09 de julho de 2026
Polícia

Crack também avança sobre as mulheres

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 4 min

Ainda não há estatísticas, mas o crack encontrou mais um “nicho” de mercado, as mulheres. A droga, que chega à corrente sanguínea em no máximo 15 segundos, conquistou o grupo feminino e nela já provoca seus estragos. A afirmação é do delegado responsável pela Divisão de Prevenção e Educação (Dipe) da Polícia Civil, Reinaldo Correia.

“Os jovens do sexo masculino praticam furtos para comprar droga. As mulheres se prostituem. Ao vender o corpo, elas provocam outro problema, porque inicialmente exigem preservativos, mas depois abandonam a ideia. Sem eles, as mulheres se tornam vulneráveis às doenças sexualmente transmissíveis e à gravidez indesejada”, explica.

No Rio Grande do Sul, há cerca de 60 crianças, “filhos do crack”, com problemas neurológicos sérios. “Nem os cientistas conseguem detectar quais os efeitos do crack no cérebro. Sabemos que ele sobrecarrega o aparelho respiratório e cardiovascular e propicia a ocorrência de AVC”, comenta Correia.

A porta de entrada das drogas no mundo feminino mais evidente é o álcool, segundo o professor da Dipe, Alexandre Avilez, que encerrou na última sexta-feira a Semana de Prevenção às Drogas de Agudos (13 quilômetros de Bauru).

“As meninas de 16 a 18 anos estão consumindo álcool. Com a desestruturação moral que o álcool traz, elas começam a vida sexual precocemente. As frustrações provocadas pela combinação sexo e álcool provoca uma corrida a drogas mais pesadas”, afirma.

Outra porta fácil para o crack na vida das mulheres ocorre quando a adolescente se envolve com um jovem usuário. “Quando ela começa a namorar um usuário, sofre pressão. Para não perder o namorado, ela se vê obrigada a usar droga como ele, para manter o namoro”, diz.

Para poder escolher uma vida mais saudável, o jovem precisa ter acesso às informações relacionadas aos efeitos do uso da droga. Mas quem já a experimentou dificilmente vai abandoná-la, opina o delegado da Dipe. “Os usuários, cujo número é crescente, adquiriram uma doença crônica. E o crack é uma droga barata, que provoca euforia, dá a satisfação que ele procura, mas o preço é alto”, avisa Correia.

Na opinião do professor Avilez, quem já experimentou o crack precisa de muita força de vontade para abandonar o vício. “Há formas de abandonar o vício. Acredito que, com acompanhamento profissional e apoio familiar, o usuário consiga, mas é preciso que ele queira”, enfatiza.

Ao fumar crack, o usuário se sente satisfeito e se desinteressa pela vida. Deixa de se cuidar, comenta o delegado. “Em duas ou três semanas emagrece até 10 quilos, usa a mesma roupa, se torna agressivo e passa a subtrair objetos até dentro de casa”, afirma.

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‘É mais importante estar presente do que dar presente’, diz professor

Na opinião do investigador chefe e professor da Divisão de Prevenção e Educação (Dipe) da Polícia Civil, Alexandre Avilez, é mais importante estar presente do que dar presente quando o assunto é prevenção às drogas. Na última sexta-feira, ele participou do encerramento da Semana de Prevenção às Drogas de Agudos.

Especialista no assunto, Avilez não economiza para dizer que a prevenção começa na família, passa pela escola e pela comunidade. Para ele, o estar presente somado a observação do comportamento dos filhos são os antídotos necessários para que o adolescente não se envolva com as drogas.

“É brincar, estar junto em momentos de lazer , momentos de dor, fazer com que essa criança que entra na adolescência aprenda a superar as frustrações. Temos que ensiná-los a encarar o ‘não’, as negativas de modo geral, só assim ele vai se tornar um adulto equilibrado, capaz de enfrentar a violência urbana”, afirma.

Liberdade

A sociedade contemporânea, na opinião dele, tenta evitar a dor do filho. “Os pais querem evitar que o filho sofra e os compensam com liberdade excessiva em uma fase da vida que eles não têm condições de lidar com a ela.”

O adolescente precisa de limites, regras e isso se aprende no seio familiar. “Eles devem aprender que a vida não é colorida e cheia de situações boas. Há momentos que precisamos enfrentar as frustrações e os nãos. O amor e a dor andam juntos. Eles têm de entender que as frustrações e a dor podem ser resolvidas sem fugas. A vida não é só prazerosa. Os adolescentes necessitam vencer obstáculos.”

Embora não haja pesquisas comprovando a relação entre as drogas e o índice de criminalidade no Estado de São Paulo, Avilez acredita que o usuário pode agredir, estuprar e matar porque está sem freio moral. “O crack, por exemplo, produz um efeito tão devastador que o usuário se torna agressivo com e sem a droga. Bater, matar não significa nada para ele.”