São Paulo - Acusado de usar 15 postos de combustível, a ONG Vida Feliz e uma factoring para lavar dinheiro do crime organizado e financiar sua campanha, o candidato a deputado federal pelo Partido Social Cristão (PSC) Ney Santos é investigado pela Delegacia Seccional de Taboão da Serra (Grande SP) desde junho.
Policiais cumpriram ontem 13 mandados de busca e apreensão em locais vinculados a Santos e seus “laranjas” - dois parentes, Michele de Souza Lima e Ricardo Luciano Andrade dos Santos, ex-frentistas de seus postos. A polícia suspeita que ele tenha ligação com a facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC).
Foram apreendidas centenas de caixas com documentos das empresas de Santos e até uma Ferrari, avaliada em R$ 1,4 milhão, uma coleção de relógios importados e máquina de contar dinheiro. A Justiça também decretou o sequestro de todos os bens do candidato pelo PSC.
Para tentar obter votos dos parentes de presidiários ligados ao PCC, Santos também os ajudaria com cestas básicas e transporte para visitas às prisões nos finais de semana, segundo a investigação.
Santos já cumpriu pena por roubo e saiu da prisão em 2006. Em 2003, o agora político Ney Santos foi preso em flagrante quando roubou malotes de uma transportadora de valores de Marília (108 km de Bauru). No crime, ele portava uma metralhadora 9 mm, segundo a polícia.
Vida dupla
Camisa social, sorriso e o carimbo “ficha limpa” abrem a página de Ney Santos na Internet. Nas ruas, um Porsche e uma camionete Mitsubishi L200 são usados para divulgar o nome do candidato.
No site, em que o político promete melhorar a saúde pública, nem sinal do ex-detento Claudinei Alves dos Santos, 30 anos, o Nei Gordo.
No submundo do crime, Santos era Nei Gordo. Após sair da prisão, uma cirurgia de redução do estômago tornou o apelido sem sentido. Em setembro de 2003, Santos foi preso em flagrante acusado de roubar malotes de uma empresa de valores.
Em primeira instância, Santos foi condenado, ficou dois anos preso, mas acabou absolvido pelo TJ de SP. Desde então, montou a rede de postos de combustível, comprou mansão de R$ 2 milhões em condomínio fechado e se lançou na política.
Santos juntou em menos de quatro anos um patrimônio de mais de R$ 100 milhões, segundo estima a polícia paulista - e pretende investir 10% do total na corrida por uma vaga na Câmara.
Algumas das suspeitas são que Santos use os postos para vender combustível adulterado com a adição de água para “multiplicar” o produto.
A “laranja” Michele e seu marido, Marcos Pereira Dias, confirmaram ontem à polícia que Santos vendia combustível adulterado. Um dos homens que fazem a escolta de Santos é um policial civil que pediu férias do Estado para segui-lo.
A polícia também sabe que recentemente uma rede de supermercados ofereceu R$ 35 milhões para comprar seus postos, mas Santos recusou a oferta - seus postos vendem 5,5 milhões de litros de combustíveis a cada mês.
Santos vendeu um de seus postos de combustível para Paulo Pinheiro da Silva, o Baia, que foi já preso acusado de roubar relógios de luxo em áreas nobres de São Paulo e também investigado por ajudar o candidato a lavar dinheiro.
Silva repassou o posto para seu cunhado José Valdevan de Jesus Santos, hoje vereador em Taboão da Serra (Grande SP), conhecido como Valdevan Noventa, e outro político já investigado pela polícia por elo com o PCC.
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Acusado diz que não deve “nada a ninguém”
São Paulo - “É o povo quem vai julgá-lo. Isso tudo não passa de perseguição política. É uma balela afirmar que ele é ligado a alguma facção criminosa. A investigação provará que ele é ficha limpa.” Assim o advogado Francisco Assis Henrique Neto Rocha, defensor de Claudinei Alves dos Santos, definiu a investigação contra o candidato a deputado federal.
De acordo com Neto, Santos não usa suas empresas para lavar dinheiro do crime organizado e “não pode carregar para sempre o peso da acusação de roubo que o levou à prisão em 2003”.
Sobre empresas registradas em nome de “laranjas”, Neto disse que Santos tem o direito, “até por não conseguir administrar tudo o que tem”, de colocar parte do seu patrimônio em nome de pessoas em quem confia.
A reportagem solicitou entrevista com Santos, mas segundo seu defensor, ele não podia falar porque prestava esclarecimentos à polícia.