Quem a conhece que a explique. Era noite alta numa praia caribenha quando o escritor nigeriano Fabian Badejo despejou, sob luzes intermitentes do cassino próximo - flashes em vermelho, laranja, amarelo e azul -, sua definição sobre o local onde se encontrava: “É o que chamamos de ar da Holanda. São os bares, boates, cassinos, capazes de deixá-lo acordado a noite inteira, numa atmosfera que só poderia ser holandesa”, resumiu, com a experiência de quem vive ali há duas décadas.
Horas antes, à tarde, em outro extremo da mesma ilha do Caribe, ele concedera, para idêntico pedido, explicação diferente: “É o charme, tradição e boa mesa que só se encontram na França. É legítimo solo francês”. França? Holanda? Duas Europas, um só Caribe.
Em dois momentos do mesmo dia, Badejo definiu o que é visitar Sint Maarten/Saint Martin, ilhota nas Antilhas Holandesas, no Mar do Caribe, com território dividido entre as duas nações desde 1648. Em 95 quilômetros de extensão, por onde se distribuem belezas naturais - 37 praias, uma a cada 2,5 quilômetros - e boa estrutura turística, com 360 restaurantes e 14 cassinos, também coexistem diferenças culturais.
Numa ilha tão pequena - em duas horas, é possível percorrê-la toda -, a variedade parece beirar o exagero: entre os 75 mil habitantes, além do universal inglês, outros quatro idiomas são falados: francês, holandês, espanhol e papiamento (língua que mistura português, holandês e espanhol). Há dois salários mínimos, três moedas (euro, dólar e florim), dois feriados de Dia das Mães e dois carnavais.
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Diferenças
Para perceber as diferenças entre Sint Maarten (Holanda) e Saint Martin (França), nada como um bom passeio pela paradisíaca ilha. Subindo e descendo morros e vencendo as sinuosas estradas à beira do oceano azul-turquesa, nota-se gradual mudança no ar.
De repente, as residências ficam mais antigas, charmosas, levam estilo neocolonial. Estamos perto de Marigot, Capital do lado francês, com suas marinas, lojas de grife e chiques galerias de arte. Nos cafés, mesas invadem as calçadas, no melhor estilo das casas parisienses.
No bairro Grand Casa, polo gastronômico da ilha, os cerca de 100 restaurantes funcionam em casas de madeira ao longo de um deque, numa atmosfera que faz recordar tempos passados. Para os nativos, eis a definição do chamado charme francês.
Delimitada por uma única placa, reaparece a fronteira, e a paisagem começa, novamente, a mudar. As construções são condomínios residenciais planejados - pelo menos 20, e dão impressão de que a ilha toda acaba de ser construída.
Estamos em Cupecoy Beach, onde celebridades como Oprah Winfrey construíram mansões e hotéis de luxo. Mais alguns minutos e chegamos a Philipsburg, Capital do lado holandês (41 quilômetros quadrados de área), onde paira clima festivo nos calçadões enfeitados com bandeirinhas e animados por músicos de rua. De repente, Holanda.
“Mas, no fundo, o que interessa é que é sempre Caribe. E sabemos que é isso que os turistas vêm procurar”, explica o escritor Fabian Badejo, que também dá expediente como guia turístico local. “Todo o restante nos diferencia, é um bem-vindo bônus que faz a ilha ser o que é.”
A comprovar que a estratégia vem dando certo, cerca de 1,7 milhão de turistas desembarcam em Sint Maarten/Saint Martin todos os anos. A maioria, 1,2 milhão, chega pelo Aeroporto Princess Juliana, à beira-mar. Tão bem localizado que acabou se tornando atração à parte.