É um fato lamentável imaginar que um pastor radical se apresentou para queimar o Alcorão. É a volta da inquisição, da Era das Trevas, a volta da radicalização insana e que vai gerar mais violência. Parece que este pastor não leu nas Escrituras Sagradas a seguinte observação da sabedoria: “A resposta calma desvia a fúria, mas a palavra ríspida desperta a ira” (Provérbios 15:1). Ao queimar um símbolo sagrado (pelo menos aos mulçumanos) o referido pastor incita à ira religiosa, macula a mensagem de Cristo e gera um sentimento de rancor desnecessário aqueles que crêem na Bíblia.
Nossa luta não é contra as pessoas, mas contra as influências do mal. Paulo deixa isso claro quando afirma: “pois a nossa luta não é contra seres humanos, mas contra os poderes e autoridades, contra os dominadores deste mundo de trevas, contra as forças espirituais do mal nas regiões celestiais” (Efésios 6:12). Ou seja, nossa luta é contra a influência satânica que move as pessoas à desobediência e à rebeldia contra os princípios da Palavra de Deus. Nós somos contra a homossexualidade, mas não contra os homossexuais; somos contra o aborto, mas não podemos explodir quem deseja tornar isso algo normal; não aceitamos o islamismo, mas isso não significa dizer que somos inimigos.
Infelizmente vivemos numa era de extremos, e isso não se aplica apenas a questão religiosa. Não é apenas o pastor Terry Jones o único radical; há outros radicais que agem de forma mais sutil. Há os radicais que pregam a tolerância, mas quando nos posicionamos contra nos acusam de fundamentalistas; pregam a diversidade, mas não aceitam ninguém que seja diferente deles; pregam a liberdade de expressão, mas nos negam a liberdade de ser o que somos e o que pregamos. Quem é radical? Nós? Claro que não! Não somos adeptos de Terry Jones ou de qualquer outro que prega a violência, mas exigimos que nos respeitem.
Fundamentalismo é o nome dado a movimentos, cujos adeptos mantêm estrita aderência aos princípios fundamentais. O dicionário define como “Crença na interpretação literal da Bíblia; Crença na forma estritamente ortodoxa de uma religião, não admitindo idéias reformistas etc.; Adesão a quaisquer doutrinas estritamente ortodoxas” (Michaelis). O pastor Terry Jones não é fundamentalista, mas um extremista. Um extremista não necessariamente é fundamentalista, pois um fundamentalista se apóia em princípios fundamentais, princípios estes que não mudam de acordo com a época pois são absolutos, fundamentais, essenciais. O extremista se apóia em coisas que passam, que hoje são verdade e amanhã não são mais. Quantos não defendiam coisas que hoje não defendem. Portanto, acusar os cristãos de radicalismo é errado. O pastor Terry Jones não representa a fé cristã, apenas uma posição pessoal e radical. E assim como ele, os movimentos LGBT e seus líderes são extremistas; Osama Bin Laden é um extremista e não a maioria dos mulçumanos; Avigdor Lieberman é um extremista, mas nem todos os judeus o são; Mahmoud Ahmadinejad é um extremista, mas não significa que o povo iraniano o seja. Os cristãos que defendem princípios bíblicos são fundamentalistas mas não são radicais insanos.
Somos fundamentalistas, mas não apoiamos uma volta da inquisição. Os direitos fundamentais devem ser libertados como liberdade de expressão, de culto, a liberdade de opinião, pensamento e de manifestação seja em público ou em particular, liberdade até de transmitir informações e idéias por quaiquer meios (Artigos XVIII e XIX dos Direitos Humanos). Em termos gerais todos são fundamentalistas; a diferença é onde as pessoas se apóiam, num fundamento certo ou errado. Somos fundamentalistas; cremos inteiramente na Bíblia como Palavra inspirada por Deus, o melhor para o ser humano; cremos no casamento entre um homem e uma mulher, cremos na família sadia, cremos na vida e que o aborto é crime; cremos que a salvação do homem está única e exclusivamente alicerçada em Cristo; cremos que todos são livres para aceitar ou não estas coisas. Entretanto, não aceitamos o radicalismo e o intervencionismo que muitos querem nos impor. Cristo é o nosso fundamento, pois Ele disse: “Portanto, quem ouve estas minhas palavras e as pratica é como um homem prudente que construiu a sua casa sobre a rocha” (Mateus 7:24).
O autor, Gilson Souto Maior Jr., é pastor sênior da Igreja Batista do Estoril, professor de Teologia da FATEO - Faculdade Teológica Batista de Bauru - e aluno de Pedagogia da Unesp