09 de julho de 2026
Bairros

Novos traços para uma Bauru melhor

Wanessa Ferrari
| Tempo de leitura: 4 min

Praças são locais públicos que deveriam ser bem arborizados e proporcionar lazer à população. Porém, ao percorrer os bairros da cidade é possível notar que apenas uma minoria dos 270 espaços que, teoricamente, se enquadram nesta definição é frequentemente utilizada pela população. Isto porque à maioria das praças falta um requisito fundamental: ser funcional.

A constatação também é feita por professores dos cursos de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Universidade Paulista (Unip) de Bauru. Frente ao problema e com um arsenal de mentes ávidas por conhecimento, esses profissionais enxergaram na situação a possibilidade de mudanças e decidiram propor aos alunos que desenvolvessem propostas de reformulação para algumas áreas verdes da cidade.

“Quando as pessoas vão a uma praça, buscam um lugar confortável, seguro, atrativo e que tenha atividades para toda a família. Se um destes itens falta, a população se sente desencorajada a frequentar aquele ambiente. Cabe aos futuros arquitetos utilizarem seus conhecimentos para buscar melhorias para a cidade”, afirma Norma Regina Truppel Constantino, arquiteta e professora da disciplina de projetos paisagísticos em áreas livres urbanas da Unesp.

Para Artemis Fontana, coordenadora do curso de arquitetura da Unip, dar aos alunos a tarefa de repensar a cidade é uma via de mão-dupla, que contribui tanto para a melhor formação de futuros profissionais da área quanto com a qualidade de vida dos habitantes do município.

“Ao mesmo tempo em que os alunos têm a possibilidade de aplicar seus conhecimentos teóricos, desenvolvendo projetos para um cliente real, com problemas reais, a cidade tem a chance de enxergar alternativas para solucionar alguns dos problemas existentes”, constata.

Na Unesp a iniciativa é antiga. A maioria dos anteprojetos desenvolvidos pelos universitários foi doada às empresas interessadas em realizar a obra. Outros foram apresentados à prefeitura. Porém, até o momento, nenhum chegou a ser executado.

“Nós sabemos que a realização das propostas esbarra nas limitações financeiras das secretarias municipais. Porém é inegável que, quando desenvolvemos um trabalho de reformulação de uma praça, sonhamos em vê-lo fora do papel, ornamentando a cidade”, destaca Norma, que afirma que os alunos sempre levam em consideração o custo da obra.

Valcirlei Gonçalves da Silva, secretário municipal do Meio Ambiente, confirma que a dificuldade em angariar verbas é o que impede a reformulação de praças seguindo os projetos doados pela universidade.

“São propostas realmente muito boas, algumas até audaciosas. Porém, fica difícil adequá-las à realidade da prefeitura. Nem sempre o ideal é o que está ao nosso alcance” explica o secretário.

Atualmente, informa Valcirlei, os projetos paisagísticos de praças são feitos por funcionários da própria prefeitura, de forma mais simples.

Para Ricardo Macegoza, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil, a iniciativa das universidades é louvável e deve ter sequência. “Independente se o projeto vai ser utilizado, é função do arquiteto ter a capacidade de repensar espaços públicos de forma crítica. Pode ser que, a princípio, a prefeitura não tenha condições de executá-lo, mas, quem sabe, em um futuro próximo?”, questiona.

Confira neste caderno reproduções de anteprojetos desenvolvidos por alunos da Unesp para o córrego Água do Sobrado, praça da Copaíba e praça das Cerejeiras, e também a proposta dos alunos da Unip para a reformulação da praça Portugal.

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Córrego Água do Sobrado

A área da nascente do córrego Água do Sobrado, na região oeste, é um dos locais que recebeu o olhar de estudantes do curso de arquitetura da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru. O projeto (veja acima), desenvolvido em 2005 pelo então aluno Roberto Gasparini em parceria com a professora Norma Regina Truppel Constantino, prevê que o mato e a sujeira saiam de cena para dar lugar a árvores, sombra e pequenas praças. Já o espaço vago e ermo seria preenchido com muita diversão para os moradores dos bairros adjacentes, com direito a playground e pista de caminhada.

Esta foi um dos projetos mais complexos desenvolvidos sob a supervisão da arquiteta e professora Norma, responsável pela disciplina projetos paisagísticos em áreas livres urbanas. Isto porque se trata de uma região de fundo de vale, sem condições de ser frequentada e com histórico de erosões e assoreamentos em um parque público, referência para os bairros vizinhos.

“Nossa primeira preocupação foi considerar os estudos realizados pela Secretaria Municipal do Planejamento (Seplan) a respeito daquela área. Um dado importante foi o volume máximo de água que, em caso de chuva intensa, o córrego poderia atingir. Todo o parque foi planejado considerando esta cheia, para que nada fosse destruído nessas ocasiões”, explica Norma.

Outra cautela adotada na proposta foi a construção de pequenos morros gramados, que teriam a função de diminuir a velocidade da água da chuva, fazendo com que as águas cheguem com menos impacto ao córrego. Além disso, pontos com matas compostas por árvores nativas seriam preservados e haveria a inclusão de novas vegetações.

E no quesito lazer e conforto, o projeto não deixa a desejar. “Pensamos em uma área para caminhada e pequenas praças espalhadas pelo entorno do parque, com espaços para jogos, playground, bancos e muita sombra, além de quadras para a incentivar a prática de esportes”, completa Norma.

Doado ao município, o projeto tem destino desconhecido entre as secretarias da Prefeitura de Bauru.