Pelé já era “de outro mundo” no tempo em que seu apelido era Dico em Bauru. “Ele era fora de série já com 13 para 14 anos”, define o ex-jogador Roberto Navarro, goleiro do Noroeste nos anos 50 e 70.
O senhor Edson Arantes do Nascimento, Pelé, completa 70 anos de idade hoje numa trajetória insuperável no esporte mais amado no mundo. Descalço e nos campos improvisados de Bauru, Dico, apelido de infância, fez fama e muitos amigos na cidade. No Bauru Atlético Clube (BAC) chamou a atenção do ex-jogador Waldemar de Brito, que assumiu como treinador do time juvenil.
O pai de Pelé, seo Dondinho, mudou-se para a cidade para jogar no time profissional do BAC. E o filho Dico manteve a tradição do pai com a camisa do Baquinho. Com 15 anos, Pelé foi para o Santos levado por Waldemar de Brito. O começo na Vila Belmiro exigiu paciência do garoto, que chegou em um time que só tinha titulares e era bicampeão Paulista. Pelé começou a mostrar sua bola definitivamente no time da Baixada Santista ao substituir Del Vecchio em um torneio amistoso na partida contra o Corinthians de Santo André. O garoto fez o sexto gol da vitória santista por 7 a 1.
Daí em diante Pelé foi construindo o mito “Rei do Futebol”. O esquadrão santista arrasava adversários com placares do tipo Santos 11 a 0 contra o Botafogo, de Ribeirão Preto, em 21 de novembro de 1964, pelo Campeonato Paulista. O Rei do Futebol fez oito gols nesta partida. Pelé foi eleito Atleta do Século XX em 1980.
A casa onde Pelé cresceu em Bauru, na rua 7 de Setembro, 4-10, poderá ser um memorial do esporte. A Prefeitura de Bauru negocia com familiares de Pelé a compra da residência, que já teve o processo de tombamento aprovado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural de Bauru (Codepac). Caso o projeto se concretize, parte da história do Rei do Futebol em Bauru será preservada, como alguns relatos que o JC publica hoje.
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Chapelaria na defesa juventina
Pelé fez gols de tudo quanto foi jeito na sua coleção de 1.281 inesquecíveis. Maltratou os adversários de todas as formas, mas sempre com o único objetivo de dar o status de arte a um esporte popular. Impossível é a tarefa de selecionar apenas um gol do Rei do Futebol. O que ganhou busto em homenagem ao craque do Santos no estádio Conde Rodolfo Crespi, na Rua Javari, foi em jogo válido pelo primeiro turno do Campeonato Paulista, no dia 2 de agosto de 1959.
Pelé aplicou quatro chapéus sequenciais que limparam a área de adversários entre ele e o gol, no lado da “Creche”, como é conhecido as traves postadas em um setor do campo vizinho a uma creche. O atacante completou de cabeça para o gol vazio, enquanto o goleiro juventino Mão de Onça, caído, lançou um olhar de desolação e esmurrou o gramado.
O bauruense de coração, o ex-jogador Agostinho Zeola, 76 anos, testemunhou o lance inacreditável atuando pelo Moleque Travesso. A 30 metros do início do lance, Zeola teve a imagem do golaço gravada em sua memória. O ex-jogador relembra que o primeiro a ser driblado foi Julinho, depois Homero, Clóvis, por fim, um balãozinho no goleiro. “Aí veio o Mão de Onça bravo querendo pegar tudo. Tomou o chapeuzão. Ali era o gol da Creche como é até hoje. Eram só de santistas que quase invadiram o campo. Foi um gol espetacular”, comenta.
O gol antológico foi o terceiro de Pelé na partida. O tento marca também a primeira vez que Pelé socou o ar em comemoração a um gol, como forma de responder aos juventinos que pegavam no pé do craque. Esse gol não foi filmado e só há fotos. O busto foi inaugurado com honras em 2006 para quem quiser conferir na entrada do mítico estádio da Javari.
A partida na tarde de agosto de 1959 também marcou o início de uma relação que poderia ser de ódio contra o Rei do Futebol. Antes do gol mais bonito, Pelé e o zagueiro do Juventus, Pando, protagonizaram um lance dramático para a carreira do jogador juventino. Em uma dividida com Pelé, Pando quebrou a perna esquerda e ficou um ano e dois meses fora dos gramados.
Zeola relembra que Pelé pediu para que o amigo de Bauru intercedesse junto ao zagueiro para que maneirasse nas entradas. “Ele falou: ‘Comigo não tem nada disso não’. Aí, ele (Pelé) veio com uma bola no meio campo e jogou para o Pando. O Pando foi chutar e ele meteu em cima da canela do Pando. O pé puxou para baixo e rasgou tudo. Você precisava ver como ficou a perna do rapaz. Aí, o Pelé falou: ‘Estou te avisando desde o começo e você está batendo. Tem que bater uma vez só’. (risos) Como ele fez”, relembra Zeola. “Nada de mágoa”. Foi o que afirmou Pando presente na Javari no dia da inauguração do busto em homenagem a Pelé.
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Goleiro e Pelé
O goleiro Roberto Navarro sentiu na pele as jogadas imprevisíveis do Rei do Futebol para ludibriar a marcação e vencer os arqueiros. Em recente entrevista ao apresentador Jô Soares, da Globo, Navarro contou duas passagens que definiam bem as manhas de Pelé para superar os adversários.
O goleiro defendeu o Noroeste no período entre as décadas de 50 e 70. Navarro conta que em uma das partidas atuando contra o Pelé na Vila Belmiro, Pelé fez uma das jogadas que se repetiriam milhares de vezes. O ex-goleiro conta que, em um toque de bola, o Rei matou dois zagueiros e um goleiro. Navarro conta que esperava Pelé matar de peito a bola cruzada da esquerda para dar o bote no atacante de costas para o gol. Um beque imaginou conter Pelé antecipando de peito. Enquanto o quarto-zagueiro ainda estava na sobra fechando. Os três foram ludibriados com um sutil toque de Pelé, de costas para o gol, puxando a bola sem dar oportunidade para os adversários terem reflexo para agir. “Eu caí com a bola dentro do gol. Pulei e peguei lá dentro”, narra Navarro.
A cobrança de pênalti com a paradinha de Pelé pode ter sido aplicada pela primeira vez em cima de Navarro. O goleiro conta que nunca defendeu as cobranças do Rei do Futebol exatamente porque Pelé usava sua paradinha contra os goleiros. Em um dos confrontos entre o goleiro noroestino e Pelé, também na Vila Belmiro, Navarro conta que disse ao amigo de infância que sabia onde ele bateria. “Ele veio correndo e parou. A paradinha foi na minha cabeça que ele inventou. Deu a paradinha e eu fui com tudo. Comecei a patinar porque no gol dos Santos era areia. Fiquei branco de cal da risca”, conta o ex-goleiro.
Navarro também teve dia de goleiro-artilheiro. Na reposição de bola em jogo, cobrando tiro de meta, Navarro fez um gol em 1971 no confronto contra o Taubaté, no Alfredo de Castilho. “Chutei do lado dos eucaliptos e a bola entrou no outro gol da entrada. O jogo estava difícil e abriu caminho. O time deles ficou desnorteado, o Noroeste tinha um time bom e ganhamos de 6 a 1”, comemora.
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Artilheiro
de sapato
O primeiro prêmio ganho por Pelé foi um par de sapatos. O historiador e jornalista Luciano Dias Pires, editor do Bauru Ilustrado, suplemento mensal do JC, conta que o garoto foi o artilheiro anotando ao todo 26 gols pelo Baquinho no Campeonato Juvenil de 1953, finalizado em janeiro de 1954. A Casa Nicola, comércio de calçados e chapéus, ofereceu como prêmio ao artilheiro um par de sapatos.
O torneio foi disputado por 29 equipes infanto-juvenis. No dia 23 de fevereiro de 54, o jornal Diário de Bauru estampou a seguinte notícia: “Ontem à tarde, em companhia do seu genitor (Dondinho), Pelé esteve naquela casa comercial, onde recebeu o prêmio a que fez jus”.