08 de julho de 2026
Geral

‘Medo’ de computador gera segregação

Luiz Beltramin
| Tempo de leitura: 5 min

Acessível a cada vez mais pessoas, seja por facilidades no pagamento ou pela proliferação das lan houses, presente desde os mais requintados centros comerciais até os mais humildes bairros da periferia, o mundo digital, apesar de fazer parte do universo da população de baixa renda, ainda é excludente.

Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) indicam que 56,4 milhões de brasileiros com mais de 10 anos já tinham acesso a algum tipo de conteúdo da web. Há três anos, eram 31,9 milhões.

Embora o número de usuários na Internet no País tenha subido 75,3% entre 2005 e 2008, a taxa de crescimento poderia ter sido ainda maior. Mas quesitos sociais e educacionais ainda prejudicam a democratização da Internet no Brasil, aponta o IBGE.

De acordo com o instituto, que fez o levantamento como parte da mais recente Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), também existe a resistência por parte de algumas pessoas, que se negam a aderir a um universo em que até mesmo serviços importantes, como expedição de documentos ou até pequenas queixas à polícia, são feitas por meio eletrônico.

Por falta de interesse, justificada em alguns casos simplesmente por “medo” de encarar um mundo em que a estrutura física do papel é substituída por bytes, bits e outros termos que povoam o mundo virtual, muita gente se esquiva do computador.

Contudo, alguns “heróis da resistência” acordam para a nova realidade ao perceberem que, com a negação pelo uso da tecnologia, correm o risco de integrarem a moderna lista de exclusão chamada de “analfabetismo digital”.

Foi para não ficar para trás e, principalmente, otimizar o serviço, é que o funcionário público Ubiratan Alves da Silva, de 65 anos, resolveu tomar coragem e encarar o “bicho de 7 cabeças” eletrônico dentro de casa.

Bira, como é conhecido na Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel), elabora tabelas de campeonatos de futebol e redige informações sobre resultados e classificações dos torneios organizados.

Responsável por enviar as notas esportivas aos órgãos de imprensa da cidade, Bira, apesar de se render à informática, continua com a boa e velha companhia da máquina de escrever na mesa de trabalho.

Mesmo ao digitar fichas e tabelas das competições na antiga, mas ainda ativa, Olivetti, Bira diz que a ideia é migrar totalmente para o universo digital.

Porém, nem sempre foi assim, lembra o funcionário, que até pouco tempo atrás não queria nem chegar perto do computador. “Hoje uso muito o PC, mando e-mails. O básico do básico já estou sabendo”, afirma.

“Mas até ano passado eu não mexia e não tinha computador. Meu filho comprou um e deixou em casa. Fiquei meses só olhando para a máquina”, conta, bem humorado. “Pensava: ‘caramba, uma hora vou ter que mexer mesmo”, completa.

“Com o tempo vi que estava perdendo muita coisa. Pensei: ‘poxa, estou dando uma de burro’”, diverte-se. “Hoje sou ‘mobralizado’ em computador”, brinca. “Desde que me conheço por gente mexo com máquina de escrever, mas estou me adaptando bem”, considera Ubiratan, que conta com a consultoria caseira da neta, de 21 anos.

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Outro mundo

Nem mesmo o fato de morar durante anos no berço tecnológico mundial fez com que a balconista Patrícia Torini da Costa, de 40 anos, conseguisse se plugar no universo digital.

Ela conta que, por 14 anos, esteve frente a frente com o que há de ponta no campo de eletrônica e informática, nos tempos em que viveu no Japão.

Patrícia, que trabalhava justamente numa fábrica de componentes eletrônicos, entretanto, afirma que durante todo esse tempo não se interessou em estar inserida na “nova ordem” ditada por terminais eletrônicos e digitais.

“Eu estava muito estressada e preferia não ter contato nenhum com esse tipo de tecnologia”, justifica Patrícia, que ganhava a vida na linha de produção de uma fábrica de monitores para aparelhos de GPS.

Entristecida por estar do outro lado do mundo – onde sequer tinha computador -, longe da família e numa rotina estressante de trabalho, Patrícia retornou ao Brasil. Mesmo assim, ela ainda levou dois anos para dar os primeiros passos, ou cliques no mouse.

“Voltei, mas ainda levei muito tempo para me interessar em aprender”, comenta a balconista, ao recordar que não sabia sequer ligar o computador. “Faltava interesse. Eu também achava que não conseguiria aprender nada”, alega.

Hoje, um ano e meio após ingressar em curso de informática, ela afirma que pretende buscar uma oportunidade de emprego relacionada ao setor.

Por enquanto, a aluna da escola Eurodata, em Bauru, concentra-se nos estudos e, vez ou outra, aventura-se pelas salas de bate-papos e redes sociais, nas quais ela ainda se intitula marinheira de primeira viagem.

“Ainda não tenho computador em casa”, justifica a balconista, ao alegar que não informatizou o lar por razões financeiras. “Divido as despesas com a minha mãe, mas agora tenho vontade de computador em casa e pretendo comprar assim que puder”, almeja.

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Acesso à Internet no Brasil é inferior a Chile e Argentina

O crescimento de 73% no número de brasileiros com acesso à Internet, verificado entre 2005 e 2008 pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda não é suficiente para deixar o País à frente de vizinhos como Chile e Argentina.

Enquanto o Brasil tem 56,4 milhões de internautas, que representam 34,8% da população, a Argentina tem 48,9%, conforme ranqueamento da Internet World Statis.

Em comparação com os chilenos, a diferença é ainda maior, com 50,4% dos moradores do país andino com acesso a rede mundial de computadores, índice um pouco abaixo da média europeia, que é de 52%. O índice médio da América Latina é de 30,5%, contra 60,4% na Oceania e 74,2% na América do Norte.