acordar o marido, percorria, na ponta dos pés, o trajeto que liga o quarto à cozinha. Colocava sobre a mesa todo o seu material escolar e ficava ali, durante horas, revisando o que aprendeu durante o dia e contemplando as páginas do caderno que ainda estavam em branco, mas que, em breve, seriam preenchidas.

Tal ritual funcionava como uma espécie de tática, adotada por Jovina entre os anos 2000 e 2003 para amenizar a ansiedade que sentia no peito devido à chance de voltar a estudar.

“Quando eu comecei a frequentar o Centro de Educação para Jovens e Adultos (Ceja), me senti como uma menina de novo. Eu contava os minutos para ir à escola. Se deixassem, eu dormia com o meu caderno do lado”, conta.

Com 59 anos na época, Jovina mal sabia ler e escrever. O analfabetismo em idade adulta foi consequência dos caminhos que sua vida tomou. Quando criança, não podia frequentar a escola pois tinha de ajudar no sustento da família, trabalhando na lavoura e como babá. Aos 15 anos se casou e, logo na sequência, teve dois filhos. Quando o caçula tinha 6 anos, seu esposo faleceu e ela teve de voltar a trabalhar.

“Cada dia que passava eu via meu sonho de voltar a estudar ficar cada vez mais longe. Me sentia muito mal de ter de pedir ajuda às vizinhas para poder ler uma carta, por exemplo. Para mim, era uma vergonha. Depois que voltei para a escola, tudo mudou. É como se o mundo fosse diferente do que o que eu conhecia”, explica.

Jovina permaneceu por três anos estudando no Ceja, de onde saiu alfabetizada. Atualmente, desfruta da possibilidade de participar do mundo de conhecimento proporcionado pelas palavras. Tanto que compõe poesias e faz leituras na igreja onde frequenta. “Até tubo de pasta de dente eu leio”, brinca.

Método especial

Tristes e desvalorizados. Estes são alguns dos sentimentos que atormentam o pensamento de jovens e adultos que, mesmo tendo passado dos 15 anos, não sabem ler nem escrever. Para eles, o carimbo em letras garrafais de “Não Alfabetizado”, existente no documento de identidade, funciona como um decreto de incapacidade.

De acordo com a pedagoga Eliana Marques Zanata, professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru e especialista na educação de jovens e adultos, a desmotivação e a insegurança são os principais fatores que afastam tais alunos da vida escolar.

“Muitos acham que, por conta da idade, não têm mais capacidade de aprender. Alegam que a cabeça não acompanha mais. Porém, isto não é verdade. A aprendizagem do aluno independe dele ser alfabetizado, não tem influência da cognição. É o mesmo que dizer que uma pessoa com 30 anos não tem capacidade de aprender uma outra língua, por exemplo”, compara Eliana.

De acordo com ela, o socioeducador que trabalha com jovens e adultos deve ter atenção redobrada e considerar a bagagem que cada aluno traz consigo. Além disso, a oferta de atividades deve, sempre, ser condizente com a disponibilidade de cada indivíduo.

“Ao aprender a ler e a escrever, o adulto descobre um mundo novo, cheio de possibilidades. É dever do professor trazer elementos que pertencem à sua realidade para dentro da sala de aula e estimular o aprendizado. A partir de coisas do cotidiano, o educador deve mostrar o que é a sociedade e que o aluno pode, sim, ser parte dela”, completa ela, que frisa ser por meio do letramento que o indivíduo se torna valorizado e respeitado.