E então a casa viu seus antigos habitantes colocando a bagagem no carro e indo embora para sempre. Para sempre era um termo que a casa ainda não conhecia, pois desde o seu primeiro abrir de janelas para a rua, eram aquelas pessoas que a habitavam. Tinham sido elas que escolheram seus primeiros tijolinhos, as cores das suas primeiras paredes, o piso do seu chão em cada um de seus cômodos e os azuleijinhos azuis e verdes de seus banheiros.
A casa estava mal acostumada com o bem querer daquela família que a tratava com tanto carinho, não deixando que suas telhas se quebrassem nem que seus portões se enferrujassem. A cada pequena rachadura que se abria, logo lhe chamavam o velho pedreiro que consertava seus ferimentos e devolvia-lhe o frescor da novidade. E agora, ao ouvir o claque daquela chave na porta principal, a pobre casa vazia e desolada preocupava-se com o seu destino. Ela que havia visto as meninas crescerem e se tornarem mocinhas, o pai ser promovido três vezes na carreira, a mãe mudar tantas e tantas vezes de penteado, agora não via horizonte nenhum pela fresta de suas venezianas prateadas. Foram tantas brincadeiras no seu quintal, tantos bailinhos na sua garagem, tantos ninhos no seu telhado que ela já nem podia contar. Havia também a cumplicidade das árvores que cresceram corajosas no jardim da frente, cobrindo um pouco da sua fachada e embelezando de sombras e flores a área da frente onde um balanço branco vivia alegrando o seu dia com os risos das crianças.
Com o passar dos anos, o chefe da família havia investido bastante na sua aparência e a casa foi presenteada com um escritório nos fundos, um salão de festas e um quartinho de passar roupas. Uma piscina móvel também foi instalada sob o gramado do quintal e as crianças passaram a gostar ainda mais daquele espaço onde passaram muitos dias de suas vidas brincando e correndo com seus gatos e cachorros.
As cores foram entrando e saindo de moda. A cada temporada, as paredes ganhavam um tom diferente e as mobílias também iam e vinham, sempre demonstrando o prosperar da família e as manias da mãe. O pai, obviamente ganhava mais dinheiro e a casa sempre levava alguma vantagem com a melhoria do salário daquele homem que parecia gostar tanto dela. Talvez a casa fosse como uma filha sua que, desde bebê até ficar mocinha, havia lhe conquistado as atenções a tal ponto que nenhum taquinho de madeira do chão podia ficar fora do lugar sem lhe causar incômodo. No verão, ela refrescava a família e as meninas gostavam de deitar nos seus chãos frios. No inverno, ela aconchegava seus moradores e o pai gostava de fumar se cachimbo na sala de música cujo chão amadeirado lhe dava o conforto de um chalé rústico a beira da montanha. A mãe também se deliciava com seus espaços e ao ganhar uma cozinha nova, com armários embutidos que eram novidade nos anos 80, havia se tornado uma cozinheira ainda mais dedicada tão grande era o seu prazer em abrir e fechar as portas e gavetas de fórmica colorida. Quando arrumavam a mudança derradeira, a casa percebeu lágrimas nos olhos de cada um daqueles moradores. Ao retirar as coisas guardadas nos fundos dos móveis, o pai e a mãe se deparavam com lembranças antigas, fotos, cartas, toalhas do antigo enxoval, bijuterias amassadas e pratinhos de crianças empoeirados. As crianças viam bonecas despenteadas e joguinhos sem todas as peças. Riam-se e depois emudeciam repentinamente pensando onde tinham estado em vez de brincar há tanto tempo.
Parece que se davam conta da passagem dos anos e olhavam perdidas para as paredes e os tetos da casa, buscando um encontro com o passado quando aquele espaço estava apenas no princípio de suas promessas de um lar. E a casa sentia profundamente esses suspiros de despedida e não sabia o que dizer e nem como dizer.
Claro que ela conhecia as palavras, os sentimentos, os momentos importantes, as personalidades diferentes daqueles quatro moradores. Afinal foram vinte anos de abrigo, anos que contaram histórias de amor, sofrimento, esperança, glórias, aniversários, exames e extrema felicidade.
Um lar jamais esquece quando uma família feliz o habitou assim como uma família jamais deixa para trás uma casa que lhe trouxe alegrias. É uma relação que fica para sempre nas memórias e nas paredes. Nas escrituras de compra e venda e nos álbuns de fotografia. É um sentimento aprisionado nos corredores, nas salas, nos quartos, uma espécie de energia maravilhosa que contagia um novo morador que não conhece aquela história, mas intui ao sentir a vibração da harmonia pairando no ar.
E o mesmo acontece com uma família, com um pai, uma mãe ou uma filha que carregam consigo uma foto dessa casa pela vida inteira. Ao tirar a foto da carteira, seus olhos marejam, um sorriso ilumina a face e sua memória vagueia novamente pelos tempos felizes daquela antiga morada. E é na mente que, novamente, as crianças entram correndo em casa, sentindo o cheiro do almoço, jogando a mochila no chão da sala e os tênis suados da escola no tapete do quarto. O cheiro e a temperatura da casa fresca, limpa pelo zelo da empregada, retoma imediatamente os sentidos e é nesse ázimo de segundo que aquele habitante fecha os olhos e sorri como se estivesse novamente em casa.
A autora, Luciana Gonçalves, é colaboradora de Opinião