09 de julho de 2026
Pesca & Lazer

História de Pescador: Sashimi diferente


| Tempo de leitura: 4 min

Aos leitores, quero dizer que não está sendo a primeira vez e com certeza não será a última que escrevo para esta coluna, pois amo a natureza e histórias comigo junto a ela existem aos montes. Porém, desta vez, resolvi não somente falar de peixes grandões ou pequeninos. Não somente de aventuras pelos rios e mares afora, ou pelas cachaças que tantos pescadores admiram, sempre com uma pitada de exagero. Quero contar uma história do que é você realmente interagir com a natureza.

Sashimi, acredito que todos sabem o que é. Vamos lá, pela Wikipédia “iguaria da culinária japonesa que consiste de peixes e frutos do mar muito frescos, fatiados em pequenos pedaços e servidos apenas com algum tipo de molho no qual ele pode ser mergulhado (geralmente shoyu, pasta de wasabi, condimentos como gengibre fresco ralado ou ponzu)”.

Pronto, aí está a definição mais rudimentar que já vi sobre este prato delicioso. Se procurarmos então pela Internet, teremos muitas outras definições. Quero dizer que sashimi mesmo é aquele servido no remo. Isto mesmo, no remo de uma embarcação, somente com limão e sal, dentro do barco no meio do rio. E o outro, aquele especial, servido pelo Tonico.

Em 1992, estavam comigo minha então namorada e meu pai, no rio Paraná, no rancho do tio Rubens, na cidade de Paulicéia, divisa com Mato Grosso do Sul. Lugar inesquecível. Lá fomos pescar.

Para meu pai nada era novidade, há anos frequentava o lugar. Para mim também nada de novidade, há bem menos eu também frequentava o lugar. Agora, para ela, a Andréa, tudo era novidade: o rancho de madeira, o tamanho imenso do rio Paraná e sua corredeira, as ilhas desertas, a ilha das cabras, a ilha do tio Ney e os gigantescos peixes de couro pescados pelo seu Artur, as fábricas de rapadura, a natureza, etc, etc, etc. Mas algo a deixou ainda mais surpresa. Ela descobriria que naquele local o sashimi era algo diferente de tudo o que ela havia um dia escutado.

Logo no primeiro dia subimos o rio para pescar embarcados próximo de onde hoje está a ponte que liga São Paulo ao Mato Grosso do Sul. Começamos a pesca, onde tirávamos várias piavas, eram muitas; nas varinhas de bambu, eram supimpas na briga. Nós três nos divertimos muito.

No final da tarde, quando sentíamos já a barriga arder pela fome, meu pai retirou de seu bornal um limão e um saleiro. Pegou uma faca, a lavou no rio e fez o mesmo com o remo de madeira. Então pegou um dos maiores peixes que ali estavam, um piau, também o lavou e começou a tirar o filé, usando para tanto o remo de madeira como tábua de carne.

Dali ele fatiou os filés em pedaços bem pequenos que renderam uma grande porção. Colocou o sal e espremeu o limão. Pronto, estava ali servido o primeiro sashimi da Andréa. No começo foi um pouco complicado mas, ao experimentar o primeiro pedaço, nunca mais quis saber de ouro diferente. Foi o melhor sashimi da vida dela, segundo ela mesma até então.

No segundo dia após a pescaria e mais um sashimi no remo, resolvemos passar pela ilha do Tonico, velho amigo pescador que muito nos ensinou e nos acompanhou por aquelas bandas. Infelizmente já está no céu. Quando lá chegamos, adivinha qual era o prato principal do jantar? Isso mesmo, sashimi de corimba. Mas, não era um sashimi normal era o sashimi do Tonico.

Tinha repolho, cebola, cenoura, gengibre, ajinomoto, sal e shoyu, mas o tempero especial ainda estava por vir. As unhas pretas do Tonico. Ele, sem cerimônia, metia as duas mãos dentro da bacia para poder mexer todos aqueles deliciosos ingredientes. Por Deus do céu, foi o segundo melhor sashimi que a Andréa já comeu na vida dela, segundo ela mesma.

E assim como eu e meu pai, ela se apaixonou por aquele lugar, passou a gostar de sashimi, e a curtir o que a vida e a natureza nos reservam. O sashimi do Tonico infelizmente não teremos mais. Mas o sashimi no remo de meu pai, Jesus Zorzi, ainda nos acompanha e foi o que nos rendeu outras histórias. Mas aí é outra história. Graças a Deus.

Jener Queiroz Zorzi é pescador e contador de histórias.