09 de julho de 2026
Tribuna do Leitor

Minha gravata predileta - In memorian pastor Lelo


| Tempo de leitura: 4 min

Vivemos em tempos que nos conduzem cada vez mais à informalidade no modo de vestir. Convivem simbioticamente a elegância com o “desleixo” numa mesma composição de vestuário, vistas nas calças jeans combinadas a paletós, ou nas estratégicas e intencionais aberturas dilaceradas das peças femininas, mostrando pouco e insinuando muito...

Dentre as peças da indumentária masculina, a tradicional gravata talvez seja a menos suscetível aos cíclicos modismos. Podem-se alterar os modelos, mas ao longo da história ela sempre se fez presente, dependurada nos pescoços daqueles que quisessem melhor se apresentar socialmente. Quer alguém avaliar a elegância de um cavalheiro? Observe o estilo de sua gravata. Confesso que sempre tive esse hábito...

Há cerca de 20 anos, ao final de um culto, na igreja Cristã Renovada, o pastor tinha o amável costume de despedir-se dos fiéis na porta do templo. A gravata que ostentava, de muito bom gosto, combinava harmoniosamente com o restante do vestuário e me chamou a atenção. Num ímpeto, elogiei-a.

Para minha surpresa e constrangimento, o carismático pastor me perguntou: você gostou? Então tome, é meu presente para você. De imediato, retirou-a do pescoço e a entregou, todo sorridente.

Agradecido, abracei-o afetuosamente. Não tanto pelo presente em si, mas pela inusitada atitude de desprendimento e carinho desse excepcional homem de deus: pastor Lelo.

Conheci o Lelo nos idos de 1970, quando aqui cheguei para iniciar minha carreira como oficial da polícia militar. Na comunidade evangélica que passei a frequentar, havia uma entusiasmada mocidade, os “jovens livres no senhor”, liderada por ele. O testemunho desse grupo, que se dedicava não só ao louvor e oração, mas a atividades filantrópicas e em praças públicas, impactou minha fé e potencializou meu amor a deus.

Uma profícua amizade foi se consolidando ao longo dos anos entre nossas famílias. Fomos a sua festa de casamento, acompanhamos suas amadas filhas giovana e giani nascerem, crescerem e se tornarem as mulheres que hoje são, e contemplamos o brilho nos olhos do Lelo e da nida no nascimento da graciosa netinha. Nossas relações familiares sempre foram enriquecidas pela comunhão com esse abençoado casal.

O Lelo sempre foi um pastor presente e dedicado aos interesses de nossa cidade. Por várias legislaturas, soube com humildade e dedicação honrar nossa câmara municipal. Dedicou-se por quase 40 anos ao ministério pastoral. Foi um devotado servidor na biblioteca da faculdade de odontologia da usp, onde pudemos testemunhar respeito e carinho por parte dos alunos, funcionários e professores.

Por sua incansável disposição em servir ao próximo e pelo amor incondicional que pautava seu estilo de vida, sempre se constituiu numa espécie de plano b. Quando tudo falhava e a emergência da situação nos angustiava, o que vinha à mente era: vamos chamar o pastor Lelo. Muitas vezes, nem era preciso chamar. Ele logo se fazia presente ao saber da necessidade de alguém...

Dentre as inúmeras vezes em que nos socorreu, destaco o acontecido certa noite, quando um dos meus filhos, ainda pequeno, engoliu uma enorme moeda. Entramos, tarde da noite no hospital, em desespero, aguardando assistência médica, quando o Lelo chega. Ele mal se inteirou do ocorrido, dependurou meu filho pelas pernas e começou a aplicar tapas nas suas costas. A moeda foi expelida antes que o médico chegasse!

Numa outra ocasião, estávamos em casa com uma situaçao difícil. Uma família que nos procurou e trouxe um rapaz com sérios problemas psíquicos e espirituais, descontrolado e agressivo. Chamamos o Lelo e a situação foi resolvida. Sempre foi assim... Ele fazia-se presente, chorando , orando e consolando os que choravam. Foi assim com minha família e inúmeras outras de nossa cidade.

Ele era o plano b de muitas pessoas, independentemente da opção religiosa ou da condição social. Ele foi um semeador, e os frutos de sua intensa semeadura se encontram aos milhares em bauru e por esse brasil afora, na expressão de vidas salvas, restauradas e famílias reconciliadas. Mas, de repente, deus o chama para si, deixando-nos órfãos de um amigo, um irmão e um pai.

Perdemos um notável homem de deus. Sem dúvida, Lelo çombateu o bom combate, terminou a carreira e guardou a fé. Há muitos presentes que ele nos deixou, de valor incalculável. Mas há um, simples, que guardo com especial carinho e afeto: minha gravata predileta.

Cel PM res. Laerte Soares de Souza