09 de julho de 2026
Internacional

Cuba demitirá 500 mil trabalhadores

Folhapress
| Tempo de leitura: 3 min

Caracas - O governo cubano anunciou ontem que vai demitir até março de 2011 ao menos 500 mil trabalhadores estatais, ou 12,5% da força de trabalho do país comunista.

Mais meio milhão estaria “excedente” no país, ou seja, provavelmente será demitido numa segunda etapa.

O corte é uma das mais importantes e delicadas medidas econômicas do país em ao menos 20 anos.

A demissão em massa foi comunicada pela Central de Trabalhadores de Cuba (CTG), ligada ao governo, em informe no jornal estatal “Granma”. Os cortes começam no mês que vem.

Segundo a CTG, os demitidos serão inseridos no setor “não estatal” da economia - e apenas as vagas “imprescindíveis” serão repostas no Estado, em áreas como agricultura e educação.

Para ampliar as vagas no setor privado, o governo incentivará o “arrendamento, o usufruto (de terras), cooperativas e trabalho por conta própria, para onde se moverão milhares de trabalhadores nos próximos anos”.

O ditador Raúl Castro havia anunciado em agosto passado que o Estado facilitaria licenças para pequenos negócios ontem restritas - de barbearias a pequenas oficinas mecânicas.

Disse ainda que esses negócios, que passarão a pagar impostos, poderiam, pela primeira vez, contratar funcionários.

Segundo documento do Partido Comunista cubano citado pelo jornal “Financial Times”, Havana pretende conceder mais de 400 mil novas licenças.

A central anunciou que a medida faz parte do plano de “atualização do modelo econômico” cubano - os dirigentes comunistas rejeitam falar em “transição” - apenas dias depois de o ex-ditador Fidel Castro haver dito, em entrevista à revista “The Atlantic”, que o antigo modelo cubano “não funciona nem sequer” para Cuba.

Risco político

A demissão em massa é considerada uma medida necessária há anos para aumentar os baixos índices de produtividade da ilha.

Mas é arriscada politicamente, uma vez que as vagas desaparecerão quando as liberalizações no pequeno sistema privado apenas engatinham no emaranhado burocrático estatal.

Segundo o governo, Cuba tem pouco mais de 5 milhões de ocupados, 4,2 milhões no Estado. O setor privado, com 500 mil trabalhadores, é representado por pequenos produtores rurais.

A reestruturação trabalhista cubana é a mais significativa reforma de Raúl, que prometeu fazer modificações “estruturais e de conceito” quando assumiu o poder em fevereiro de 2008.

Naquele ano, o governo fez outro movimento maior na economia, com a distribuição de meio milhão de hectares de terra ociosa estatal a pequenos produtores.

A reforma não conseguiu aumentar a produção de alimentos até agora, por falta de insumos e amarras na venda de produção -Cuba importa 80% dos alimentos que consome. “É uma medida necessária, mas é muito preocupante. Em abril, serão 500 mil pessoas sem trabalho sem que o governo tenha feito as reformas necessárias para absorvê-los.

O que foi feito até agora é muito tímido. O modelo não precisa de atualização, precisa de mudança radical”, diz o economista Oscar Chepe.

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Jornalista surpreso com recuo de Fidel

Havana - Um jornalista norte-americano a quem Fidel Castro declarou que o sistema cubano já não serve mais afirmou ontem estar “surpreso” com a retificação apresentada pelo ex-presidente depois da publicação da entrevista.

Fidel disse na sexta-feira que sua declaração a Jeffrey Goldberg, da revista The Atlantic Monthly, significava na verdade que é o capitalismo que não serve.

“Não sei como se pode interpretar a frase ‘O modelo cubano já não funciona nem sequer para nós’ como o contrário”, disse Goldberg em teleconferência com jornalistas, organizada pelo Conselho de Relações Exteriores, uma entidade de Washington que também participou da entrevista, por intermédio da sua pesquisadora Julia Sweig.

“Surpreendeu-me o discurso em que (Fidel) disse ter sido mal interpretado, não só porque disse coisas parecidas antes, mas porque a realidade subjacente em Cuba mostra que o modelo cubano não funciona, e é por isso que estão começando uma experiência de privatização em grande escala”, acrescentou.

Muitos analistas viram na entrevista de Fidel um sinal de reformas no regime comunista, agora dirigido por seu irmão Raúl.