10 de julho de 2026
Política

Eleitor caminha para o voto regional

Lígia Ligabue
| Tempo de leitura: 5 min

De um bate-papo informal entre especialistas políticos e de comunicação surgiu um panorama da eleição de hoje. A tendência dos eleitores é pela regionalização do voto. Mas a falta de continuidade do processo político na cidade faz com que Bauru tenha dificuldades em participar desse processo. Na conversa descontraída realizada no Espaço Café com Política, o cientista político Celso Zonta, o especialista em direito eleitoral Luciano Olavo da Silva, o especialista em marketing eleitoral Lupércio Zampieri e o presidente da Associação Paulista de Jornais (APJ) e diretor do Grupo Cidade Renato Zaiden discutiram o perfil dessa eleição num bate-bapo conduzido pelo gerente de produtos editorais do JC, João Jabbour.

A conversa foi ao ar após a realização do primeiro dia do debate entre os candidatos a deputado federal realizado nos dias 25 e 26 de setembro pelo site JCNet, em parceria com a TBR Produções e a Renato Cardoso Comunicação Digital, sob chancela do Jornal da Cidade. O vídeo do bate-papo está no www.jcnet.com.br, link Café com Política.

Para Zonta, a cidade carece de representatividade federal. “O tamanho da cidade, mais de 240 mil eleitores, credencia e oportuniza a necessidade de que tenhamos representatividade para esse volume de cidadãos no Congresso Federal. E não temos tido sucesso junto com a região nesse sentido. Os votos têm sido pulverizados e a cidade não tem uma voz que a represente faz um tempo”, pondera. O cientista político também ressaltou que os candidatos deverão, além de ter ideias que representem o projeto de desenvolvimento regional, a preparação para debater temas nacionais.

Já Olavo avaliou que mesmo sendo eleito por uma região, não há ferramenta jurídica que atrele o deputado federal a ela, uma vez que o deputado representa toda a sociedade. “Ele é representante do povo. O deputado estadual junto ao governo do Estado e o federal, junto à União. Então, essa questão do candidato não representar a região existe, mas me parece que por mais que nós, de uma determinada região, possamos unir forças para eleger um candidato, a rigor ele não está amarrado a essa região. A não ser que haja uma mudança na legislação, a implantação do voto distrital”, pondera.

Para ele, essa medida facilitaria tanto para o candidato, quanto para o eleitor. Para o primeiro, haveria maior conhecimento das demandas de sua área. Já para o eleitor, haveria mais condições de cobrar do deputado a execução de promessas. Porém, ele avalia que se for mantida a forma atual, sem o voto distrital implementado por lei, mas com cada região votando em seu candidato, algumas áreas do Estado ficariam desguarnecidas.

“Isso implica que alguma região não elegeria o seu representante. Então, como ficaria o caso dessa região? Entendo que é valido, desejável que o candidato seja atrelado a uma região. Mas para que não haja uma região que saia perdendo, como acontece com Bauru atualmente, seria necessário que as pessoas tomassem consciência dessa necessidade e o sistema de voto distrital fosse implantado”, pontua.

Lupércio aponta que enquanto não há voto distrital, os candidatos insistem em apresentar o discurso de que vão representar o eleitor e fogem de outros temas.

“Isso torna todas as candidaturas homogêneas. Sinto falta da discussão de qual é o papel do deputado federal. É importante para o eleitor entender o papel do candidato e o que ele fará para mudar a vida desse eleitor é o que vai levar esse cidadão a escolher entre um ou outro candidato”, observa.

Diferentes perfis

Renato Zaiden destaca que atualmente há dois tipos de candidato. “O despachante, que vai lutar por verbas e o interesse da região. E o deputado legislador, que é o que vai representar o povo no Congresso Nacional, na produção de leis que vão interferir no nosso cotidiano. De uma forma ou de outra, a região busca hoje mais a representatividade do despachante do que a do legislador”, pondera.

Para o presidente da APJ, nos últimos anos é perceptível que as candidaturas em Bauru ficaram homogêneas. “Não houve um trabalho político de base para que o deputado pertencesse a um projeto político, um grupo político, criar raízes e referências. Demora alguns anos para alguém fazer sucesso do dia para a noite. Qual o histórico político desses candidatos a deputado nos últimos anos, nos últimos desafios políticos que a cidade e região tiveram? Qual foi a presença, qual foi a liderança, o postulado desse candidato? Aí, a três ou quatro meses da eleição se lança uma campanha. A cidade fica distante do processo porque os políticos também estão longe do eleitor”, avalia.

Para Lupércio, há amadorismo na renovação de políticos. “E quando ela acontece é pela vontade de um candidato, e não de um grupo.”

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Momento de evolução política

O cientista político Celso Zonta considera que o momento atual é de evolução. “Está mudando o tipo do voto. No período pós-ditadura, surgiram novos partidos e havia a necessidade de termos representantes no Congresso que pensassem de maneira universal. Passado esse processo e colocado isso em prática, estamos vivendo uma tendência natural a uma certa distritalização, e digo isso porque pesquisas que tenho lido apontam para uma certa regionalização do voto. Tradicionalmente em Bauru, 40% dos votos eram para deputados de fora e houve eleição em que se chegou a 60%, se não me falha a memória. Mas acredito que essa tendência será bem menor nessa eleição.”

Para Luciano Olavo da Silva, há uma tendência do eleitor para a regionalização. “Sensibilizado por uma demanda da população de Bauru que quer ter um deputado federal e mais de um estadual”, aponta. Porém, ele coloca que ao ser considerada uma atitude prática para o voto distrital, a lei empaca. “Quando a questão é levada para os projetos de reforma política no Congresso Nacional, ela é polêmica. Tanto que na mini reforma ela não foi inserida. Foi uma oportunidade perdida. Essa questão nunca está madura o suficiente a ponto de ser inserida na legislação. Há uma resistência dos candidatos e políticos. Qual o motivo dessa resistência? O candidato se apresenta como candidato da região, mas quando é eleito e está no Congresso e esse assunto é colocado em pauta, há uma resistência. Qual o motivo?”, questiona.