10 de julho de 2026
Regional

Agricultores criam engenhocas para melhorar vida no campo

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 6 min

Os inventos apresentados na Feira de Agricultura Familiar e Trabalho Rural (Agrifam) 2010 foram julgados no último domingo, quando o evento foi encerrado.

Na categoria Trabalhador Rural, o vencedor foi Luís Eduardo Gava, de Cândido Mota, que faturou a primeira colocação com seu abanador de café. Ele recebeu o prêmio de R$ 2 mil. Na segunda colocação, com R$ 1,5 mil, ficou o inventor Sebastião Pereira da Silva, de Bauru, com o mourão de cerca de plástico reciclado. Eduardo Coelho, de Itu, que fez um interruptor ecológico para roda d’água, faturou R$ 1 mil e o terceiro lugar.

Na categoria Incentivo à Pesquisa, os vencedores foram: em primeiro lugar, professor Mário Kawano, de São Paulo, com o gerador social de energia elétrica para fluxo de água. Na segunda posição, Rafael Fernandes, também de São Paulo, se destacou com a turbina Banki a partir de sucata. O terceiro lugar ficou com Sebastião Palhano, de Jaguariaíva, que criou o processo lavagem e concentração de gases.

Tanto os três primeiros inventores da categoria Trabalhador Rural quanto os cinco mais bem colocados na categoria Incentivo à Pesquisa receberam troféus. Também foram entregues certificados a todos os participantes.

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Kit pamonha facilita a vida do produtor

Fazer pamonha se tornou mais fácil na propriedade rural de Amado de Lima Ruela, da cidade de Iepê (SP). Ele inventou três máquinas para facilitar a confecção do quitute de milho verde. Os inventos foram apresentados na edição 2010 da Agrifam.

A primeira criação do produtor rural foi inspirada na necessidade de sua mãe, que perdia muito tempo tirando os “cabelos” das espigas. “Pensei em facilitar a vida dela e evitar os fuxicos. A reunião de várias mulheres fazia surgir conversinhas. Com a máquina, o trabalho é individual.”

A máquina é pequena e tira “cabelo” de uma espiga de cada vez. A espiga entra por um lado com os “cabelos” e sai de outra limpa. O trabalho é feito por uma escova giratória, que funciona pela força de um motor. “Inventei a máquina e fui aperfeiçoando até chegar nesse formato”, comenta o ‘professor Pardal’.

O inventor garante que a espiga não quebra dentro da máquina, desde que o milho esteja no ponto de pamonha. “O invento é voltado para quem faz pamonha em grande quantidade. Para quem faz festa do milho, por exemplo. Se o milho estiver muito verde pode não dar certo”, alerta.

O invento foi concluído há dois anos e seu idealizador comercializou seis deles. “Essa máquina é artesanal, elétrica. Não tenho condições de fabricá-la em larga escala. Ela custa cerca de R$ 500,00. Resolvi divulgá-la porque acredito que facilitaria a vida de muitos produtores de pamonha.”

Na sequência das invenções, Ruela criou uma máquina para ralar o milho e outra, bastante interessante, para ensacar o quitute. A engenhoca evita o contato manual e agiliza o trabalho. “Toda a massa da pamonha é colocada em um balde com tampa.”

A massa da pamonha desce para um funil cuja ponta tem uma espécie de válvula por onde controla-se a quantidade desejada. “É higiênica, evita o desperdício e agiliza o trabalho que se torna mais rápido. Basta colocar a palha no formato na boca do registro”, ensina Ruela.

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Cerca ecológica tem bambus e garrafas pet

Usando recursos da própria propriedade rural é possível fazer uma cerca ecologicamente sustentável. Foi o que fez o produtor rural João Luiz Alves de Andrade, da cidade de Tupã. Ele transformou bambus em mourões e balancins. Para garantir a durabilidade, ele rompeu os nós dos bambus e preencheu-os com calda de solo e cimento e plastificou-os com garrafas pets. Para confeccionar as molas e isoladores, ele utilizou garrafas pet, pedaços de arames e de mangueira de irrigação.

O invento não está à venda, avisa o produtor, que apresentou a cerca na Agrifam apenas para oferecer orientação para os agricultores que se interessaram. “A proposta foi usar todos os recursos da propriedade rural. O bambu que eu tenho em abundância e materiais recicláveis, como garrafa pet, mangueiras de irrigação que quebram e pedaços de arame que sobravam. Nesse contexto, incrementei fazendo a cerca ficar eletrificada para dar sustentatibilidade ao negócio.”

Andrade ressalta a economia que o invento proporciona ao agricultor. “Ele faz a cerca e deixa de comprar muitos materiais porque os tem na propriedade dele. O bambu, por exemplo, é uma vegetação que cresce muito rápido, 10 centímetros/dia. É um material que pouca gente usa.”

Na cerca elétrica de bambu criada por ele em seu sítio, comenta o inventor, foram feitos 20 piquetes de 300 metros cada um. Para isso, foram utilizados 180 pedaços de bambus. “Para encamisar o bambu com as garrafas pet, eu as levei ao fogo e elas aderiram ao material já preenchido de calda de solo cimento, que dobrou a durabilidade. A plastificação protege o material de chuva e sol constante.”

As bocas das garrafas plásticas que sobram, nas mãos do inventor, se transformaram em isolantes e encaixes. “A boca da garrafa é usada como isolante. A gente usa a boca para passar o fio dentro dela. Nela tem quatro ranhuras, usamos duas delas. Não estraga a rosca. A abertura é feita com uma lâmina de serra. É onde se encaixa os fios da cerca elétrica. A tampa vem para travar e prender o fio.”

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Vaso e canteiro reusam a água

Um vaso com sistema de irrigação próprio que evita o desperdício de água, o uso constante de adubos e, ainda, a proliferação do mosquito Aedes aegypti. O vaso, confeccionado em material acrílico, tem uma base fechada para onde vai a água em excesso da rega. Um sistema de irrigação implantado na vasilha trata de reusar o líquido para nova rega. O invento é de autoria do produtor rural Railan Rodrigues, de São Paulo.

Uma bombinha manual retira o excesso de água que restou na base do vaso e irriga a planta. “Evita o uso do prato que retém o excesso de água que facilita a proliferação do mosquito e transmite a dengue. O reservatório fica completamente inacessível ao inseto”, explica o inventor.

O sistema de irrigação manual, segundo Rodrigues, facilita a rega. “Na hora de regar a planta, basta acionar mecanicamente a bomba de irrigação, sem a necessidade da utilização de vasilhas com água, evitando molhar o piso ou o móvel onde estiver acomodado o vaso”, explica.

O reuso da água é uma forma de manter os nutrientes da terra, frisa o inventor. “Toda vez que uma planta é regada, o excesso de água leva consigo parte dos nutrientes da terra. Neste tipo de vaso, os nutrientes ficam acondicionado no reservatório junto com a água que vai voltar para a parte superior do vaso em nova rega, devolvendo à terra o nutriente dela extraído.”

As vantagens do vaso batizado de ecologicamente correto são ampliadas para o canteiro, que também faz o reuso da água. “Em ambos os casos, a planta fica livre das agressões constantes do cloro da água, porque o sistema reaproveita o líquido. Evita o uso de adubos químicos para repor nutrientes. O sistema pode ser implantado em vasos de acrílico, cerâmica e plástico, que são adaptados.”

Expectativas superadas

A Fundação Instituto de Terras do Estado de São Paulo (Itesp) participou da Agrifam para comercializar produtos originários de assentamentos e quilombos. A novidade ficou por conta das barracas padronizadas em cor laranja.

Na avaliação do diretor executivo do Itesp, Marco Pilla, a participação da fundação superou as expectativas. “Praticamente 100% dos produtos levados à feira foram comercializados”, informa. Os produtos fabricados nos assentamentos e quilombos foram as vedetes. Dentre eles o destaque para artesanato de fibras de bananeira e palha de milho, doces, compotas, queijo e mel.