Viúva, com três filhas e cinco netos, Marilena Berriel Joaquim é daquelas pessoas que procuram ressaltar o lado bom da vida. Mesmo nos momentos difíceis, busca algum aprendizado. Ao invés de lamentar, prefere agradecer. É o tipo de pessoa que todo mundo gosta de conversar, de estar perto. A alegria, o bom humor e o alto astral são contagiantes.
Durante a entrevista, ela dá uma lição de como enxergar a vida de um jeito mais carinhoso e mais atento. De um jeito a não deixar que os momentos felizes passem sem ser percebidos.
Acompanhe a seguir um pouco da vida dessa libriana, afeita aos trabalhos assistenciais, que nasceu e cresceu no meio de uma família de músicos e, talvez por isso, adora cantar e tocar violão. A idade ela não revela, mas diz que já está vivendo o último terço da vida e nem por isso se sente triste. “A vida para mim é uma grande festa”, resume.
Jornal da Cidade - Quem é Marilena Berriel Joaquim?
Marilena Berriel Joaquim - Eu sou uma mulher muito feliz, com muita paz. Sou das coisas simples. Não gosto das coisas complicadas. Gosto de comer bem, dormir bem e amar bem. Esses são meus pilares de sustentação. O resto é perfumaria. Minha vida é uma ode à felicidade. Eu sou uma pessoa privilegiada. Ganhei o que eu nunca pensei em ganhar. Eu penso que até muito mais do que eu mereço. Posso dizer que atravesso uma das fases mais lindas da minha vida. As pessoas ficam preocupadas com um monte de coisa e, às vezes, não percebem como são felizes naquele momento. Só quando acontece uma desgraça que se dá conta do quanto era feliz. Eu não condiciono a minha felicidade ao “se”. Ah, “se” eu tivesse isso ou aquilo. Não! Eu sou dona da minha felicidade. E isso faz uma diferença enorme.
JC - Você vem de uma família de músicos. Isso influencia nessa maneira de ser?
Marilena - É verdade, minha família é formada por pessoas que sempre foram ligadas à música. Meu pai cantava, minha mãe tocava violino e violão, minha irmã mais velha tocava acordeon, a Sônia, nossa estrela, toca piano e órgão muito bem, ela tem o coral Arte Viva, onde eu cantei durante 30 anos. A vida inteira eu cantei e toquei violão. E isso me faz bem, me deixa muito feliz. Sempre gostei disso, de ter gente em volta, da alegria que a música proporciona.
JC - E de onde você tira tanta satisfação com a vida?
Marilena - Não sei. Quando fiz o curso de psicologia na Unesp, eu já era uma pessoa madura. Os professores diziam que eu nasci para ser feliz. Eu concordo com eles. Aconteceram fatos difíceis na minha vida, perdi meu marido há 15 anos, uma pessoa linda que a vida me deu, mas eu sei encerrar bem as fases. Agora está tudo bem. Todos da minha família estão com saúde, os meus amigos também, eu tenho muita saúde e muita disposição para passear. Eu conheço o mundo. Estou sempre em festa, em instituições de caridade. Sei lá, acho que nasci assim. Eu gosto muito de abraçar e beijar as pessoas, gosto do contato. Acho isso importante porque as pessoas estão muito distantes hoje.
JC - E antes, não eram tão distantes como hoje?
Marilena - Antes, eu tinha pouco tempo. Criei três filhas, meu marido teve uma doença muito longa, fui julgadora tributária da Secretaria da Fazenda durante 30 anos. Então, era muito trabalho. Agora, não. Agora, é uma fase linda porque eu tenho a coisa mais preciosa do mundo, que é o tempo. E eu posso usá-lo do jeito que eu quero. E uso.
JC - Usa de que forma?
Marilena - Uso para não fazer nada e uso para fazer muita coisa. Tem pessoas que se angustiam por ter muito tempo livre. Isso é uma delícia. Em uma tarde, quando você não quer fazer nada, sentar diante da TV e assistir um filme que eu queria ver e está passando. Isso é a coisa mais deliciosa do mundo. E posso dar tempo para meus amigos também. Quando eles precisam estou presente. Mesmo quando não precisam estou presente (risos).
JC - O que é preciso para ser feliz?
Marilena - Eu penso que para sermos felizes, temos que nos ocupar com pouco. O Sêneca (filósofo romano) já dizia isso antes de Cristo. Quando somos ocupados demais não temos tempo para sermos felizes. Não temos tempo para ler aquele livro maravilhoso. Vou citar um exemplo. Há uns cinco anos, eu quebrei o braço. Eu moro sozinha, sou viúva e minhas filhas estão casadas. Fiquei dez meses imobilizada. Foi um período tão lindo da minha vida, porque eu assisti todos os filmes que eu ainda não tinha assistido, li todos os livros que tinha vontade, ouvi todos os CDs.
JC - Fez de um momento que poderia ser de lamentação algo prazeroso. Foi isso?
Marilena - Muito prazeroso. Não tenho o que lamentar. Hoje, eu penso que foi um período em que eu pude avaliar como nós somos frágeis. Eu estava ótima, e, de repente, eu estava imobilizada e do braço direito ainda, que é o que eu mais uso. Eu tenho uma lembrança linda das minhas vizinhas virem me ajudar a fazer tarefas básicas, como pôr uma camisola. Naquele momento, eu vi como nós somos dependentes um do outro. Foi uma lição de vida muito grande.
JC - O que mais gosta de fazer?
Marilena - Gosto de cantar, de tocar violão, participei por muito tempo do teatro. Na verdade, minha vida foi sempre uma festa, com alguns intervalos difíceis, mas que me serviram de lição, como a oportunidade que eu tive de cuidar de uma pessoa tão linda como o meu marido, e depois cuidei da minha mãe também. Mas meu marido foi uma pessoa que perfumou minha vida. Eu vivi com ele 32 anos. Acho que ele morreu cedo, mas se tivesse morrido com 200 anos eu iria achar que morreu cedo também, porque quando a gente gosta da pessoa nunca quer deixá-la.
JC - Por que você diz que ele perfumou sua vida?
Marilena - Porque ele era igual a mim. Tudo para ele tinha solução. Ele dizia vamos resolver isso da melhor maneira possível e encerrar isso. Ele era uma pessoa 20 anos mais velha do que eu, mas não tinha a característica do velho que custa a tomar uma decisão e quando toma logo se arrepende e acha que não era a decisão certa. Ele, não. Eu já era uma pessoa alegre, mas ele me ensinou a ser muito mais. Ele me ensinou a viver, a ver o lado bom da vida. Tenho cinco netos e vejo a vida recomeçar a cada momento. E a vida é isso, uns vão e outros vêm. Pessoas lindas foram, mas outras maravilhosas chegaram também na minha vida.
JC - Algum dia, pensou em se casar novamente?
Marilena - Fiz uma opção por não casar de novo porque eu acho que o casamento tem uma finalidade. É para você formar uma família, ter filhos, construir um patrimônio. E tudo isso eu já fiz. Já passei por isso. Então, agora, as pessoas que aparecem embelezam minha vida, me dão alegria até por saber que estou tão viva ainda, mas não para seguir comigo. Isso eu não quero mais.
JC - Como foi para você ser a única mulher a ocupar um cargo de diretoria na Luso?
Marilena - Foi uma honra muito grande. Era uma coisa que eu não esperava. Porque clube é como o Clube do Bolinha, só tem homens. Fui a primeira mulher a ser conselheira da Luso. Eu era a única mulher no meio de 36 homens. E depois fui a primeira mulher a fazer parte da diretoria. Primeira e única, até agora. Fui convidada pelo conselho a ser presidente do clube, mas como gosto muito de viajar, ficaria difícil assumir um compromisso desses.
JC - Você acompanhou a Copa Davis?
Marilena - Nossa, eu não saí de lá, mesmo com chuva. Fomos todos os dias. Foi um privilégio muito grande para a cidade. Quando eu poderia imaginar que assistiria uma Copa Davis em Bauru? Com todo conforto por estar perto de casa. Foi uma coisa maravilhosa.
JC - É verdade que você adora uma folia?
Marilena - Sempre gostei muito de Carnaval. Tanto que eu era a última diretora da Luso a ir embora dos bailes. Para mim não era nenhum sacrifício, porque eu gostava e ainda gosto de dançar. Teve uma vez que eu fui desfilar na Sapucaí (sambódromo do Rio de Janeiro). Eu sempre gostei muito da Xuxa, acho uma mulher brilhante, ela transmite uma alegria muito grande. Eu fiquei sabendo que a escola Caprichosos de Pilares iria fazer uma homenagem ao Xou da Xuxa, entrei na Internet, escolhi uma fantasia linda e fui com um grupo para o Rio de Janeiro. Foi uma emoção tão grande ver aquele “mar de gente” assistindo... Eu me senti a Luma de Oliveira (risos).
JC - Fale um pouco da vida profissional. Você ingressou na Secretaria da Fazenda do Estado por concurso público?
Marilena - Sim, entrei por concurso público. Eu fui julgadora tributária durante 30 anos e os últimos 12 anos ocupei cargo de chefia. Foi um período muito gostoso. Eu adorava o meu trabalho. Era um tribunal de primeira instância. Eu julgava os repasses ICMS de industriais, comerciantes, fazendeiros, pecuaristas, etc.
JC - Foi nessa época que conheceu aquele que viria a ser seu marido?
Marilena - Foi lá que eu recebi esse prêmio. É assim que eu vejo. Quando a gente chega numa fase da vida, vemos que tudo aconteceu por suas decisões. Quando tomamos uma decisão certa na vida, tudo vai conduzindo para o lado bom. E a decisão mais certa que eu tomei foi quando eu casei com ele. Por isso, eu digo que foi um prêmio. Nem meus pais me olharam com os olhos que ele me olhou e nunca mais ninguém olhou igual. Para ele, eu era a mais bonita, mais inteligente, mais engraçada. Tudo eu era melhor. Ele era a alegria em pessoa. Aquele olhar de amor eu nunca mais encontrei em ninguém.
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Perfil
• Nome: Marilena Berriel Joaquim
• Idade: Não revela
• Local de nascimento: São Paulo
• Marido: Vivaldo Joaquim
• Filhas: Cristiane (40 anos), Simone (45 anos) e Denise (46 anos)
• Signo: Libra
• Hobby: Cantar e tocar violão
• Livro: “O Tempo e o Vento”, de Érico Veríssimo
• Filme: A Ilha das Flores
• Estilo musical: Bossa Nova
• Para quem dá nota 10: Sebastião Paiva, 100 anos de luz
• Para quem dá nota 0: Para quem não tem amor para com o próximo