Há algumas décadas, pais preocupados com a formação dos filhos matriculavam as crianças em escolas de inglês ou francês. Até que os cursos passaram a ser insuficientes, e o esforço se concentrou em enviá-los para intercâmbios nos Estados Unidos ou na Europa. Agora, em nome de uma boa formação futura, famílias contratam professores de idiomas para ensinar, em casa, crianças a partir de 1 ano.
Arthur Feldman, de 5 anos, vive uma experiência trilíngue desde que tinha 1 ano e meio. Hoje, ele cumprimenta o pai com um “hello”. Para a mãe, ele solta um “oi” e para a ‘tia’ Sandra, “nihao”. Apesar de ser filho de brasileiros, o garoto ouve desde bebê o pai falar em inglês e, desde o primeiro ano de vida, tem uma professora de chinês.
“É a língua do futuro, uma forma de prepará-lo melhor para os desafios que vai encontrar quando ficar adulto”, argumenta o pai, o médico Alexandre Feldman. Toda semana, Sandra Chiu, de 58 anos, professora de Taiwan emigrada para o Brasil, brinca com o menino, ensinando mandarim duas vezes por semana por duas a três horas. Segundo a mãe, Patrícia, o aprendizado para ele é um prazer. “Fomos à Disney e vi que ele aproveitou muito as brincadeiras. Também gosta de assistir a DVDs infantis em chinês.”
Na casa de Olivia Yuki Yamamuro, de 4 anos, a visita da professora de inglês Arthemis Whitaker acontece uma vez por semana, durante uma hora - ocupada principalmente por brincadeiras em inglês. Segundo a mãe, Janaína Xavier, a menina às vezes fazia de conta que estava falando inglês. Estava aí o motivo para decidir colocar o idioma no cotidiano da filha.
“Ela tem um coleguinha cuja mãe é australiana e também assiste a desenhos animados, que introduzem palavras estrangeiras para os pequenos”, diz Janaína. Ela defende o ensino precoce: “Talvez se o inglês tivesse sido apresentado de uma forma melhor para mim na infância, eu não teria dificuldade.”
A preocupação dos pais de Arthur e Olivia de que o primeiro contato com uma língua estrangeira ocorra o mais cedo possível e de forma lúdica tem sido compartilhada com vários outros pais, a maioria moradores de capitais como São Paulo e Rio. O maior objetivo dessas famílias é preparar os filhos para enfrentarem um mercado de trabalho extremamente competitivo no futuro.
O movimento cresceu tanto que existem escolas especializadas neste tipo de ensino de idiomas. Um exemplo é a Escola Juan Uribe, em São Paulo, que se dedica a ensinar inglês para crianças de 2 a 12 anos. “Começamos, para ganhar a confiança, com relaxamento, depois vamos para aquecimento e o uso da criatividade com livros gigantes, caleidoscópio, fantoches, brinquedos da própria criança e brincadeiras que ela inventa, respeitando seu tempo”, explica o professor Juan Uribe.
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Aulas em casa é nova tendência do aprendizado precoce de línguas
Outra tendência do aprendizado precoce é que o estudo pode acontecer em casa - fato que os pais veem como vantagem pela economia de tempo e deslocamento. “Na casa, é necessário criar um ambiente pedagógico que não existe, mas lá também há muitas informações sobre a criança e isso ajuda muito o professor a entrar no mundo dela”, afirma Uribe. Metade dos 170 alunos de sua escola tem aula, particular ou em grupo, nas residências.
No caso da professora Arthemis, que nunca tinha dado aulas para crianças tão pequenas, foi necessário fazer uma formação especial - e até mesmo recorrer à sua mãe para pegar dicas sobre como lidar melhor com o mundo dos pequenos, na própria casa deles. “Foi uma experiência nova, uma tentativa misturando os 15 anos de aulas e convivência com minha sobrinha”, conta.
Segundo ela, para que o processo funcione com crianças tão pequenas e no ambiente familiar é essencial que os pais participem e ofereçam materiais para a aula, como brinquedos e livros. “A maior recompensa é ver a criança usando o que você ensinou”, completa. Em suas aulas, ela costuma brincar de bonecas com os alunos, preparam um bolo com bolas de gude, montam jogos.
Em geral, o aprendizado da criança passa por várias fases. Primeiro, há um período silencioso, em que ela ouve, mas ainda não se sente segura para falar. Em seguida, ela mistura as duas línguas, passa a usar uma linguagem “telegráfica” e, aos poucos, consegue montar um discurso com frases. Só então aprende conexões entre frases e musicalidade.
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Contato com nova língua deve ser de forma lúdica e sem cobranças
Especialistas divergem sobre a melhor idade para começar a aprender um novo idioma. Mas concordam que é necessário que os primeiros contatos aconteçam após a criança começar a falar e entender a língua materna - e que eles sejam feitos de forma lúdica, sem muitas cobranças.
Vital Didonet, da Organização Mundial para a Educação Pré-Escolar, indica como melhor época entre os 2 e 3 anos. “Os bebês investem toda a energia cognitiva para captar e entender o que estão lhe dizendo. Assim, se uma pessoa falar em outro idioma, ele não capta e não apreende nem a especificidade do que está sendo pronunciado”, diz.
Adriana Foz, psicopedagoga especialista em neuropsicologia, também diz que a melhor época para aprender é por volta dos 3 anos, porém não faz ressalvas a um estímulo mais precoce - desde que não haja exageros. “A idade ideal para aprender a segunda ou terceira língua é aproximadamente até os 3 anos. Dos 3 aos 8 é o segundo melhor momento, pois a janela de oportunidade ainda está aberta.”
O caminho mais indicado, segundo especialistas, é que o aprendizado de idiomas na infância aconteça durante as brincadeiras. “Essa deveria ser a regra para qualquer aprendizagem na infância. Estudos mostram que a criança que não brinca ou brinca pouco tem um cérebro menos desenvolvido”, diz Didonet.
Além disso, o aprendizado deve estimular formas múltiplas de inteligência e respeitar o desenvolvimento infantil. “Uma forma de saber se o estímulo está sendo positivo é observar o quanto o filho está envolvido e interessado”, afirma Adriana.
Outro ponto importante é o estímulo dentro da própria casa - uma nova língua é mais facilmente aprendida se os pais também a falam. “A língua está em todas as comunicações da mãe, do pai, dos irmãos, dos que rodeiam a criança, nas ordens e orientações, nos pedidos e restrições, nas explicações e respostas às suas demandas”, diz Didonet.
Divergência
A educadora e pedagoga Coli Casanta discorda e afirma que a infância deve ser preservada de estímulos como o aprendizado de novas línguas. “O tempo na infância é precioso e é quando se forma a base da personalidade.” Ela abre uma exceção para famílias bilíngues - mesmo assim, sem sobrecarregar a criança. “Considero o inglês e mais uma língua essenciais atualmente, mas é melhor começar após os 10 anos, ou teremos adolescentes cansados.”