Não é novidade para aqueles que compreendem a dinâmica da sociedade contemporâ- nea o fato de o sistema capitalista não apenas produzir mercadorias, mas também produzir as necessidades para o consumo de sua produção. A operação lógica de nosso sistema econômico transita em todos os setores de nossa sociedade, em todas as indústrias e motivando uma transformação na própria relação do indivíduo para com o seu mundo material.
A indústria farmacêutica não é exceção. Ela precisa produzir a mercadoria e também precisa produzir a necessidade. Ela opera den-tro da lógica do capital. Se essa operação ain- da não se traduz na sua forma mais plena é porque o próprio capital não tem ainda o pleno e absoluto controle sobre a produção. Há ainda resistências, há ainda questionamentos e, sobretudo, há ainda tentativas de superar essa lógica do capital sobre a forma de luta organizada. A Ritalina é apenas o pico de um enorme iceberg que vem no sentido de colidir de forma frontal e nociva com a nossa realidade - já bastante combalida pela reprodução de uma lógica econômica historicamente desgastada. Mesmo assim, vale a pena dedicarmo-nos a esse fenômeno, que está longe de ser simples de entender. A sociedade contemporânea, nos últimos vinte anos, passa por uma guinada reacionária que ataca de forma frontal e deliberada todos os avanços conquistados pelas lutas sociais. Indústrias, governos e médicos compactuam uma suposta cura para a educação através do uso indiscriminado de drogas a favor das classes produtivas. Essa guinada é conhecida como “desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social”. As políticas neoliberais querem retirar os avanços democráticos que ainda insistem em sobreviver dentro do Estado. Seus ataques não se resumem a apenas cortes financeiros, mas também a propostas de novas “leituras administrati- vas”, reformas “modernizadoras” e à adoção de métodos supostamente mais “eficientes” e adequados à “nova realidade”.
Dentro de todas as conquistas sociais, a educação pública e gratuita é aquela que mais sofre ataques de todas as formas e frentes. A educação não apenas sofre com cortes em investimentos, mas também é obrigada cada vez mais a se submeter à adoção de “novas pedagogias” supostamente mais modernas e adequadas à realidade - que na verdade apenas têm como meta a retirada da transmissão do conhecimento do cerne da educação e a descaracterização da função do já pauperizado professor. Cria-se assim um ambiente de entropia e empobrecimento cul-tural da classe trabalhadora.
Diante desse ambiente onde afloram concepções idealistas e naturalizantes do de- senvolvimento do ser humano, a escola tem cada vez mais produzido os denominados “não-adaptados”, na verdade produto do fracasso do próprio modelo educacional, modelo este que não se limita ao espaço escolar, e acaba também contaminando as concepções mais amplas de educação no ambiente familiar e social.
Esses “não-adaptados” precisam ser explicados fora do sistema, não como produtos dele. A culpabilização do fracasso escolar (segundo os que defendem a medicalização) não visa nem à escola, nem aos pais: a culpa só pode ser da criança. A única terapia, vista pelos atuais modelos escolares como adequada, é aquela que vem atender à mesma ideologia do sistema, isto é, aquela que vem no sentido de explicar o fenômeno da não adap- tação a partir das estruturas intra-psíquicas do indivíduo, estruturas estas de origem e funcionamento “complexos”, mas que sempre tendem a revelar problemas de origem fisioló- gica. Pronto. Basta agora uma simples nomenclatura e temos uma doença do comportamento, chamada por um impreciso, porém charmoso, termo: “transtorno”.
Como tratar esses ‘transtornos” do comportamento? A indústria farmacêutica tem a resposta: Ritalina. Efeitos colaterais? Existem muitos. Problemas? Nenhum! Existem já os medicamentos que atuam sobre os efeitos colaterais. Resultado: dependência e necessidade. Dessa forma, o neoliberalismo criou os transtornos que criaram a Ritalina, que criou a necessidade. Não necessariamente nessa ordem, mas necessariamente dentro do mesmo propósito. Quebrar esse propósito vai além de quebrar o uso do medicamento. É necessário superarmos a lógica que produziu essa realidade: a lógica do capital que gera desde a guerra até crianças que se drogam e se viciam aos quatro anos de idade em um já não tão mais “admirável mundo novo”.
O autor, Carlos D’Incao, é professor e diretor do D’Incao Instituto de Ensino