09 de julho de 2026
Auto Mercado

Dr. Automóvel: Mais lendas desmistificadas

Consultoria: Marcos Serra Negra Camerini*
| Tempo de leitura: 4 min

Meu amigo Marcelo Ferrazolli sempre gostou de usar o termo “lendas automobilísticas” para definir um conjunto de informações correntes assumidas como verdadeiras, mas sem nenhuma comprovação técnica. Eu acho ótima esta definição e já desmistificamos uma série delas aqui nesta coluna, umas interessantes, outras completamente ilógicas mas de aceitação comum. Hoje vamos ver mais algumas.

A primeira refere-se às velas de ignição, com um ou mais eletrodos. Qual usar? É claro que as velas com um eletrodo são mais comuns e baratas do que as de quatro, mas cada uma tem sua aplicação específica. Como diz o Arnaldo, a regra é clara: motores simples usam peças simples e consomem combustíveis simples. Agora, motores mais sofisticados e de alto desempenho (luxo, esportivos, competição) usam componentes específicos e tão sofisticados quanto, para garantir o desempenho superior. Só que o custo vai lá em cima também. No caso das velas, as comuns de um eletrodo garantem a centelha necessária para a queima da mistura ar+combustível até as rotações máximas mais comuns atingidas pelos motores convencionais. O eletrodo fica posicionado acima do eletrodo central, proporcionando uma única faísca. Já nas velas com quatro eletrodos, seu posicionamento é radial em volta do eletrodo central, o que permite não apenas quatro pontos de faíscas, mas oito, sendo quatro aéreos (que surgem por cima do eletrodo central até o lateral) e quatro deslizantes (que passam por baixo do eletrodo central, próximo à porcelana de isolamento até o eletrodo lateral), garantindo diversos pontos de centelhamento, o que significa maior vida útil do componente, menor desgaste do sistema de ignição, partidas mais rápidas e mais economia de combustível. Seu custo pode chegar a ser 20% maior do que uma vela comum. A dúvida maior é se pode usar uma vela de quatro eletrodos em um motor comum, sim ou não? Claro que pode. O motor ficará um pouco mais esperto, pois a centelha ocorrerá mais no centro da câmara de combustão e a vela durará mais, mas depende do uso que o cidadão fizer do seu carro. Se for para rodar pouco e só na cidade é bobagem, pois a vantagem não será tão perceptível. Carros que rodam muito em estradas sentem mais os efeitos desta melhoria.

Outra dúvida corrente que acaba gerando lenda: desengatar a marcha sem pisar na embreagem danifica o câmbio? Depende de como se faz e da habilidade do motorista. Primeiro, vamos entender como se faz o engrenamento das marchas. Um câmbio sincronizado é assim chamado por dispor de anéis sincronizadores, que equalizam a rotação dos eixos de engrenagem do câmbio permitindo o engrenamento suave da marcha selecionada. Ao pisar no pedal da embreagem, isola-se o motor da transmissão impedindo a passagem de torque. Ao mover a alavanca de mudanças, o garfo aciona o anel de sincronismo que freia o eixo respectivo, permitindo o engate suave e sem trancos. Este procedimento vale tanto para engatar ou desengatar uma marcha. Se o motorista tiver perícia suficiente, bom ouvido e sensibilidade para fazer a troca “no tempo”, conseguirá equalizar a rotação dos eixos das engrenagens controlando o momento certo de retirar uma marcha, reduzindo a rotação do motor e engatando a marcha seguinte sem o uso da embreagem. O processo inverso também é perfeitamente possível, ou seja, desengatar uma marcha, subir a rotação do motor o necessário e reduzir para outra marcha. Mas saliento que é preciso ter muita técnica para fazer isto com perfeição, caso contrário vamos ouvir aquele desagradável som de marcha “arranhando”, que tanto depõe contra a perícia do motorista... Além de prejudicar ou até mesmo quebrar os componentes do câmbio.

Mais uma, para encerrar: carro flex pode usar tanto álcool quanto gasolina, e na falta de um pode usar o outro em qualquer proporção. Mas em um carro a álcool, como proceder se não encontrar o combustível em postos? Pode usar álcool de limpeza comprado em supermercado? É uma lenda boba hoje em dia, pois existe álcool em quase todos os postos do país. Mas em caso de emergência, pode usar sim o álcool de limpeza, mas o de 92ºGL (nunca use os mais fracos (46 ou 70ºGL, muito menos em gel). Este álcool é até melhor do que o vendido em posto, pois tem menor teor de água