09 de julho de 2026
Regional

Mercado urbano consome madeira de pequeno produtor

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 5 min

O mercado urbano é o principal consumidor de eucalipto do pequeno produtor. As grandes empresas de celulose têm plantação e produção próprias. Desenvolvem seus clones e seguem um padrão de qualidade. São autossuficientes, raramente recorrem ao mercado.

“Quem compra madeira do pequeno produtor são os estabelecimentos urbanos, padarias, pizzarias, carvoaria. Hoje, se o produtor tiver um hectare para vender vai conseguir sem dificuldades”, diz o professor da Unesp de Botucatu, Saulo Guerra.

O produtor de mudas clonal de Borebi Gilmar Moraes explica que as grandes empresas têm produção própria e só recorrem ao mercado para compra de mudas quando estão expandido. “Compram apenas quando estão expandindo ou quando ocorre algum problema no viveiro deles.”

O perfil da clientela do viveiro é variado. “Em primeiro lugar estão as empresas de madeira e celulose. Quando compram, adquirem em grande quantidade. Em seguida, estão os investidores. Donos de fazendas que querem diversificar as culturas e como não compensa montar um viveiro de mudas, eles adquirem no viveiro.”

O empresário acha que outro nicho de mercado consumidor está surgindo e vai beneficiar os donos das florestas de eucalipto, a geração de energia. “O Brasil deve crescer de 4,5 a 5,0% ao ano e só não cresce mais por falta de infraestrutura, de estradas, portos e geração de energia. A cada dois ou três ano o País vai ter que construir uma hidrelétrica do porte de Belo Monte que vai ser a segunda maior do mundo. As hidrelétricas apresentam problemas ambientais porque inundam grandes áreas.”

A energia eólica, aquela movida pelo vento, não é todo lugar que dá para instalar. A nuclear pode gerar problema ambiental e exige altos investimentos, opina Moraes. “A energia gerada pelo eucalipto e cana é limpa.”

O pesquisador da Unesp concorda com o empresário do setor. “É uma energia renovável, enquanto que o gás, óleo bruto de petróleo são combustíveis fósseis não renováveis. Toda vez que a gente fala de geração de energia por eucalipto ou cana parte do princípio que ela é renovável e teoricamente mais limpa.”

Testando novo produto

Diminuir a perda das mudas provocadas por ataques de bactérias e fungos é um desafio diário para a estudante de Engenharia Florestal da Unesp/Botucatu, Marília Pizzetta. Na fase de estágio, a universitária testa novos produtos para aumentar a produtividade do viveiro.

“É um produto usado na agricultura que eu estou testando para controlar bactérias no viveiro de mudas de eucalipto. No período de inverno e no chuvoso, há proliferação de bactérias. A cepa está ótima e de repente é atacada pela bactéria. Se torna gosmenta e não tem mais salvação. É isso que queremos evitar.”

Como nasce um clone de eucalipto

Um processo longo envolve o nascimento de um eucalipto clonal. Para chegar a muda é preciso conhecimento, caso contrário, a perda ultrapassará os 20% previstos. A grosso modo, o clone é um galho tirado da matriz que depois de criar raiz gera uma nova planta. Com o eucalipto a clonagem demora cerca de três anos, a rigor sete, período em que se completa o ciclo.

O primeiro passo, segundo o sócio do viveiro de Borebi, é escolher as árvores. “A seleção não é um método científico. Escolhemos aquelas com tronco mais definido, as mais bonitas. Num talhão de 20 hectares é possível selecionar de 10 a 12. Nunca selecionamos aqueles que estão nas beiradas porque ela engrossa mais. As plantas que estão no meio do talhão, normalmente são as melhores.”

As escolhidas são derrubadas e cortadas em forma de discos, do pé até a ponta. Discos de partes diferentes são encaminhados para a universidade que analisa a madeira daquela tora. “Esse método define para que serve aquela madeira. Se for para celulose é uma coisa e para energia é outra. Os brotos gerados do toco são coletados e levados para o viveiro onde ficarão de seis meses a um ano. É esse período que precisamos para produzir mudar em número suficiente para mandar para a universidade analisar a resistência dela para pragas e doenças. Em laboratório, serão injetados os patógenos que atrapalha o crescimento do eucalipto, o desenvolvimento da floresta.”

A resposta define a quais doenças aquela muda resiste e quais aquelas que poderão lhe prejudicar e ainda se aquela planta é indicada para celulose ou geração de energia. Após a análise, elas são separadas.

É no mini jardim que são plantadas as mudas que vão ser matrizes. Esses brotos são colocados na estufa para que emitam raízes. A partir do momento que ela cria raiz vai para a casa de sombra que é uma área onde ela vai passar por uma fase de adaptação para que depois ela possa ser levada para pleno sol onde ela fica um período de sete a dez dias. Aqueles brotos que não emitiram raízes são retirados e os demais classificados por tamanho. Somente depois disso é que eles vão para a área de crescimento.”

Após alguns dias os ponteiros são podados para que emitam brotos laterais. “A planta passa a ter forma de uma taça. Nesse ponto, os brotos são colhidos num prazo máximo de 50 minutos e plantados em tubetinhos contendo substratos. São plantados um a um, no centro deles.”

Em seguida, os tubetes são levados para a casa de vegetação onde passam de 18 a 20 dias e são irrigados e nebulizados. “O importante é manter a umidade do ar em torno de 80%, trabalho de um sensor que acusa a falta de umidade e aciona a bomba. A irrigação é feita automaticamente através de um timer programado para ligar a cada hora e meia ou duas horas dependendo da época do ano.”

Cada mini estaca matriz gera em média 14 brotos por mês durante o ano. No verão aumenta a quantidade de brotos e no inverno ocorre o inverso. “Nós trabalhamos com 16 materiais genéticos todos híbridos. A maioria é híbrido de grandes com urofila são chamados de urograndes.”