É exatamente por conta do quociente eleitoral que muitos partidos buscam contar em seu quadro com os famosos “puxadores de voto”. Atualmente, o PSB por exemplo, que tem como candidato a deputado federal o bauruense Toninho Garms, acredita na capacidade de atração eleitoral de dois concorrentes à Câmara dos Deputados: o ex-jogador de futebol Marcelinho Carioca e o ex-secretário de Estado da Educação, Gabriel Chalita. Se eles atingirem a meta esperada pela legenda que é superar um milhão de votos, deverão “levar” outros dois candidatos com eles para a posse.
Nas eleições de 2006, por exemplo, a performance expressiva de Paulo Maluf, deputado federal mais votado no ano, com 739.827 votos, aliada ao bom desempenho de Celso Russomano, que obteve 573.524 indicações nas urnas, provocaram a eleição da praticamente desconhecida Aline Correa, que somou 11.132 votos.
O caso mais emblemático foi o de Enéas Carneiro (Prona). Nas eleições de 2002, ele somou 1.573.642 votos, levando para Brasília todos os candidatos a deputado federal pela legenda naquela disputa. Assim, Vanderlei Assis de Souza, que teve míseros 275 votos e não seria eleito vereador num município com 50 mil habitantes, se tornou deputado federal.
Mas apostar em puxadores de voto também é uma “grande jogada” de partidos que possuem candidatos com processos judiciais ou envolvidos em escândalos. Algumas legendas convencem artistas a se candidatar, por exemplo, somente para atrair eleitores. Esses postulantes conquistam sua vaga, elegem outros candidatos da legenda e, muitas vezes, depois renunciam, dando lugar a mais um político “eleitoralmente inviável”.
Outra conta considerada por legendas que usam dos puxadores de voto é torcer pelo voto em branco ou nulo e, assim, diminuir ainda mais o quociente eleitoral, que leva em conta apenas os votos válidos.
Muitas vezes, o eleitor, para fazer um ato de protesto, acaba votando em branco ou nulo, ou ainda em candidatos “folclóricos”. No final, esse protesto acaba alimentando o sistema que os próprios cidadãos criticam.
Voto ideológico
Para um especialista ouvido pelo JC, o eleitor ainda não vê o voto como sustentação de ideologia política. “No Brasil, as pessoas dão pouca atenção ao partido. E, na verdade, a votação facultativa é no candidato, já que existe o voto na legenda”, avalia. Ele explica que no momento do voto para deputados, os dois primeiros números correspondem ao partido.
“Se o eleitor quiser parar por ali e confirmar, não tem problema. A mensagem que ele passa é a que ele quer a ideologia daquele partido. Em seguida, ele coloca os números finais, que são a especificação do candidato. Nesse caso, ele fala que preferencialmente quer aquele político”, observa.
A prática que o brasileiro tem de votar em pessoas e não em partido, na avaliação do especialista, acaba gerando situações como a do mensalão. Ele avalia que muitas vezes o eleitor opta por um candidato a Presidência ou governo de um partido e vota somente em candidatos de legendas de oposição para cargos legislativos. “Então, para colocar em prática o programa de governo que prometeu aos seus eleitores, o presidente ou governador terá que vencer uma oposição que o próprio eleitor criou”, afirma.
Para superar esse entrave, os dirigentes acabam se valendo de práticas ilícitas, como pagamentos em dinheiro, ou de troca de favores, para ver suas propostas aprovadas, destaca. “Essa incoerência do eleitor acaba sendo resolvida na prática por essas atitudes”, observa.