Barra Bonita - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva inaugurou na manhã de ontem, em Barra Bonita (68 quilômetros de Bauru), a Usina Termoelétrica Barra Bioenergia, que tem capacidade inicial de produção de 66 megawatts (MW) de energia elétrica a partir do bagaço da cana-de-açúcar, a chamada biomassa. Simultaneamente, outras sete usinas termoelétricas foram inauguradas em todo o Estado de São Paulo, o que significa acréscimo de 543 MW de potência instalada.
Durante o evento, empresários cobraram o apoio do governo para que a tarifa de importação do etanol brasileiro pelos norte-americanos seja derrubada. O presidente Lula declarou que o processo de mecanização das lavouras é “irreversível”, defendeu a qualificação dos cortadores de cana e a criação de novos postos de trabalho em outros setores da economia (leia mais nesta página).
O evento estava marcado para 10h30, mas o presidente adiantou em uma hora sua visita à Usina Termoelétrica de Barra Bonita, que faz parte do Grupo Cosan, um dos maiores produtores mundiais do setor sucroenergético. Anexa à usina da Barra, segunda maior unidade processadora de cana-de-açúcar do País, a usina produzirá energia limpa e renovável a partir do bagaço da cana, subproduto que, em geral, é jogado fora após o processo de produção de açúcar e álcool.
Em uma primeira etapa, a Cosan obteve autorização da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) para iniciar a operação comercial de dois tubos geradores com 33 MW de potência cada. Já para a segunda etapa, serão dois tubos geradores de 35 MW de potência cada um, o que irá resultar em capacidade produtiva total de 136 MW, energia suficiente para abastecer o consumo residencial de uma cidade com cerca de 1 milhão e 200 mil habitantes.
Além do consumo próprio, a energia elétrica produzida pela Usina Barra Bioenergia através da biomassa será comercializada para abastecer os mercados interno e externo. “Mudamos porque os empresários do setor mudaram. E mudamos para muito melhor”, afirmou o presidente do Conselho de Administração da Cosan, Rubens Ometto Silveira Mello. “A Barra Bioenergia contribuirá de maneira importante com as necessidades de consumo de energia elétrica limpa e ambientalmente equilibrada”.
Elio Neves, presidente da Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp), defendeu em seu discurso o processo de produção de energia limpa e renovável a partir do bagaço da cana-de-açúcar, mas chamou atenção para o risco de desemprego que a mecanização nas lavouras trará a milhares de trabalhadores rurais. Para ele, a única saída é o investimento do governo em qualificação para que esses trabalhadores tenham oportunidade de gerar renda.
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Projetos de qualificação
Em Barra Bonita, de acordo com o prefeito José Carlos de Mello Teixeira (PPS), o Nenê, no final de agosto tiveram início cursos de requalificação para trabalhadores rurais que atuam no corte da cana-de-açúcar e que perderão seus empregos com o fim da colheita manual do produto, prevista para terminar até 2014, conforme Protocolo Agroambiental firmado em 2007.
A iniciativa faz parte do Projeto Renovação, desenvolvido pela União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), em parceria com a Federação dos Empregados Rurais Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp) e com apoio das empresas Syngenta, John Deere e Case IH, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Sindicato dos Trabalhadores Rurais e prefeitura.
Os cursos, realizados na Incubadora de Empresas com treinamentos para as funções de couro em calçados, corte e costura, pães e doces e inclusão digital, são ministrados pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), totalizando 100 vagas.
O município também oferece estrutura para quem quer estudar e não tem com quem deixar seus filhos por meio de uma creche que funciona no período noturno. No local, as crianças recebem a atenção de monitoras, alimentação e fazem atividades recreativas. A creche fica na Cohab, na Casa da Criança, junto à creche Mundo Encantado e, atualmente, atende 70 crianças em diversas faixas etárias.
Além disso, em julho, a prefeitura assinou contrato de concessão de uso da área que abrigava o extinto Sítio Escola para que o Sindicato dos Empregados Rurais da cidade possa desenvolver no local atividades de produção, qualificação e requalificação profissional que estimulem a geração de emprego e renda para as famílias. O projeto será executado em parceria com Feraesp e Grupo Cosan - Usina da Barra.
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‘Marco para o setor de energia’
Após o descerramento da placa que inaugurou oficialmente a Usina Termoelétrica Barra Bioenergia, chegou o momento mais esperado do evento. Falando para políticos, empresários e cortadores de cana, o presidente Lula destacou a importância de se investir em geração de energia alternativa. “Hoje é um marco importante para nós do governo, para nós trabalhadores, para nós empresários e, sobretudo, para o setor de energia”, pontuou. “Estamos produzindo energia de uma coisa que era jogada fora.”
De acordo com ele, as oito unidades de produção de energia a partir da biomassa inauguradas ontem contam com recursos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). No total, foram investidos R$ 900,4 milhões, dos quais R$ 853,61 milhões até o final deste ano. Lula destacou ainda que, no seu governo, a potência de energia instalada no Brasil teve acréscimo de 28,4 mil MW, sendo 4 mil MW em biomassa.
“Faz tempo que eu não venho fazer uma reunião que atinge uma expectativa que eu sonhei, que os empresários sonharam, que o Brasil precisava e o mundo precisava e que, agora, nós estamos concretizando, senão na plenitude que nós gostaríamos, mas estamos dando um passo extraordinário para construir e mostrar ao mundo condições de produção de energia alternativa que possam livrar o mundo da emissão de gases do efeito estufa que tanto problema tem causado ao planeta Terra”, afirmou.
Em relação à mecanização da colheita da cana, chamada por ele de “irreversível”, Lula ressaltou a importância do processo de qualificação da mão-de-obra para que os cortadores possam migrar para outros setores da economia, sem que haja crescimento nos índices de desemprego. “Nós vamos ter que criar outros tipos de serviços para vocês, sobretudo as mulheres”, enfatizou. “Nós achamos que é desumano um ser humano trabalhar no corte de cana”.
O presidente encerrou seu discurso elogiando os empresários do setor sucroalcooleiro e garantiu que os incentivos federais irão continuar. “Da parte do governo federal, vamos continuar a fazer todo o incentivo, porque nós no Brasil não apenas falamos em um mundo menos poluído, mas cumprimos nossa parte”, disse. “Quando alguém quiser utilizar a palavra energia limpa, tem de olhar para o mapa e ver que aqui a gente não fala, mas faz a energia mais limpa do planeta”.
Durante sua passagem por Barra Bonita, Lula esteva acompanhado do chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, Luiz Soares Dulci, do ministro das Relações Institucionais, Alexandre Padilha, e do senador petista Eduardo Suplicy, bastante aplaudido quando foi chamado à mesa de autoridades. Após o discurso, o presidente deixou o local sem falar com a imprensa.
O evento também contou com a presença dos prefeitos de Areiópolis, Barra Bonita, Bauru, Bocaina, Brotas, Fartura, Igaraçu do Tietê, Mineiros do Tietê e São Manuel, além de vereadores e militantes do PT.
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Tarifa de importação
Em seu discurso, o presidente da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (Unica), Marcos Jank, defendeu maior exportação de energia das usinas para a rede elétrica. Atualmente, de acordo com ele, essa conexão representa apenas 22% do mercado nacional. “Até 2020, podemos atingir mais de dez vezes mais do que isso, chegando a 13.000 MW médios, ou quase três vezes a geração da Usina de Belo Monte (que será construída no Rio Xingu)”, afirma.
Jank também destacou o crescimento da produção de cana-de-açúcar no Brasil nos últimos oito anos. Segundo ele, em 2010, o País produziu o dobro do que era produzido no final de 2002, atingindo 640 milhões de toneladas ao ano. A produção de etanol também dobrou, revela o presidente da Unica, passando de 13 bilhões de litros em 2002 para 29 bilhões neste ano. E, para que esse ritmo seja mantido, ele cobrou maior apoio do governo em relação ao fim das tarifas de importação.
“Hoje é um dia de festa para a bioeletricidade”, disse. “Presidente, contamos com o seu empenho pessoal junto ao presidente Obama para evitar que essa tarifa inaceitável seja novamente renovada”. Os Estados Unidos cobram US$ 0,54 por galão de etanol exportado pelo Brasil. A tarifa está prevista para ser extinta em 31 de dezembro, mas o Congresso norte-americano avalia projeto para mantê-la.
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Sobre a Cosan
A Cosan é a maior produtora mundial de energia elétrica a partir do bagaço e da palha da cana-de-açúcar. Todas as 23 unidades do grupo, das quais 21 ficam no Estado de São Paulo, uma em Goiás e uma no Mato Grosso do Sul, são autossuficientes no consumo de energia e 12 delas já têm contratos de longo prazo para a venda de energia.
O potencial de capacidade da companhia, de 1.200 MW, quando estiver totalmente instalado, irá gerar energia suficiente para abastecer as residências de uma cidade com 12 milhões de habitantes. No último ano-safra (2009/2010), a venda de energia elétrica pela Cosan alcançou receita líquida de R$ 92,4 milhões, com a venda de 569 mil Mw/h em seis unidades: Costa Pinto, Rafard, Serra, Gasa, Tarumã e Maracaí.
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Usinas Termoelétricas no Estado
Simultaneamente à inauguração da Usina Termoelétrica Barra Bioenergia, em Barra Bonita, o ministro de Minas e Energia, Márcio Pereira Zimmermann, participou da cerimônia de inauguração da usina Cocal 2, em Narandiba, enquanto o secretário de Energia Elétrica do ministério, Ildo Wilson Grüdtner, visitou a usina Conquista do Pontal, unidade da ETH Bioenergia, no Mirante do Paranapanema. As três solenidades foram interligadas via satélite.
As demais usinas termoelétricas movidas a partir da biomassa inauguradas ontem foram a Clealco-Queiróz, em Queiróz; Iacanga, em Iacanga; Destilaria Andrade, em Pirangueiras; Noble Energia, em Sebastianópolis do Sul, e Açucareira Ester, em Cosmópolis. As oito unidades possuem 543 MW de potência instalada e 194,6 MW médios de energia assegurada ao sistema elétrico.