Tecnologia que aproxima
Que tal fazer parte de uma famosa banda de rock ou então soltar o esqueleto e dançar embalado por um som animador e repleto de coreografias pré-estabelecidas? Certamente, frente a uma proposta como esta, os tímidos de plantão imediatamente responderão com uma negativa do tipo: “Nunca! Isso não combina comigo.”
Porém, se tudo isso for feito no mundo virtual, tal opinião pode mudar com facilidade. O caso de João Marcelo Alves de Araújo, 21 anos, é um exemplo. Introspectivo desde a infância, ele poderia jurar que jamais seria flagrado dançando na sala de sua casa, muito menos com uma plateia de amigos para prestigiar. Isto até conhecer um jogo chamado Just Dance, próprio para o console Nintendo Wii.
“Muitos críticos falam que o videogame afasta as pessoas do mundo real, que leva ao isolamento. Mas, no meu caso, aconteceu exatamente o contrário. Com a evolução tecnológica, jogos mais interativos apareceram e, surpreendentemente, o mundo virtual venceu minha timidez. Dá pra acreditar que hoje eu danço na sala de casa, com mais de dez pessoas me olhando, sem o menor problema?”, conta, demonstrando espanto com a própria atitude.
João Marcelo faz parte de um grupo grande. “Meus irmãos e eu somos em quatro. Se contar os amigos então... dá mais de dez pessoas”, soma. A turma se reúne ao menos uma vez por semana. A brincadeira sempre começa cedo e não tem hora para terminar.
“A última vez, começamos umas 19h e terminamos somente às 5h da madrugada. Como a família é grande, cada vez aparece um amigo diferente e o grupo vai aumentando”, conta.
Além disso, a família Araújo não mede esforços para investir em acessórios e novidades. João Marcelo calcula que já tem mais de 80 jogos, além de uma bateria, uma guitarra e um microfone, equipamentos próprios para brincadeira semanal.
“A gente troca qualquer programa por ficar aqui em casa jogando. É muito engraçado e, além de tudo, é uma beleza pra quem quer emagrecer”, afirma, entre risos.
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Caso de amor
Do Telejogo ao Nintendo Wii. Dos cartuchos movidos à base de fortes sopros à era do memory card e controles interativos. Desde que o Atari chegou ao País, em 1983, os brasileiros nunca mais viram os videogames com os mesmos olhos.
Alvo de constantes melhorias tecnológicas, desde sua criação, o brinquedo eletrônico desperta entre uma legião de adeptos sentimentos que formam um misto de ansiedade, clamor por novidades e nostalgia.
Fabiana Helena Facai, 30 anos, dona de uma loja especializada em videogames, é uma das pessoas que acompanha a evolução dos consoles sem deixar de primar pelo passado do brinquedo.
Seu primeiro contato com um videogame aconteceu quando ela ainda era criança. Na época, o exemplar do Atari 2600 era a preciosidade da família, e ela precisava disputar o arcaico controle com o irmão. Quase sempre perdia.
“Sempre gostei de videogames, mas meu irmão quase nunca me deixava jogar. Precisava brincar escondida. Muito tempo depois, me casei e abri uma loja especializada em locação de aparelhos e jogos por hora. Há seis anos entrei para valer no segmento de videogames. Foi uma espécie de descarrego, de vingança do meu período de infância. Agora tenho uma loja só pra mim”, brinca.
Junto à abertura da empresa, Fabiana sentiu a necessidade de resgatar um pouco da história dos aparelhos que marcaram sua vida: iniciou uma coleção de consoles. Atualmente, os mais de 20 exemplares do acervo ficam expostos em sua loja, localizada na avenida Getúlio Vargas.
“O mais velho é o Telejogo, trazido ao Brasil pela Philco. Além dele tenho o Atari, MasterSystem, SegaSaturn, SuperNintendo, entre outros. Pretendo aumentar minha coleção”, planeja ela. “Não é difícil. Como eu trabalho no ramo, fica mais fácil ter contato com as pessoas certas, que podem me ajudar”, pondera.
Apesar de chamar a atenção, Fabiana garante que o valor da coleção é mais sentimental do que propriamente comercial. “Meus videogames são de estimação, morro de ciúme deles!”, completa.
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Rede de amigos
Não é preciso muita coisa para fazer a alegria de Vinícius Ferrari e seus amigos Leonardo Nascimento, Heitor Padovan e Pedro Luis Pandolfi. Para garantir a diversão do quarteto, bastam alguns computadores, um roteador e uma bela porção de algum petisco para beliscar.
Adeptos dos jogos em rede, o grupo se reúne sempre que pode para disputar verdadeiras batalhas virtuais. O hábito, segundo eles, é uma adaptação e começou há alguns anos, quando as lan-houses viraram febre em todo o País.
Quem vê os meninos chegando, cada um com seu notebook, não imagina que, em poucos minutos, a sala onde eles se acomodam se transformará em um campo de batalhas.
Na sexta-feira, dia 3, a equipe do JC foi conferir e registrar como funciona um destes encontros. Tão logo foi dada a largada para a rodada de games, o grupo já se esqueceu da presença da reportagem. Cada pedido de pausa para posar para a fotografia vinha acompanhado de um muxoxo: “Calma aí... Tá acabando!” ou um desesperado: “Não atira, não está valendo!”.
“Nós nos distraímos tanto que nem percebemos o tempo passar. É muito divertido! Penso que é um ótimo programa para curtir com os amigos, principalmente quando o dia requer algo mais caseiro”, explica Vinícius.
O toque especial na brincadeira fica por conta do clima intimista. Segundo eles, se a reunião fosse em uma lan-house, talvez não seria tão divertido. “Melhor em casa mesmo, é simples e rápido de organizar a rede. Além disso, dá pra comer e pode brincar quantas pessoas a mesa comportar, tudo grátis”, afirma Vinícius, em tom de brincadeira.
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Dono do paraíso
Para os aficionados por games, Minoru Takatama ganhou fama na cidade por ser dono de uma loja que é referência no segmento. Já ele se autoclassifica como um simples comerciante. Mas, para as crianças, ele é o dono do paraíso.
Proprietário de uma loja de videogames há 18 anos, Minoru apostou suas fichas no segmento para satisfazer uma vontade do filho que, na época, ainda era criança. “Ele queria jogos e aparelhos que não encontrávamos aqui em Bauru. Decidimos ir buscar fora da cidade. Com o tempo, a empresa onde eu trabalhava fechou e acabei ficando com a loja de games como minha principal fonte de renda”, conta Minoru.
Em todos estes anos no ramo, Minoru acompanhou de perto as mudanças sofridas pelo mercado. Segundo ele, no início, o maior movimento era de pessoas que buscavam aparelhos e cartuchos. A opção de trocar os jogos usados por novos também era um grande atrativo. Mas foi preciso ousar para não ficar ultrapassado.
“Cada novidade que aparece é um risco que temos de enfrentar. Lembro que, em 1997, a Atari lançou um videogame chamado Jaguar. Investimos alto neste aparelho e quase todo o estoque ficou encalhado. Para nossa surpresa, o console era muito ruim. E, para atrapalhar, quem comprou devolveu mais tarde”, conta.
Atualmente, 50% do lucro da loja é fruto da assistência técnica de aparelhos da Sony, já que o acesso aos jogos ficou muito pulverizado com a chegada da era digital. “É preciso encontrar formas de se manter atuante”, frisa.
E se engana quem pensa que, depois da chegada de aparelhos como o Xbox 360, o Playstation 3 e o Nintendo Wii, o mercado de games não tem mais onde inovar. Minoru antecipa que no final do ano grandes novidades serão apresentadas aos gamelovers.
“A Microsoft vai lançar um aparelho que escaneia o jogador e transpõe suas características físicas para a telinha. Ele custará, no Brasil, cerca de R$ 800,00. Além disso, uma série de jogos 3D, acompanhados de óculos, vai invadir o mercado”, revela.
Em quase duas décadas atuando no mercado, apenas uma coisa não mudou. “Pelo menos uma vez por semana alguma criança me pede para morar aqui na loja. Eles até chegam a prometer que não vão fazer bagunça”, conta, achando graça.
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Vide bula
Desde seu surgimento, o videogame sempre foi objeto de discussões temperadas por amor e ódio. A evolução dos aparelhos só fez acentuar tais diferenças de opinião.
Os amantes do brinquedo alegam que os games são fonte interminável de benesses: desenvolvem a coordenação motora, o raciocínio lógico, a atenção, canalizam o estresse, além de ser um ótimo passatempo.
Já para os críticos, videogame é sinônimo de isolamento da comunidade, estímulo à obesidade, prejuízo em habilidades sociais, diminuição de leitura, entre outras coisas.
Porém, atualmente, muitos especialistas têm optado pelo meio-termo na hora de emitirem opinião sobre o assunto, como é o caso do neuropediatra Plínio Ferraz. Para ele, o videogame pode e deve ser utilizado desde a mais tenra idade, porém deveria vir acompanhado de bula e dosagem na embalagem.
“Encontrar um equilíbrio para o uso do aparelho é a melhor solução. Digo isto porque o brinquedo pode ter tanto efeitos positivos quanto negativos, dependendo da forma como é utilizado. No caso das crianças, a cautela deve ser ainda maior”, ressalva.
De acordo com Plínio, jogos que promovem a violência, o racismo, a matança indiscriminada de pessoas ou animais, o uso de álcool e drogas, além do desrespeito às leis, devem ser condenados.
“Se alguns adultos sofrem influência deste tipo de game, imagine as crianças. Especialmente porque elas estão em fase de formação de personalidade e quando expostas a este tipo de jogo tendem a apresentar propensão ou ficar indiferentes à violência”, alerta.
Segundo Plínio, escolher o videogame de acordo com a faixa etária, analisar o conteúdo dos jogos, brincar com os filhos e alertá-los sobre o risco potencial de jogos online são algumas dicas para que prevaleça o aspecto positivo do aparelho.
“Além disso, é preciso estabelecer regras claras. Uma hora por dia, após a conclusão das tarefas diárias, é o ideal”, recomenda.