09 de julho de 2026
Geral

Aniversário: lembrança boa ou ruim?

Adilson Camargo
| Tempo de leitura: 4 min

Poucas datas dividem tanto a opinião das pessoas como o aniversário. Enquanto uma parte (a maioria, diga-se) festeja mais um ano de vida, um outro grupo prefere o silêncio e a reclusão. Para estes, o aniversário é sinal de envelhecimento, de que a morte está se aproximando. Portanto, não há motivo nenhum para comemorações.

Estudo feito pelo professor e antropólogo Cláudio Bertolli Filho mostra que houve uma mudança profunda no que foi denominado de pós-modernidade. Isso significa que fazer aniversário deixou de ser algo positivo e passou a ser encarado como um acontecimento negativo. A cada ano que passa, as pessoas pensam cada vez mais na ideia da velhice.

A dona de casa Ana Tereza Dias e Silva, 53 anos, chora toda vez que parentes e amigos cantam para ela o secular “Parabéns para você”. E o choro não é de alegria. “Eu não sei o que acontece. É inexplicável”, diz ela.

Ana conta que até mesmo quando era criança não gostava de festa de aniversário. “Eu só chorava”, recorda. Ela lembra que os pais sempre quiseram fazer festa para ela, mas nunca quis. Segundo a dona de casa, a única parte boa do aniversário são os presentes. “Fora isso, eu odeio”, afirma.

Ela não gosta nem mesmo de ser cumprimentada. “Prefiro manter distância. Não gosto que ninguém venha à minha casa. Todos sabem disso, mas sempre tem aqueles que vão, só para me provocar”, reclama.

Ana fala que sempre que possível ela viaja para casa de parentes em São José do Rio Pardo para fugir dos cumprimentos em Bauru. Ela procura chegar lá em um horário que dificulta a visita de parentes e amigos daquela cidade, mas não tem jeito. “Eu acho que eu sou a pessoa que mais tem festa surpresa nesse mundo. Só porque eu não gosto”, desabafa.

Ao contrário do que pode parecer, Ana Tereza não tem problemas com a idade. “Quanto a isso, sou muito bem resolvida. Eu não sou daquelas que escondem a idade”, revela. “Não temos como evitar. O jeito é encarar”, diz.

Outro exemplo de quem não curte nem um pouco o aniversário é Leonilda de Souza, 63 anos, completados na última semana. “Acho que o dia do aniversário deveria ser como outro qualquer”, sugere.

Ela vê muito desperdício e muita falsidade nessas datas. Na opinião dela, gasta-se muito dinheiro e muita comida com a festa. Mesmo assim, sempre tem quem sai de lá reclamando. “A festa nunca agrada a todos”, pondera.

Leonilda também não vê com bons olhos as filas que se formam para cumprimentar o aniversariante. “Acho isso uma falsidade”, justifica. Segundo ela, algumas pessoas cumprimentam mais por obrigação, para parecer simpático e amigo. Na verdade, os desejos de “felicidades” não duram mais do que alguns poucos segundos. Basta virar as costas e está tudo esquecido.

O organizador de eventos Guilherme Borges de Souza tem apenas 29 anos, mas a cada aniversário que passa ele fica mais preocupado. “O cabelo vai caindo, as pessoas que você gosta vão morrendo, os pais vão ficando debilitados, todos os amigos ficam mais velhos. Tenho medo de ficar só no mundo”, explica.

Segundo ele, conforme a idade vai avançando esses pensamentos ficam mais presentes. Especialmente no dia do aniversário, toda essa reflexão vem à tona. “Sei que em um ano existem conquistas a serem comemoradas, mas mesmo assim, é mais um ano que se foi”, lamenta.

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Alegria

Há quem prefira não refletir tanto sobre o aniversário, ou pelo menos não pelo ângulo da proximidade da velhice. O jornalista e ator Juliano Dip Lencioni, 26 anos, não quer nem saber se os cabelos brancos estão chegando, ele quer mesmo é comemorar. Se tiver faltando motivos, que se comemore então a chegada dos cabelos brancos. Algum motivo tem de ter. A festa não pode parar.

“Nunca deixei meu aniversário passar em branco”, diz. O cabelo pode, o aniversário não. Para se ter uma ideia da empolgação, este ano ele reservou um bar para reunir os parentes e amigos. No ano passado, teve até DJ para animar a festa. E ele já está pensando não na festa do ano que vem, mas na festa dos 30 anos. “Eu quero uma festa diferente. Um festão. Preciso pensar desde já”, antecipa-se.

Por causa dessa mania de festa, Juliano comenta que lembra de apenas uma festa surpresa feita pelos amigos. “Eu não dou chance para eles pensarem em algo”, admite.

Segundo ele, o fato de reunir os amigos para dançar, conversar, brincar, vale cada ruga nova que surge na face. “O aniversário tem de ser comemorado, porque temos de comemorar a vida. Além do mais, eu adoro ser paparicado, sempre gostei. E gosto de paparicar também”, revela. “Não sei como vai ser quando a idade chegar. Mas, por enquanto, quero festejar.”